14 de novembro de 2012

Ano de “Fé” em tempo de crise (Editorial)

A Igreja Católica prepara-se para viver um Ano dedicado à Fé, que terá a sua abertura a 11 de Outubro de 2012 e terminará a 14 de Novembro de 2013, com a celebração da..

O objectivo é proporcionar aos cristãos uma oportunidade para aprofundar e fortalecer a “Fé”, a fim de que esta informe a sua vida, a sua acção e comprometa no anúncio de Jesus Cristo.
A Igreja está no mundo e para ser fiel ao seu Senhor/Fundador e à sua missão, como refere o Concílio Vaticano II, é chamada a percorrer o caminho dos homens para lhes revelar e comunicar a mensagem de que é portadora: “Deus quer ser salvação para cada pessoa”. Percorrendo este caminho, a Igreja é solidária com os homens de cada tempo, procurando comungar das suas alegrias, inquietações, esperanças e tristezas. No nosso contexto português, a Igreja tem marcado presença ao lado daqueles que sentem maiores privações e que são as vítimas mais directas da (dês)governação de alguns.
Este Ano de “fé” cruza-se com uma crise, não só europeia, quanto mundial. Esta crise, torna-se uma oportunidade para a Igreja denunciar as ideologias que se opõem a uma existência sem Deus, desprovida de valores humanos e éticos e por isso desrespeitadora da vida, da pessoa humana e seu habitat natural, o universo e anunciar os valores do Evangelho, que são também humanos e, se vividos, são geradores de uma sociedade mais justa, mais irmã, mais fraterna e dum planeta mais habitável. É também um desafio à conversão.
Praticamente no fecho desta publicação, depois de um dia turbulento, na Assembleia da República, mas também nas ruas, um comunicado do conselho de estado, após sete horas de reunião, anunciava a intenção do Governo de recuar na aplicação da TSU.
Ainda bem que assim aconteceu, embora para garantir as metas da Troika, será necessário cortar noutros âmbitos, mas de forma equitativa, salvaguardando sobretudo, as famílias com baixos rendimentos económicos.
Na verdade, “quando não se quer ver, vê-se o que não se quer”. E assim aconteceu. Quantas vozes se levantaram nos últimos anos a dizer que “o paraíso” em que se vivia, não podia durar muito… e agora todos sabem dizer que é incomportável, pois é…
Desviaram-se fundos, multiplicaram-se empresas, fundações, com finalidades ambíguas, tantas vezes a complicar a vida a quem tentava fazer uma honesta gestão dos recursos que possuía, enfim... sonhamos alto e caímos fundo.
E a avançar assim, o país torna-se ingovernável, qualquer que seja a cor política dos governantes. Há diferenças escandalosas que, numa sociedade democrática são inadmissíveis. E isso percebe-se quando se confronta o nível de vida e de ordenados de uma certa elite portuguesa, com outros países. No mínimo é uma vergonha.
As diferenças são admissíveis, mas dentro de um patamar possível e não tão escandaloso, como acontece. Cada vez são menos os que têm mais e mais os que têm menos. Mas não contribuem todos para o bem comum? Faça-se então uma redistribuição mais equitativa, na razoabilidade das diferenças.
Chegamos tão longe, que agora a ameaça da privação declara guerra aberta a quem ousar beliscar qualquer destas mordomias, tenha ele a cor política que tiver. Aliás a revisão da Constituição contempla a eliminação de uns tantos privilégios e será outra ameaça a dar luta a quem neles ousar mexer. 
A esmagadora maioria dos portugueses, de uma forma ou de outra, contribuiu para esta situação, mas agora poucos se permitem reconhecer que tem que haver um conjunto. 
Manifestar indignação e insatisfação, sim, mas há greves e sobretudo no momento actual, que só agravam a situação. Há greves e greves… Mas também as próprias greves muitas vezes são injustas. Uns pensam apenas em si, quando exigem aumento de ordenados e outras regalias, esquecendo-se que há muita gente com ordenados bem mais baixos e têm necessidades idênticas a satisfazer. Outros há, que durante anos tiveram uma conduta sóbria e contida, privaram-se de muita coisa, para poderem obter outras, ou mais tarde, poderem contar com uma reforma digna para a sua velhice; outros há que sempre viveram com o mínimo necessário. Só que agora pagam todos pela mesma moeda. Não há aqui injustiça e desigualdade?. Claro que há… e se os injustiçados, neste domínio se levantassem, entraríamos, sem dúvida, numa profunda guerra civil, mas talvez os mais sacrificados, estejam calados. 
O ideal será cada um ser mais honesto, consigo e com os outros. E, embora, reagindo quando as medidas pareçam beliscar demasiado as possibilidades reais da grande maioria, se cada um assumir a sua parte, dentro das possibilidades que tem, será bem mais fácil. Puxando cada um para seu lado, dificilmente se irá conseguir saldar a dívida. E será insensato passar esta ‘herança’ para as gerações vindouras. Neste sentido, a vivência de um Ano dedicado à Fé, constitui para os cristãos um desafio a viver mais conforme o Evangelho e a não pactuar nestes critérios geradores de desigualdades e desonestidade, que apenas têm em vista o seu próprio bem-estar. 

por Vieira Maria


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