1 de setembro de 2012

O “Mistério da dor”…


No 1.º Capítulo do Génesis, no relato da Criação, lê-se: “No princípio, Deus criou o Céu e a Terra”. Nesse relato, aparece várias vezes como um estribilho: “E Deus viu que era bom" o que tinha criado! Deus que cria do nada, e cria como Lhe é próprio, com sabedoria e por amor. Por isso criou um mundo ordenado, perfeito, que obedece a umas determinadas leis…
Depois criou o homem a quem entregou este mundo tão belo, com o fim de o trabalhar e conservar, usufruindo, simultaneamente, de toda a sua beleza, ordem e harmonia!
No entanto, sabemos por experiência, que a dor e o sofrimento fazem parte da vida de todo o ser humano. Um tema inexplicável que, por vezes, nos entristece e angustia. De onde vem e para que serve?! Perguntamos: um sofrimento causado muitas vezes pelas nossas más escolhas, que nos ferem a nós próprios ou aos outros… A um nível mais global, a liberdade mal entendida de outras pessoas também nos pode afectar, causar sofrimento… E existem a nível da própria natureza, factores diversos que deterioram o organismo humano, ou os fenómenos e catástrofes naturais que destroem parte do mundo e dos homens, em maiores ou menores dimensões.
Os padecimentos e doenças das pessoas sempre foram considerados como grandes dificuldades que atormentam as suas vidas e as próprias consciências.
Por tudo isso, não há explicação fácil para o sofrimento, e muito menos para o dos inocentes, porque a dor continua a ser um mistério. Um mistério que apenas o cristão com fé, vai aprendendo a descobrir e a conviver com essa realidade, do melhor modo possível, apesar de muitas vezes se apresentar dolorosamente inexplicável ou incompreensível.
A dor apresenta-se de muitas formas e em nenhuma delas é espontaneamente querida por alguém. Mas isto não justifica que nesses momentos nos devamos encher de compaixão por nós mesmos, que não devamos ser fortes e solícitos na procura dos meios com que podemos ultrapas-sá-la; ou que nos deixemos abater por qualquer tipo de sofrimento. Desse modo, não faríamos outra coisa porque, na realidade, existem sempre maiores ou menores contrariedades... Pelo contrário, devemos procurar reagir, e impedir a imaginação de transformar qualquer incomodidade em tragédia, reduzindo os padecimentos às suas verdadeiras dimensões. Mais ainda: devemos procurar “esquecer”as nossas mágoas para pensar nos outros e servi-los, como é próprio da primeira de todas as virtudes cristãs, a Caridade.

Mas não é fácil dar resposta ao mistério da dor. 

É verdade que existem algumas explicações que nos fazem vislumbrar o seu sentido, ainda que sempre se nos apresentem insuficientes diante da tragédia do mal no mundo, do sofrimento dos inocentes ou do triunfo – ao menos aparente – dos que fazem o mal. É um tema de reflexão de suma importância, um enigma em que apenas a partir de uma perspectiva cristã se pode avançar realmente, para as entranhas do problema; mas uma reflexão que não nos distraia da batalha diária para perceber e enxugar a dor das demais pessoas, para diminuí-la, procurando fazer dessa experiência algo que nos ensine, que nos faça crescer mais fortes, que não nos destrua.
Referimo-nos à batalha contra a desesperança, contra esse estado anímico que dilacera a alma de tantas pessoas que não encontram sentido para o que acontece nas suas vidas, que as faz arrastar “ os pés da alma”, e caminhar pela vida com uma espécie de fatalismo dramático. A dor própria é talvez a melhor advertência para reparar na dor dos demais, para manifestar-lhes o nosso afecto e a nossa proximidade, e tornar assim mais humano o mundo em que vivemos.
Celebrámos a 11 de Fevereiro passado o “Dia do Doente”e mais um aniversário da publicação da Carta Apostólica Salvifici Dolores, de João Paulo II em 1984, em que discorre sobre o sentido cristão do sofrimento humano que tem o seu fundamento, entre outros, na Epístola de S. Paulo aos Colossenses (1,24): “Completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja”.
O Santo Padre, João Paulo II, diz naquele documento, sobre o sofrimento: “O sentido do sofrimento é verdadeiramente sobrenatural e, ao mesmo tempo, humano; é sobrenatural, porque radica no mistério divino da Redenção do mundo; e profundamente humano, porque nele o homem se aceita a si mesmo, com a sua humanidade, com a própria dignidade e missão.”
“No programa messiânico de Cristo, que é ao mesmo tempo o programa do reino de Deus, o sofrimento está presente no mundo para desencadear o amor, para fazer nascer obras de amor para com o próximo, para transformar toda a civilização humana na “civilização do amor”. Com este amor é que o significado salvífico do sofrimento se realiza totalmente e atinge a sua dimensão definitiva”.
Estas palavras sobre os actos de caridade relacionados com o sofrimento humano, permitem-nos descobrir, por detrás de todos os sofrimentos, o próprio sofrimento redentor de Cristo. Cristo está presente em quem sofre, pois o sofrimento salvífico foi aberto de uma vez para sempre a todo o sofrimento humano. E todos os que sofrem foram chamados a tornarem-se participantes “dos sofrimentos de Cristo”.
Fica claro que a dor e o sofrimento são inerentes à condição humana. Normalmente, o sofrimento suscita compaixão, inspira respeito e, a seu modo, intimida. Mas não há dúvida de que nele, efectivamente, está contida “a grandeza de um mistério específico”. Mistério insondável do sofrimento humano que não é apenas o decorrente de dor física, mas que é também sofrimento moral, que provém de dor da alma, de dor espiritual e que, em cada caso, é sempre benéfico, porque redentor…

por Mª Helena Henriques



0 Comentários:

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More