16 de novembro de 2012

Cinquenta Anos


Cinquenta anos é um período de tempo relativamente curto, se considerarmos a idade do universo ou o tempo da história. È um percurso longo para a duração da vida individual. Coube-me em sorte viver os cinquenta anos centrais da minha vida num contexto que abarca transformações marcantes para a história social, política, cultural e religiosa do mundo, da Igreja e do nosso país. A comemoração, este mês, do cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II suscitou-me a reflexão sobre eles. 
Quando se iniciaram os trabalhos do Concílio, a 11 de Outubro de 1962, estava no auge a guerra fria. Um ano antes, fora construído o muro de Berlim para separar física e simbolicamente a zona sob domínio soviético da restante Europa. Nesses mesmos dias, a 14 de Outubro, os Estados Unidos divulgavam provas da presença de mísseis soviéticos em Cuba e exigiam a sua retirada imediata. Durante 13 dias o mundo ficou suspenso da iminência duma guerra nuclear, apenas afastada, a 28 de Outubro com o acordo para a sua remoção. 
Na China, Mao Tse Tung rompera com a Únião Soviética, quebrara a unidade do mundo comunista e iniciara o Grande Salto em Frente e precipitara o país numa vaga de fome. A revolução cultural intensificou a repressão interna e exportou a contestação radical para o Ocidente. Viria a seguir o refluxo que conduziu ao socialismo de mercado, à industrialização e à transformação da China na potência económica atual.
Tanto John Kennedy e os governantes da época como os Padres conciliares que incluíam 59 bispos polacos e lamentavam a ausência de muitos outros impedidos pelos governos comunistas estavam longe de pensar que o regime soviético e a sua cortina de ferro não duraria mais trinta anos. O muro de Berlim caiu em 1989, a Alemanha foi reunificada em 1990 e a União Soviética dissolvida em 1991.
Nesse começo do Concílio, ninguém sonharia que o jovem bispo Karol Wojtyla, de 42 anos, ali presente, seria, um dia, eleito Papa e protagonista destas transformações “impossíveis” na Europa. Sem qualquer divisão do exército, a ação corajosa de João Paulo II e da Igreja polaca foi decisiva para desfazer a repartição da Europa e a hegemonia dos partidos comunistas que, com a anuência das potências ocidentais, Estaline tinha conseguido em Yalta, em 1945.
No quadro da guerra fria, das políticas concorrentes da União Soviética e dos Estados Unidos e da interposição da China para repartirem as zonas de influência, começou, em 1961, a resistência armada nas colónias portuguesas de Angola, Guiné e Moçambique. Os seus líderes foram recrutados e armados por essas potências com o apoio dos países africanos. Agostinho Neto de Angola como Amílcar Cabral da Guiné fizeram os estudos em Lisboa e foram encaminhados pelo PCP para a órbita da União Soviética que apoiou o MPLA até na guerra civil após a independência com o recurso às tropas cubanas. Holden Roberto e Jonas Savimbi educados em missões protestantes receberam o suporte dos Estados Unidos. Savimbi receberia ajuda da China, também na guerra civil contra o MPLA na lógica da rivalidade entre Pequim e Moscovo.
Os anos sessenta e setenta foram marcados na Igreja portuguesa pelo Concílio e pós-Concílio e pelo contexto social e político do avolumar da resistência política ao regime de Salazar reforçada pela guerra colonial. O Concílio suscitou entusiasmo numa camada mais jovem de padres atentos aos recentes desenvolvimentos teológicos e leigos mais envolvidos na ação da Igreja. Em contrapartida, foi recebido com desconfiança por sectores de formação mais ritualista e tradicionalista, que confundiam mudança com cedência e subversão. A clivagem interferia com a esfera política e ideológica e extrapolava duma para a outra, evoluindo da aplicação simplista das catagorias esquerda/direita para a de progressista/reacionário até ao extremo comunista/fascista.
D. António Ferreira Gomes, o Bispo do Porto que, na carta de 13 de Julho de 1958, criticara a política do regime de Salazar e por isso fora exilado era a referência dos mais comprometidos no plano social nomeadamente os movimentos de ação católica operária e estudantil. Estes movimentos estimulavam os militantes católicos a refletirem, através do método, “ver, julgar e agir”, o quotidiano da vida e do trabalho à luz do evangelho e da doutrina social da Igreja para os motivar para a intervenção social e política no seu meio. Pelo sua própria natureza de movimentos de apostolado estavam abertos à participação de todos. Não admira que, com o agudizar da contestação política e da repressão, fossem aproveitados por uns como espaços de liberdade, por outros diretamente como oportunidades de penetração ideológica. Em meados de 74, depois do 25 de Abril, acompanhava eu uma equipa da JOC da cidade de Lisboa. Propôs-se aí a supressão do C (Cristão) de JOC para apenas JO (Operária). Não cheguei a saber qual o grau de adesão à Igreja dos presentes. De um outro padre que estava presente vim a saber que era militante comunista. 
Estes movimentos de Igreja prepararam militantes e habilitaram-nos com conhecimentos e técnicas para a participação nas estruturas sociais e políticas. Rara terá sido a organização política ou sindical da esquerda à direita que não aproveitou os militantes formados nos movimentos da Igreja. 
As expectativas e a reação perante as decisões do concílio provocaram clivagens no clero e nas estruturas eclesiásticas.. O concílio não foi apenas uma repintura da fachada de Igreja, mas transformação significativa das suas estruturas. O choque de expectativas provocou conflitos entre padres, entre padres e bispos e a formação de blocos que radicalizaram acusações de infidelidade e desvios de ortodoxia. Houve manifestos, polémicas, apelos à opinião pública. O mais conhecido foi o do Padre Felicidade. A ausência de hábitos de diálogo, o extremar das posições, impediu a discussão serena dos problemas, provocou decisões autoritárias e reações radicais. Assim se intensificou o abandono de alguns padres que encontraram como resposta às suas dúvidas pessoais ou decisões pessoais refletidas, a incompreensão e a recusa. Casos houve em que a nomeação para a assistência religiosa das tropas ou dos emigrantes ou a nomeação para cargos fora da diocese foram ocasião para afastar padres considerados incómodos e agravar a instabilidade da sua situação pessoal. Casos houve em que os seminários implodiram por conflitos internos e impossibilidade de consenso mínimo para uma pedagogia eficaz. 
O Concílio recordou-nos que a Igreja deve estar no mundo como fermento de transformação. A sua presença não se confunde com o imobilismo. Exige renovada atenção aos sinais dos tempos e a coragem para responder aos seus desafios.
As transformações do nosso tempo confirmaram que a figura deste mundo e os seus poderes são passageiros. As palavras de João Paulo II, no começo do seu pontificado, “Não tenhais medo” são o testemunho dum homem que com a coragem da fé e a coerência da sua ação contribuiu para que o mundo de hoje e a Igreja de hoje sejam muito diferentes do que eram há cinquenta anos.

por Octávio Gil Morgadinho


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