4 de setembro de 2012

De uma etapa de transição a um Concílio de Renovação


A 28 de Outubro de 1958, era eleito Papa o Cardeal Roncalli prestes a concluir 77 anos. Na sequência de uma carreira diplomática prestigiada assinalada pela reputação de conciliador, capacidade de diálogo e simplicidade de trato, fora nomeado em 1953 Cardeal e Patriarca de Veneza. Não era favorito, à entrada do Concla-ve. Os “papá-veis” eram outros, com tendências mais marca-das. Quando surgiu o “fumo branco”, à surpresa juntou-se o vaticínio: o novo Papa com o nome João XXIII é um “Papa de transição”. Em breve, mostrou com a sua atuação discreta, mas decidida, que ia contribuir para renovar a Igreja, atualizando a sua linguagem e mudando a sua prática para torná-la mais transparente e interventiva no mundo atual. 
Sucedendo a Pio XII, com prestígio indiscutível mas distante e aristocrático, João XXIII assumiu comportamento menos protocolar e convencional, revelando o seu espírito aberto, próximo e acolhedor. Tinha consciência de diferentes expectativas quanto à sua pessoa, umas “amigas e fervorosas”, outras “malévolas ou incertas”. Não demorou muito a tomar as decisões que marcariam definitivamente a Igreja do nosso tempo. 
Três meses após a eleição, na festa da Conversão de S. Paulo (25 Janeiro 1959), perante o colégio dos cardeais, anunciou, “tremendo de comoção, mas ao mesmo tempo com humilde firmeza de propósito” a intenção de convocar um Sínodo Diocesano para a cidade de Roma e um Concílio Ecuménico para a Igreja Universal.
O “Papa de transição” mostra-se decidido a realizar o “aggior-namento” da Igreja e das suas estruturas. No mundo moderno não vê apenas perigos, descobre oportunidades. A Igreja deve construir pontes. Sendo fiel a si própria, deve ser eficaz. Não perde tempo. Em 17 de Maio seguinte, Pentecostes, nomeia a Comissão Anteprepara-tória do Concílio Ecuménico constituída a partir da Cúria Romana e presidida pelo Card. Tardini. Um ano decorrido, a 5 de Junho de 1960, pelo Decreto “Superno Dei”, constitui as Comissões Preparatórias. O fim principal do Concílio será “promover o incremento da fé católica e uma saudável renovação dos costumes do povo cristão, e adaptar a disciplina eclesiástica às condições do nosso tempo”, facilitando a aproximação de todos os cristãos. 
A partir daí, o processo acelerou. O Concílio foi convocado oficialmente no Natal de 61 e inaugurado em 11 de Outubro de 1962. Compareceram 2540 padres conciliares procedentes de todo o mundo livre. Apenas 1060 eram europeus. No discurso inaugural, João XXIII não ignorou as tensões na Igreja entre correntes minoritárias mas influentes, aqueles que “nos tempos modernos não veem outra coisa que prevaricação e ruína…que se comportam como quem nada tem a aprender da História” e uma maioria adepta do rejuvenescimento da Igreja, duma teologia mais centrada na Bíblia, duma prática mais comunitária e participativa inspirada na função real sacerdotal e profética de todo o batizado, duma abertura da Igreja ao mundo. Certos círculos partilhavam a secreta esperança que o Concílio não fosse longe e não operasse mudanças profundas O Papa manifestou claramente as suas preferências: “parece-nos necessário dizer que discordamos desses profetas de calamidades que sempre estão anunciando infaustos sucessos como se estivesse iminente o fim dos tempos.”
Era notória a intenção de imprimir rapidez nos trabalhos do Concílio, elegendo, no primeiro dia, os membros das Comissões e entrando na discussão dos esquemas previamente preparados. Previa-se que a Assembleia aceitasse a linha proposta pela Comissão Preparatória, limitando-se a discutir questões de pormenor. A primeira sessão veio alterar radicalmente o programa. Os Cardeais Liénart, francês, e Frings, de Colónia, propuseram o adiamento das votações para que os bispos se conhecessem e escolhessem conscientemente os seus representantes nas comissões. Aprovada a proposta por aclamação, os trabalhos foram suspen-sos. A eleição, três dias depois, incorporou nas listas uma representação mais correspondente ao pluralismo do episcopado presente. Daí para a frente aumentou a capacidade de intervenção dos padres conciliares que culminou com a revisão dos esquemas apresentados pela Comissão Preparatória. 
