23 de fevereiro de 2012

A Paz é uma questão de Educação

2011 foi ano de forte contestação e protesto em várias zonas do globo. Assumiram especial protagonismo os jovens que em alguns países, além da camada populacional demograficamente mais relevante, são também o grupo mais instruído, inconformado e aberto à mudança. Impeliu-os a frustração de regimes políticos repressivos, de situações sociais e económicas que os penalizam especialmente e a aspiração à liberdade e a uma vida digna e com futuro em estruturas mais justas em que possam participar mais activamente.
Variam as explicações das causas e as previsões das conse-quências. Bento XVI prefere salientar as causas culturais e antropológicas da presente crise. A sua Mensagem para o XLV Dia Mundial da Paz com o tema “Educar os jovens para a justiça e a paz” visa consciencializar, formar e mobilizar para a tarefa da educação dos jovens para enfrentarem e construírem um futuro de justiça e de paz, mais de acordo com a sua dignidade e aspirações.
Para o Papa falar em educação implica “comunicar aos jovens o apreço pelo valor positivo da vida”, pela liberdade, pela responsabilidade, a verdade e o bem. O processo educativo é dialogal. Tem por objectivo o confronto com a realidade e o desenvolvimento integral da pessoa do educando. Põe em interacção duas liberdades: a do educador, responsável por propor modelos de aproximação da realidade, testemunhar os valores que dão sentido à vida e respeitar a dignidade e liberdade do discípulo; a do educando, disponível para procurar a verdade no seu confronto com a realidade e com os outros e acolher quem o guia e orienta nessa tarefa. 
A família é a primeira instituição educativa “onde se educa para a justiça e a paz”.  O Papa explica:   “É na família que os filhos aprendem os valores humanos e cristãos que permitem uma convivência construtiva e pacífica. É na família que aprendem a solidariedade entre as gerações, o respeito pelas regras, o perdão e o acolhimento do outro". Qualquer outra instituição educativa, qualquer instância social ou política de que estas dependam deve respeitar o primado educativo da família e criar as condições para que “as famílias possam escolher livremente as estruturas educativas consideradas mais idóneas para o bem dos seus filhos.”
A liberdade é constitutiva da pessoa humana. A liberdade não é a afirmação exclusiva e absoluta do “eu”, não é indiferença perante o outro. A relação é outra inerente dimensão da pessoa. O homem é um ser relacional. Viver é “viver com”, é relacionar-se com os outros, é relacionar-se com o “outro” transcendente, com Deus. A liberdade acarreta a responsabilidade. Pela liberdade, pelas suas escolhas ou recusas, cada um constrói a sua personalidade, vai consolidando o seu “eu”. 
Cada um é responsável pelo que faz de si. É também responsável pelos outros, por aquilo que faz aos outros, que faz com os outros, na edificação duma sociedade justa e pacífica. Haverá situações em que é necessária a manifestação pública, o protesto, a indignação perante a injustiça. Mas é preciso ir mais além. “Os jovens devem ter a coragem de começar, eles mesmos, a viver aquilo que pedem a quantos os rodeiam.”
A liberdade reclama a verdade. À “liberdade de” escolher, ao livre arbítrio, sobrepõe-se a “liberdade para” cada um realizar o seu próprio projecto de homem. E isso pressupõe a descoberta da verdade sobre si próprio, a resposta à questão: Que homem eu sou? Que é o homem? Descobrir a verdade do homem significa abrir-se à transcendência de Deus, reconhecer o valor da vida, a dignidade inviolável da pessoa humana e reconhecer uma lei inerente à natureza humana. Tal lei supera as convenções humanas, é a mesma para todos e é a fonte originária da distinção entre bem e mal, dos direitos e deveres de cada um. “O exercício da liberdade – escreve o Papa na Mensagem - está intimamente ligado com a lei moral natural, que tem carácter universal, exprime a dignidade de cada pessoa, coloca a base dos seus direitos e deveres fundamentais e, consequentemente, da convivência justa e pacífica entre as pessoas.” 
Para lá das diferenças mais ou menos acidentais há algo que é comum a todos os homens, há um igual respeito devido a todos os homens, há aspirações universais a que devem ser sacrificados os particularismos e interesses individuais e circunstanciais. Há um bem próprio do homem, de todo o homem com o qual se confronta cada um nas suas decisões morais. Há um bem comum que serve de norma para as leis que regulam as relações sociais e as decisões políticas na comunidade dos homens qualquer que seja a sua dimensão.
Essa verdade transcendente do homem, esta lei natural fundada na “sua identidade profunda” e não na arbitrariedade das convenções está também na base dum conceito universal de justiça necessário para regular conflitos e convenções, construir e manter a paz. Este conceito de justiça abre-se à caridade e a solidariedade. 
A paz é uma tarefa continuada, uma construção, uma reconstrução permanente que exige o compromisso de todos na medida das suas competências e responsabilidades. 
O Papa lança um apelo especial aos jovens “a procurarem com paciência e tenacidade a justiça e a paz e a cultivarem o gosto pelo que é justo e verdadeiro, mesmo quando isso lhes possa exigir sacrifícios e obrigue a caminhar contracorrente”.
“Para sermos verdadeiramente artífices de paz, devemos educar-nos para a compaixão, a solidariedade, a colaboração, a fraternidade, ser activos dentro da comunidade e solícitos em despertar as consciências para as questões nacionais e internacionais e para a importância de procurar adequadas modalidades de redistribuição da riqueza, de promoção do crescimento, de cooperação para o desenvolvimento e de resolução dos conflitos.” « Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus » – diz Jesus no sermão da montanha (Mt 5, 9).

Por Octávio Morgadinho

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