26 de fevereiro de 2012

O Voluntário

Nunca entre nós o voluntariado enraizou a fundo, manifestou-se aqui e ali, por esta e por aquela pessoa, foi crescendo, chegou mesmo a estiolar e, agora, começa a ter alguma expressão humana e material, mas fruto das circunstâncias e não porque sejamos um povo vocacionado para o voluntariado. 
Não porque não se ericem razões; não porque não tenhamos um campo de apelo ao volun-tariado, mas porque vemos cinzento e pálido umas vezes, outras vezes porque estamos mesmos cegos. 
O voluntariado é um testemunho de um estado de espírito, de alma, uma predisposição íntima, um sair de si mesmo, um ir ao encontro do outro, na visuali-zação mais iluminada do “tu”, do quanto ele vale para mim. 
O voluntariado é um testemunho límpido e cristalino desse valor e tem a dimensão do seu peso, do quanto o meu semelhante me diz. 
O voluntariado é um abandono do meu egoísmo profundo e um olhar meigo, de serviço, de acolhimento, voltando, com um sentido plurifacetado na direcção do que me rodeia e que precisa de interlocutor válido. 
Numa sociedade onde, por pura utopia, todos usufruam das mesmas oportunidades, sejam tratados com justiça, o respeito pela liberdade individual seja assegurado, a dignidade humana seja uma valor de proa, não precisa de voluntários, porque estes são uma exigência e um postulado de sociedades ou genericamente miseráveis ou com corpúsculos maioritários de doença, que não apenas física, mas psíquica e moral, ou focos incidentais e acidentais de miséria. 
E o nosso país começou a cair num poço de miséria, mas ainda não mergulhou totalmente nas águas turvas, paira nelas, à tona, de cabeça à sua superfície. 
Era forçoso cairmos nele. 
Um país que se autodestruiu, que se entregou ao abandono daquilo que mais sagrado os seus antepassados lhe legaram, desde logo os nacos de terra comidos pelas ervas daninhas, na convicção de que tudo era rico, valendo mais, e chegando, o ripanço, a pensão, o subsídio, gerou auto-suficientes. O outro não conta. 
Um país que, nos Centros de Saúde, gratuitamente, bastava o pedido, distribuia a esmo a pílula, necessariamente que erigiu o hedonismo como puro baluarte. A irresponsabilidade abateu-se sobre ele. A maternidade uma função orgânica calculada. 
Tornámo-nos velhos, quanti-tativamente uma massa de velhos. 
Um país que criou e deixou criar mais de 200 cursos de engenharia, sabia muito bem que a oportunidade de colocação deles saída era quase nula. Mas absorveu e continua a absorver propinas. Logo engana. 
Um país onde mesmo quem pode se esquiva ao pagamento de um muito estipêndio de consulta, um exame, um meio de diagnóstico, um medicamento que se deita fora quando se entende não precisar é um país rico. Falsamente rico, demonstrou-se. 
Um país onde pouco se trabalha, tanto no sector privado como público, salvo raras e honrosas excepções, era e é um país de gente de braços caídos confiante no céu, que não paga salários. 
O reverso da medalha é outro, agora. 
E nunca tanto como agora se faz apelo ao voluntariado, a sermos voluntários na ajuda aos que sofrem, seja esse sofrimento localizado, nacional ou além fronteiras, seja esse auxílio material, com gestos ou palavras. 
Os que mais me impressi-onam, dentre os carentes de vida melhor, e que mais me tocam, são os pobres da África negra, atingidos pela fome e os que são perseguidos pela sua convicção religiosa, em países como a Índia, o Paquistão, o Iraque, a Indonésia, etc, onde ser-se católico, vale a discriminação social e profissional e a vida. 
Na Tunísia aqui bem perto o trazer uma cruz com o Crucificado ao peito já vi ser motivo de reparo. E não vai longe esse tempo. No velho Egipto, em Luksor, a resposta foi que não havia Igreja, mas havia…várias e até uma catedral…
Alguém disse que o séc. XXI seria o século do voluntariado ou o seu suicídio, na falta dele. 
Os homens tem que dar a mão, em todas circunstâncias de carência, que não é só a alimentar, ao seu semelhante, estendendo-se à ajuda, ao conforto espiritual, na doença, na angústia, no desespero, na depressão, na saúde, na educação, na indiferença, no combate feroz à injustiça e ao favoreci-mento, ao compadrio e nepotismo, que, por tão frequentes, nos desacreditaram no mundo, se alguma vez tivemos crédito, porque o rei foi sempre nu ou semi-nu embora se convençam de que vão ornados com jóias, pedrarias e finos brocados de seda, puxados por majestosos corcéis, quando são carroças desengonçadas puxadas por cavalos pindéricos e famélicos, de confranger. 
O voluntariado num Estado semimorto como o nosso tem um campo de eleição e pode, mesmo, transformar o nosso país, suplantar o egoísmo e a indiferença que por aí vegeta. 
É chegado o momento de descascar a cebola, que cada um de nós é; casca a casca podre, até chegarmos à comestível. 
Tal como uma criança, de olhos extasiados e lábios frementes, feliz e alegre, quando se lhe estende uma guloseima, eu vou dizer: eu gosto muito de fazer voluntariado, já lá vão quase uma década e meia de anos, sem esmorecer, no CAF (Centro de Aconselhamento Familiar ), em Coimbra...

Por Armindo Monteiro

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