Os trabalhos abrangeram quatro períodos: 11 Outubro – 7 Dezembro 1962; 29 Setembro – 4 Dezembro 1963; 14 Setembro – 21 Novembro 1964; 14 Setembro – 8 Dezembro 1965. O encerramento do Concílio Vaticano II teve lugar, a 8 de Dezembro de 1965. 
João XXIII faleceu a 3 de Junho de 1963, com 81 anos. Sucedeu-lhe o Cardeal Montini com o nome de Paulo VI. Coube-lhe a tarefa de concluir o Concílio, e de iniciar a sua aplicação. João XXIII foi beatificado, a 3 de Setembro de 2000, por João Paulo II que esteve no Concílio. Também lá esteve como perito conciliar Bento XVI, teólogo escolhido pelo Cardeal Frings para o acompanhar. 
O Concílio produziu 16 documentos: 4 Constituições, 9 Decretos e 3 Declarações. As Constituições são documentos de fundo que formulam as bases doutrinais e pastorais para o “aggiornamento”, a atualização do pensamento e prática da Igreja e o rumo das reformas a realizar. Os Decretos tratam de aspetos específicos da vida da Igreja. As Declarações abordam as questões da liberdade religiosa, educação cristã e relações da Igreja com as religiões não cristãs.
As Constituições são dedi-cadas: à Palavra Deus como fundamento da doutrina e prática da Igreja (Dei Verbum); à Liturgia como expressão comunitária da vida de fé da Igreja na sua relação com Deus no culto divino (Sacrosantum Concilium); à Presença da Igreja no mundo atual (Gaudium et Spes), nomeadamente à sua posição sobre a dignidade da pessoa humana e da família, à vida económica, social e política e à promoção da paz.
A Constituição Dogmática sobre a Igreja (Lumen Gentium) trata da natureza, missão e estrutura da Igreja. A Igreja é “sacramento ou sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano”(1). É o Povo de Deus, o corpo que tem Cristo por cabeça, o amor por lei e por fim o reino de Deus. Todos os batizados participam do mesmo sacerdócio. “O sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial ou hierárquico (…) ordenam-se mutuamente um ao outro” (10). Todo o Povo de Deus participa da missão profética de Cristo, “difundindo o seu testemunho vivo, sobretudo pela vida de fé” (12). É chamado à santidade (cap. 5), cada um, de acordo com o seu estado e vocação, 
A Constituição trata da universalidade e catolicidade da Igreja, incluindo a relação com os cristãos não católicos. Capítulo inovador é o dedicado a constituição hierárquica da Igreja tomada numa perspetiva colegial que concilia hierarquia com corresponsabilidade: “ por instituição do Senhor, S. Pedro e os restantes Apóstolos formam um colégio apostólico, assim de igual modo estão unidos entre si o Romano Pontífice, sucessor de Pedro, e os Bispos, sucessores dos Apóstolos” (22). 
O quarto capítulo é integralmente dedicado aos leigos, ao seu lugar e missão na Igreja e ao carácter específico do seu apostolado: o testemunho de vida e a santificação das estruturas humanas.
O Povo de Deus está a caminho da pátria definitiva e o Corpo místico de Cristo incorpora e estabelece relações entre a Igreja que peregrina e atingiu o seu estado definitivo (cap 7). A vocação religiosa é profecia dessa realidade da Igreja (cap 6).
Quem como eu viveu antes e depois do Concílio pode comparar as mudanças ocorridas na formulação da doutrina sobre a Igreja e do papel nela de cada cristão e nas formas de participação na Eucaristia e importância dada à Palavra de Deus. O Concílio é uma dinâmica de renovação da Igreja que está em curso. Não é apenas um aniversário.

Por Octávio Morgadinho


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