22 de junho de 2012

Mãe, há só 'duas'...


por Jorge Cotovio

Está em debate a legalização mais ou menos facilitada da “maternidade de substituição”, ou seja, a possibilidade de uma mulher, incapaz de engravidar, alugar, gratuitamente, uma barriga a uma outra mulher (a mãe de substituição), que se dispõe a suportar a gravidez.
Estamos novamente a pisar terrenos extremamente delicados, que levantam muitos problemas éticos, e que se inserem na cultura do facilitismo e do per-missivismo que julgávamos estar a desaparecer com a atual crise societária. Mas não. E pior. Desta vez, os principais partidos políticos até estão mais ou menos de acordo.
Na mesmíssima linha de pensamento cirurgicamente traçada há anos por correntes mino-ritárias ávidas de protagonismo, a propósito da educação sexual e do aborto, estamos mais uma vez a reduzir matérias situadas ao nível da afetividade e do amor, a simples questões técnicas. Uma gravidez é muito mais do que um ato biológico e químico, que pode ser desenvolvido num laboratório ou num qualquer útero. Entre a “mãe” e o ser em gestação criam-se durante 9 meses não só relações biológicas (que marcam ambos, profundamente) mas também relações afetivas e emocionais difíceis de mensurar, prever e limitar. (E a experiência de outros países diz-nos que muitas vezes esses laços são tão fortes que a mãe de substituição, ao ver o “filho” nascer, não o devolve à “mãe principal”). 
Para o novo ser, por entre outras sequelas, tornar-se-á confusa a sua identidade biológica. E também para os pais a situação não será pacífica, em termos de consciência e de gestão dos conflitos futuros, mesmo que esta prática seja legalizada.
Será pertinente perguntar se é lícito recorrer-se a estes meios para atingir fins tão nobres, como ter um filho (ou, visto do outro lado, oferecer generosamente o seu ventre para proporcionar um filho a uma mulher ou a um casal). Penso que não. No século passado, João Paulo II orientava estas pessoas da seguinte forma: “Não deve todavia esquecer-se que, mesmo quando a procriação não é possível, nem por isso a vida conjugal perde o seu valor. A esterilidade física, de facto, pode ser para os esposos ocasião de outros serviços importantes à vida da pessoa humana, como por exemplo a adoção, as várias formas de obras educativas, a ajuda a outras famílias, às crianças pobres ou deficientes” (FC, 14).
É bom não esquecermos que estas situações assumem maior acuidade neste momento, não só por questões políticas, mas também porque, a montante, não foram devidamente prevenidas. A sociedade apostou numa educação sexual desfocada do essencial, reduzindo-a à genitalidade. Temos cada vez mais mulheres com problemas de infertilidade devido ao facto de, desde cedo, usarem métodos de contraceção que agridem fortemente o organismo. Por outro lado, e não raras vezes para se “gozar a vida”, pensa-se em ter filhos já em idades pouco aconselháveis para a mulher. O resultado está à vista. 
Pensei que ganhássemos juízo com a crise em que esta-mos mergulhados. Mas não. Como tal, urge regular o nosso “ecossistema” societário. A nível político, precisamos de dar condições aos jovens para constituírem família (estável) desde cedo. A nível educacional, precisamos que os pais saibam ser pais, eduquem para o amor, sustentem a sua vida em pilares firmes - nos valores autênticos. Também a Igreja tem um papel fulcral nestas matérias: saber conviver, sem conflitos, com as questões “fraturantes”, ou seja, compreender as pessoas que passam por estes problemas, não as marcando negativamente; investir na catequese de infância e adolescência; apostar na pastoral familiar e juvenil, na preparação do matrimónio; saber acolher e orientar; seduzir as pessoas pela pessoa de Jesus Cristo; ser fonte de esperança.
Com ou sem legalização das “barrigas de aluguer”, está nas nossas mãos não deixar cair o velho ditado “Mãe, há só uma”…


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