9 de setembro de 2012

A Esperança ou a morte a ser anunciada...


É bom recordar que começámos, historicamente, a existir como um povoléu de poucos resistentes, revoltados e determinados a marcar presença entre as nações de então, depois crescemos e crescemos tanto que, geograficamente, o mundo nos pertencia quase por inteiro, depois num passo de fraqueza, num esquecimento, sem problemas de consciência, da nossa história, ficámos reduzidos ao que somos. 
Uma terra pequena, dourada pelo sol, precioso recurso natural que nos beija prolongadamente, terra que até podia cobrir-se de orgulho da sua  história, com condições para viver de cara lavada, sem vergonha de ninguém. 
Só havia que satisfazer a uma inelutável condição, a de buscar gente leal e nobre de carácter, de coração generoso, desinteressada de alma, cônscia de espírito banfazego, honrada, em suma, para condução dos rumos da sua história. 
Isto sem prescindir, complementarmente, de uma gente amante da verdade, despida de inveja, não maledicente, com os pés bem assentes na terra, capaz de discernir, sem se deixar enlevar pelos ruídos do momento, dançando ao som da magia, sem espinha dorsal. 
Mas também isso não conseguimos pôr em prática. Estas duas faces da moeda fariam o devido e preciso. 
Hoje estamos como estamos: indigentes, a viver da esmola alheia, de mão estendida à caridade do outro, que quando ruge faz arrepiar e soltar uma mão cheia de promessas de nossa banda, num gesto de humilhação de quem já nem a própria casa sabe arrumar. 
E pior que tudo estamos a ficar descrentes, sem esperança, vergados ao peso de uma tristeza sem fim à vista. 
Vem, agora, aí mais uma medonha realidade a assombrar  uma legião de famílias. Já não são as recém-formadas, desca-pitalizadas e sem grande “élan“, mas aquelas que, em recta final, se tornaram refúgio de todas as gerações que produziram; as suas casas transformaram-se num imenso local de acolhimento de todas as proles, sobreviventes das poucas migalhas que aqueles se encarregaram de amealhar. 
Até sobre esses a crise se abateu, quando esperavam um definhar a todo o momento mais ou menos sem sobressaltos. 
Estes, seja pelos encargos alargados a que tem de acudir, seja pelos compromissos assumidos em nome da gerações que lhes sucederam e que não esperavam facear, estão mergulhados numa enorme angústia, meio estonteados, a interrogarem-se como vai ser o seu futuro. 
O velho ditado popular de que a esperança é a última coisa a morrer, coloca a interrogativa de saber se até que medida até a esperança já nos foi tirada. Sim porque a esperança só morre, por último, se ainda a tivermos no nosso horizonte vital. 
A situação que nos envolve é demasiado dramática para as famílias a braços com o desemprego, a fome, a crise de valores para que foram atiradas pelos detentores de poder de influenciar, que só o fizeram para o mal, e a necessidade de ocorrerem a encargos, despesas e tribulações, que nunca pensaram arcar. 
Pede-se-nos sacrifício, coragem na desdita que nos flagela, na esperança de melhores dias, que ainda ninguém vê ao fundo do túnel.
Sim, cruzamo-nos com um dos piores momentos da nossa história, muito comparáveis a muitos outros da nossa história, que catapultaram, por ex., para a imigração para o Brasil nos primórdios do séc. XIX, dois milhões de compatriotas nossos e outros tantos, pouco depois dos meados do séc.XX, por essa Europa fora, mas essa gente que rilhava o pão que o diabo amassou era diferente. 
Era gente habituada ao sofrimento, chorava em silêncio pela desigualdade, acreditava e cria num mundo melhor, lutava pelo progresso, queria sair do marasmo, ser outra. 
A gente de hoje é diferente: só conheceu a abastança que lhe demos; são frágeis como um caniço batido pelo vento forte do deserto, não conheceu avô e nem avó, lidam mal com a frustração, não toleram o suor das mãos e nem gostam esperar, aspiram ao imediato e se contrariadas esmorecem, passeando-se como uma máscara  quase funérea. 
É por isso que se a esperança, a pouca que nos deixam ter, se ela mesmo se esvair, pode desaguar em tragédia. Esperemos que não…

Por Armindo Monteiro


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