13 de fevereiro de 2012

Ano 2012. O Compromisso com o Futuro

Estamos em 2012, o ano para o qual temos sido alertados e preparados quase sempre desde um ponto de vista negativo. Até as mensagens de boas festas que, por estes dias, todos costumamos receber e enviar, têm esta marca. Nem o facto de estarmos no  início de um novo ano, com o seu convite simbólico a fazermos um exercício de virar de página para começarmos uma nova etapa, parece ter força suficiente para superar essa visão negativa e difícil com que já começamos a escrever as primeiras linhas do diário de bordo de 2012.
Parece que não há outro remédio se não prepararmo-nos para as dificuldades que já estamos a viver e que, todos dizem, se vão ainda agravar. 
Sinceramente, não sou capaz de aceitar esta posição, não sou capaz de aceitar que não haja outro remédio, de tal modo que não exista outra saída a não ser entrar, obedientemente, nesta onda negativa e cinzenta.
Claro que não podemos fugir à realidade. Tenho consciência das dificuldades e mesmo dos sacrifícios que nos estão a ser pedidos. Sinto-os diariamente e sei que há muita gente a senti-los de uma maneira muito mais dramática do que eu. Sei mesmo até, e isso preocupa-me e simultaneamente compromete-me, que muitos verão afectado o seu nível de vida de uma maneira que não podemos deixar de considerar injusta e errada. 
Mas é esta mesma atitude de não querer fugir à realidade que me leva a recusar que não seja possível ensaiar outro caminho. Com isto não nego as dificuldades nem os sacrifícios, mas julgo que não devem ser eles nem o único, nem o principal, motivo a guiar os nossos passos. O nosso motor tem que ser outro e o nosso horizonte tem de ser mais amplo, levando-nos a olhar para além do que é imediato, em direcção a um futuro que queremos diferente deste presente, um futuro onde sejamos capazes de atitudes mais fraternas e mais solidárias, mais de acordo com a nossa dignidade e vocação humanas.
A experiência do casamento que tem servido de pano de fundo à reflexão que tenho vindo a partilhar convosco inspira-me também neste momento. Todos sabemos como no casamento surgem dificuldades e como é necessário fazer opções que acarretam renúncias e sacrifícios. Todos sabemos, igualmente, que esses momentos não são fáceis, nem um faz de conta. E, no entanto, sabemos que aquilo que nos leva a essas opções é o projecto de vida em comum, o projecto de amor e fidelidade que abraçámos e que dá sentido ao viver. É a partir desse projecto, que está no início, mas que simultaneamente é horizonte para o qual caminhamos, que tomamos as nossas decisões. Assim, o que marca o nosso viver não se esgota no presente, com as suas dificuldades e facilidades, com as suas alegrias e tristezas, mas abre-se a um tempo mais vasto e pleno. 
Na vida de casal, cada um está comprometido com a felicidade e a realização do outro, do outro que ama e dos outros que são o fruto desse mesma dádiva de amor. E esse compromisso é simultaneamente uma das realidades a partir das quais se tomam as decisões. Eu não decido o que é melhor para mim, mas sim o que é melhor para nós. Eu não decido simplesmente para agora, se bem que cada agora não possa ser ignorado, mas para um tempo mais amplo, para o tal horizonte que está no início e no fim.
Sinceramente é esta a atitude a tomar. Na vida do casal e da família o mais importante é o compromisso com a felicidade e a realização dos outros, que inclui a de cada um como é óbvio. O mais importante é o compromisso com esse projecto de amor. Essa é a única inevitabi-lidade, a realidade a partir da qual eu penso e vivo as outras.
Este sentido último, este compromisso com a felicidade dos outros, mais próximos ou mais afastados, tem de marcar a nossa atitude perante os desafios que somos chamados a enfrentar neste ano de 2012.
É possível a construção de um futuro diferente, mais humano, mais justo, mais fraterno, atrevo-me mesmo a dizer de um futuro mais de acordo com o sonho de Deus para a humanidade. Este é o horizonte a partir do qual devem ser enquadradas as dificuldades e os sacrifícios e não o contrário. 
Quem acredita no Deus de Jesus Cristo não pode ficar indiferente a tudo o que é humano. A esse propósito lembro aqui, neste  2012, em que celebramos os 50 anos do início do concílio Vaticano II, aquele texto paradigmático e profético que é a Gaudium et Spes e que começa literalmente com estas palavras: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. […].” 
Que ao longo deste ano de 2012 possa erguer-se bem alto este testemunho, à maneira de grito que por todo o lado anuncia a mensagem da boa nova. Mensagem que não é só palavra, mas que é concretizada na vida das nossas famílias e pelo seu compromisso com o futuro dos outros, dando especial atenção aos mais pobres e aos que mais sofrem.
Não tenhamos medo de ser construtores de outro futuro.

Juan Ambrósio
juanamb@ft.ucp.pt

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