6 de setembro de 2012

A Dinâmica do Crescimento na Fé

Imagem retirada do blog: gjarcodebaulhe.blogspot.com
A perspetiva cristã do homem é englobante atinge o homem todo e todos os homens. Todo o cristão pode repetir como o filósofo “nada do que é humano me é estranho”. O homem é um ser de relação. A sua realização implica a abertura ao outro, ao semelhante, aos outros homens, a abertura ao outro absoluto, a Deus. Implica uma dinâmica de crescimento pois aspira à plenitude, à realização plena das suas potencialidades. “Sede perfeitos como o Pai do Céu” (Mt 5, 48) – é o limite. A realização do homem inclui múltiplas polaridades: a do humano e do divino, do natural e sobrenatural, do eu e do tu, do indivíduo e da comunidade, do bem e do mal, do presente e do futuro, do futuro absoluto, da fé e da razão.
A fé, a esperança e a caridade comportam uma dimensão sobrenatural. São virtudes teologais. São dom, graça de Deus, participação humana no sobrenatural, no mistério de Deus. São também acolhimento de Deus e da sua mensagem, geram atitudes espirituais e práticas que determinam no plano pessoal, modos de proceder, tendências e hábitos; no plano social, formas de interagir que ganham expressão cultural e estabilizam nos costumes e tradições. 
Uma vida estruturada na fé, na esperança e na caridade comporta sempre essa polaridade do divino e do humano, do pessoal e do social, do conformismo e da liberdade responsável. As práticas vigentes numa sociedade e momento cultural correspondem a uma circunstancial resolução da tensão dessa polaridade e favorecem ou dificultam uma vivência cristã aberta a novos desafios e responsabilidades, a novas perspetivas de crescimento. É necessário que cada um reveja a sua maneira de pensar e estar, reexamine as suas razões de acreditar, os seus procedimentos e atitudes em sociedade, os valores que enformam as suas práticas para ser fiel à dinâmica de crescimento proposta no Evangelho. As parábolas do reino falam do fermento que penetra a massa e a transforma, da semente que se desenvolve e produz fruto, segundo o terreno que a recebe (Mt 4).

Na Mensagem para a Quaresma, Bento XVI toma por tema o texto da Carta aos Hebreus, «Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras» (10, 24) para abordar a dinâmica da vida cristã no contexto da cultura global atual. Centra-se na relação com o outro, a partir dos tópicos: “prestar atenção ao outro”: a responsabilidade, a reciprocidade, a santidade pessoal. 
Recordo ter ouvido em entrevista - creio, de António Barreto - afirmar que as sociedades democráticas modernas falharam na implantação da fraternidade. O Papa cita a Populorum Progressio de há 45 anos (Paulo VI, 1967) para salientar isso mesmo: “o mundo atual sofre da falta de fraternidade”. Mascara-se a indiferença e o desinteresse pelo outro com “o respeito pela esfera privada”, com a tolerância. Refere-se o outro em abstrato, “camarada”, “companheiro”, “trabalhador”, “pobre”, como entidade social. Falta o fazer-se próximo do outro, o reconhecer o caráter único da sua pessoa, o “cuidar dele aqui e agora”. Falta “criar laços” recusados em nome da liberdade individual. Muitos dos sós e abandonados da nossa sociedade têm família. Muitos dos esquecidos são-no por interesses egoístas. 
Estar atento ao outro, cuidar e interessar-se por dele, significa querer “o bem do outro e todo o seu bem”. O bem total do outro inclui o seu bem-estar físico, a satisfação das suas necessidades materiais e espirituais, o seu reconhecimento social. Requer a atenção à sua pessoa, a simpatia e compaixão, a proximidade e a responsabilidade pelo irmão. 
Para o cristão, procurar o bem do outro é reflexo do seu amor a Deus, é amar Deus no outro, é amar o outro em Deus, é vivência da caridade, é ajudar o próximo que sofre, errou ou procura o sentido último da vida e do amor. “A caridade vivida é sempre o anúncio da salvação” – lembra o Cardeal Patriarca.
Prestar atenção ao outro, inclui a solicitude pelo seu bem espiritual, vencendo a indiferença moral e a reserva da sua intimidade para favorecer o seu maior bem e o apoiar na descoberta  e correção dos erros e raízes de mal que nele existem. “Há sempre necessidade de um olhar que ama e corrige, que conhece e reconhece, que discerne e perdoa (cf. Lc 22, 61), como fez, e faz, Deus com cada um de nós”. Há uma desintoxicação da alma, há um processo de recuperação espiritual que exige o acompanhamento solícito do amigo. É a correção fraterna. Tem origem no evangelho (Mt 18, 15-15) e foi praticado na tradição ascética da Igreja. É um olhar solícito e responsável pelo irmão que pecou e errou para o alertar “contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem.”
No sentir e na linguagem da Igreja cada vez ocorre menos a expressão: “Salva a tua alma!” A comunhão e a reciprocidade no bem e no mal são cada vez mais evidenciados na existência cristã. O bem e o mal de cada um reflete-se no todo da Igreja, na dialética de construção do reino de Deus. A Igreja na sua condição ter-rena, caminha solidariamente para a realização da sua perfeição escatológica. “O tempo concedido à nossa vida, é precioso para descobrir e realizar as boas obras, no amor de Deus. Assim a própria Igreja cresce e se desenvolve para chegar à plena maturidade de Cristo (cf. Ef 4, 13). É nesta perspetiva dinâmica de crescimento que se situa a nossa exortação a estimular-nos reciprocamente para chegar à plenitude do amor e das boas obras.”
As parábolas do reino falam da vida como gestão dos bens confiados para o bem de toda Igreja e salvação pessoal de todos os seus membros. Bento XVI lembra, a partir da experiência, que “na vida de fé, quem não avança, recua” O Cardeal Patriarca comenta: “Quem não vive a fé, torna-a mais fraca, menos segura, mais exposta às dúvidas; quem progride na fé, torna-a mais sólida, atitude inabalável, que vive a dúvida como um desafio”. […] A fé é para ser vivida, na ousadia da liberdade e da vida, e não para ser guardada no cofre das memórias de família.”

Nota: As mensagens que se referem são as Mensagens da Quaresma do Papa e do Cardeal Patriarca de Lisboa.

Por Octávio Morgadinho


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