7 de outubro de 2012

Casados e Felizes


13.  Os outros

A experiência do matrimónio é, como vimos da ultima vez, uma experiência de descentramento, ou seja o centro não é cada um por si, mas o outro que é amado e a partir do
qual cada um é.
Esta experiência não se esgota, contudo, a este nível, mas continua, abrindo-se a outros e integrando outros, ainda que vivida de maneira distinta e com contornos diferentes. De facto, a realidade do casamento parte da vida do casal, mas não se esgota de maneira nenhuma aí. Viver esta realidade só a esse nível seria fazer do casamento uma experiência de um egoísmo a dois e mesmo de uma solidão a dois.
O descentramento não termina pois na relação entre os membros do casal, mas abre-se a outras dimensões, sendo a primeira deles a relação com os filhos. É logo neste nível que podemos perceber como a dinâmica do amor conjugal é constitutivamente uma dinâmica de abertura e de dom. Pelo amor, marido e mulher são lançados um para o outro, sustentando-se mutuamente e fazendo-se ser. Desta intimidade e comunhão brota vida nova que acaba por poder gerar novas vidas.
O amor dos dois torna-se então responsável por essas vidas novas que tiveram o seu início neles, mas que são já outros seres, outras pessoas, nas quais o amor do pai e da mãe não pode de modo nenhum ser separado, mas que não pode também ser entendido como propriedade privada dos dois. Os filhos realizam verdadeiramente o mistério do amor que o casal só pode alcançar a esse nível. É nos filhos que os dois são verdadeiramente um. Um que já é outro, e o mistério da vida continua.
Vemos então como esta abertura é fundamental para o amadurecimento e crescimento do amor conjugal. A relação que os pais têm com os filhos é, certamente, de outra ordem da relação conjugal. Todos sabemos que o amor maternal/paternal não substitui, nem pode fazer as vezes do amor conjugal. Sempre que assim acontece, o que acaba por ser posto em causa é a própria verdade da relação mãe/pai filho(os) e da relação marido mulher. Contudo, o amor pelos filhos e a correspon-sabilidade na sua educação é uma realidade fundamental para o amadurecimento e aprofunda-mento do amor do casal.
Ao dizer isto tenho presente a realidade de muitos casais que não têm filhos. Se esse facto não resulta de uma opção em não querer tê-los, não vejo  em quê a reflexão feita anteriormente possa ficar afectada, pois aquela experiência de abertura continua a ser uma realidade, ainda que tenha de ser concretizada de outra maneira.
Para além da abertura a estes outros que são os filhos, a abertura aos amigos é também fundamental para  a vida do casal. Uma vez mais, a concreti-zação será diferente. Também aqui, o amor aos amigos não pode substituir o amor conjugal, nem o amor maternal/paternal. 
Abrir-se aos amigos, não é simplesmente partilhar algum tempo e mesmo algum espaço com eles. Claro que isso também é importante e indispensável. Àquilo que me refiro é algo de mais profundo, implicando uma certa partilha da experiência de vida que vai mais além do mero fruir dos tempos livres e dos momentos de lazer. Também esta experiência me parece fundamental e necessária para o aprofun-damento e concretização do amor conjugal.
A partir deste pequeno itinerário, vemos como tudo começa na vida do casal e se vai, depois, abrindo a outros níveis, acabando por retornar à vida do casal. O amor dos dois abre-se a outros e pode depois ser vivido de novo pelos dois de uma maneira mais densa e mais madura. Os outros, surgem assim como um elemento fundamental de toda esta experiência e vivência. Eles não são substi-tutivos, não podem ser, mas são indispensáveis. Sem eles o amor conjugal certamente ficaria mais pobre e não poderia crescer. 
Nestes diversos níveis de abertura e decentra-mento não falei ainda da relação com Deus. Também aqui não pode haver substitutos. A relação do casal enquanto casal com Deus não se pode confundir com os outros níveis de relação. Mas essa relação não é simplesmente mais uma que se pode somar às outras. Para nós crentes ela é o horizonte onde toda a existência acontece. 
Também por isso este Outro é fundamental para a experiência do amor conjugal.

Por Juan Ambrósio


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