15 de julho de 2012

Casados e Felizes


por Juan Ambrósio

12.  Descentrar-se...

Quero continuar a reflectir convosco na linha do que fiz no último texto, sublinhando uma dimensão que, de um modo ou de outro, de uma forma mais ou menos explícita, tem estado presente em todo este exercício de reflexão que estamos a fazer à volta do casamento como fonte e experiência de felicidade.
Com frequência dizemos e ouvimos dizer que o casamento é a fonte de felicidade de cada um de nós, que somos casados, e de sentido para a existência. Aqueles que me lêem e vivem esta realidade sabem bem como ela é verdadeira. E  mesmo quando nem tudo corre bem, ou por qualquer motivo já se chegou à ruptura, aí, nessas circunstâncias, continua a ser válida a afirmação de que o casamento é fonte de felicidade. É que se, de facto a felicidade não está presente então fica a dúvida quanto à existência real do próprio casamento. Ao afirmar isto, porém, não se entenda aqui qualquer convite ou facilitismo a por fim à relação, ou a afirmar que ela tem uma dimensão passageira,  pelo contrário, o que afirmo é a necessidade de olhar para essa relação tentando perceber o que nela não está a funcionar, e fazendo tudo para a aprofundar.
Mas se é verdade que o casamento é fonte de felicidade de cada um, é igualmente verdade, e aqueles que me lêem e vivem essa realidade também o sabem, que essa fonte de felicidade enraíza-se, principalmente, no compromisso de cada um com a felicidade e a realização do outro. E é exactamente esta dimensão que quero, aqui, sublinhar de uma maneira muito evidente.
Ao fazê-lo não estou a propor uma experiência na qual cada um se anule para dar lugar só ao outro, ou principalmente ao outro. Sei que há reflexões que vão por esta linha e percebo o que elas querem dizer e o que de importante querem destacar, mas sinceramente julgo que a negação, para dizer de uma maneira mais radical, ou a secundarização, para dizer de uma maneira mais leve,  de quem quer que seja dos membros do casal, não poderá ser o melhor caminho a percorrer. Procurar a felicidade do outro, à custa de felicidade de cada um, ou não se preocupando com a felicidade de cada um, não me parece ser a solução.
Julgo, e cada vez estou mais convencido disso, que o caminho a percorrer passa por uma experiência de descentramento. 
Explico-me: trata-se de fazer do outro, que amo, o centro da minha existência, o centro da procura da felicidade, o motor de todo o viver. Ao fazer dele o centro não me anulo, nem me secun-darizo, mas reconheço, sublinho e testemunho que ele é alguém nuclear para a minha própria identidade. O amar esse alguém não é já só uma coisa que eu faço, mas torna-se principalmente uma realidade que eu sou. O meu amar aquele outro concreto é uma das principais dimensões da minha vida, pelo que se torna um dos elementos constitu-tivos da minha própria identidade pessoal. O núcleo da minha identidade não está, pois, centrado em mim, mas naquele que amo e, contudo, eu não me nego nem me secundarizo, pelo contrário, realizo-me profundamente.
A experiência de descentrar-me de mim para fazer do outro o centro de mim mesmo, torna-se, deste modo, fundamento e sustento da vida toda do casal e, por isso, torna-se igualmente fonte de felicidade. A felicidade e a realização de quem amo, centro também da minha felicidade e realização.
A este nível, julgo que é fácil perceber como estamos muito longe de entender o amor como um simples gostar, e a felicidade como um simples sentimento.
O que digo da vida matrimonial, pode também ser dito da vida de consagração religiosa. Certamente que há diferenças que não podem ser ignoradas, mas a experiência de des-centrar-se continua a ser essencialmente a mesma. E ao afirmar isto não a estou a dizer que, nesses casos, o centro passe a ser exclusivamente Deus. Claro que Ele está no centro, mas no centro ocupado igualmente pelos outros a quem cada religioso/religiosa é enviado e com quem vive a sua vocação. No fundo, esse centro é ocupado pelos outros a quem Deus quer fazer centro. Também na vida do casal esse centro não se esgota no outro, mas tem de abrir-se, como que num movimento de círculos concêntricos, a outros e outras realidades, mas disso falaremos da próxima vez.

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