5 de janeiro de 2012

Casados e Felizes


10. A felicidade como fundamento e horizonte 

Aproximamo-nos rapidamente de uma época em que somos convidados a reflectir um pouco sobre o sentido da vida, mas simultaneamente somos muitas vezes tentados a entrar na ‘roda viva’ das compras e das lembranças que costumamos partilhar uns com os outros. 

Estes dois movimentos, aparentemente contraditórios (e digo aparentemente pois a reflexão sobre o que verdadeiramente importa pode ajudar a guiar-nos na tal ‘roda viva’) pode, este fim de ano, exercer uma certa pressão na mesma direcção. Na verdade, o discurso que nos rodeia, a realidade que nos vai sendo descrita, os caminhos que nos propõem estão marcados com cores bastante negras. Nem a ‘roda viva’ das compras parece ser capaz de nos distrair dessa realidade, pois também a esse nível se notam muito as cores negras. De tudo isto começa a brotar a pergunta pelo futuro. O que vai ser o próximo ano, que mais surpresas desagradáveis nos estão guardadas? 

A pergunta não me parece má, pelo contrário julgo até ser muito salutar interrogarmo-nos sobre o futuro, pois deste modo podemos prepará-lo e preparar-mo-nos para ele. O problema não é verdadeiramente a pergunta, mas o estado de ânimo a partir do qual fazemos a pergunta. Pois bem, é precisamente a esse nível que eu acho que devemos estar muito atentos. 

Sinceramente, parece-me poder afirmar que para muitos dos nossos contemporâneos essa pergunta está a ser feita a partir do receio, se não mesmo a partir do medo. Percebo perfeitamente que assim seja. Muitos de nós já estamos no limite; para muitos já se começa a entrar naquela fase em que não se trata simplesmente de cortar naquilo que é superficial e secundário, mas naquilo que faz falta para um dia a dia com algum desafogo e dignidade. 

Mas fazer a pergunta a partir do medo é correr um enorme risco. O medo paralisa-nos e impede-nos de ser criativos e ousados. A partir do medo tendemos a dar passos atrás e não simplesmente no sentido de emendar o que estava mal, isso até seria bom e vamos ter de o fazer, mas no sentido de tentar replicar aquelas situações passadas nas quais nos parecia que estávamos mais confortáveis do que agora. O problema é que o mundo mudou e essas situações não podem mesmo ser repetidas, pelo que voltar a elas, sem mais, seria verdadeiramente dar um passo atrás, mas no mau sentido. Não creio que essa seja a solução. 

Também não me parece que a solução passe por ignorar a realidade que nos rodeia, criando uma ilusão que, também ela, não nos permitirá lidar com o futuro da maneira mais conveniente. 

O estado de ânimo a partir do qual temos de fazer a pergunta pelo nosso futuro e a partir da qual temos de começar a dar a resposta tem de ser outro que não o receio, nem o medo. Esse estado de ânimo tem de ser a felicidade. 

Claro que não falo de uma felicidade qualquer. Não me refiro àquela busca egoísta da felicidade que até é capaz de se comprometer com a felicidade dos outros, mas só num segundo momento, só depois de garantir a felicidade própria. Não me refiro também àquela felicidade que se esgota em cada momento presente, porque é cons-truída só para o presente. Mas também não me refiro aquela que só aponta para o futuro importando-se muito pouco com o presente. 

A felicidade de que falo é aquela que, por exemplo, podemos viver no casamento. Aí fazemos a experiência de que ela brota do compromisso com o outro. Não é um momento segundo com o qual me preocupo só depois de ter garantido o mínimo para mim. Pelo contrário, aquele que ama sabe verdadeiramente que a sua felicidade exige a do outro, que até, de certo modo, parece estar em primeiro lugar. Quem ama é feliz porque faz o amado feliz. 

A felicidade que brota do casamento também não se reduz ao momento presente. Pelo contrário ela é mesmo impulso que me permite caminhar e horizonte para o qual caminho. Por isso me permite olhar para o futuro com criatividade e ousadia, sem ter medo dele, mesmo estando consciente das grandes dificuldades que ele possa acarretar. 

A felicidade vivida no casamento, nem sequer se reduz aos dois: marido e mulher. O seu horizonte é mesmo mais vasto sendo capaz de incluir e comprometer-se com outros: os filhos em primeiro lugar, mas também os restantes familiares e amigos. 

Sinceramente estou convencido de que levar a sério a vida em família, tendo por base a vida do casal, pode ser uma das grandes saídas para a situação em que nos encontramos. A esse nível vemos, como a ‘crise’, que parece ser omnipresente, não pode esgotar as nossas energias nem preocupações. O testemunho de casais e famílias, preocupados com a realidade difícil que estamos a viver, mas verdadeiramente comprometidos com a felicidade é urgente e necessário, não para iludir a realidade, nem para fintar o futuro, mas para o poder construir com outros contornos e outras cores. Não fazer tudo o que esteja ao nosso alcance para promover e facilitar esta experiência de vida será certamente uma decisão muito pouco inteligente. 

Vamos agora celebrar o nascimento do menino. Também este mistério maior da nossa fé pressupõe a realidade familiar. Sinceramente desejo que esta celebração possa ser ocasião de reunião e celebração da vida em casal e da vida familiar, testemunhando como a felicidade pode ser o fundamento a partir do qual construir o futuro e o horizonte em direcção ao qual o queremos construir. 

Por Juan Ambrósio

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