27 de dezembro de 2011

Simplesmente aterrador!


Há umas semanas atrás um artigo escrito num diário de grande expansão nacional, a cujo autor eu peço vénia, com todo o respeito, para tomar aquele corajoso texto como pano de fundo, para, agora, sem falsos moralismos, reflectir, para reflectirmos todos, sobre ele, tamanha é a sua actualidade. 

Sobre a temática do escrito sucumbimos como a avestruz no deserto, escondemos a cabeça, veremos oportunamente. 

É que as nossas ainda meninas, de 12-13 anos, e poucos mais, já se metamorfosearam em mulheres, à força. 

Invocando o gosto em dormir com uma amiga, enganando os pais, correm pela noite alta para locais de diversão, com bilhetes de idade, falsificados quantas, envergando trajes escandalosos, que à socapa metem na mala de mão e mudam a correr naqueles locais. 

Depois, altas horas da noite, é vê-las embebidas no consumo excessivo de álcool, na inconsciência da voragem cedendo, quantas vezes, por incapacidade, à prática sexual, num contexto criminoso, caindo numa linguagem envergonhante da comparação de corpos, no uso de medicação facilitando um relacionamento sexual à margem da utilização normal da sua genitalidade e no bolsar do sabor do líquido da vida 

E note-se que não é só a rapariguinha de pai e mãe que saem de casa a altas horas da madrugada para lhes facultarem - até quando não sei - o pão, num esforço cruel, desumano e in-compreendido mecanismo de trabalho. Não. São também as meninas de farda e colégio, de quem tudo se espera menos linguagem livre e sexo desde tenríssima idade. 

As consequências desta vida louca são demasiado pesadas para as ignorarmos: sentimentos de culpa, depressão, mergulho no álcool, na droga, mau aproveitamento escolar, baixa de auto-estima, conflitualidade familiar, aborto, gravidez indesejada, suicídio, etc, isto se a pílula do dia seguinte que se vende, como tremoços, em sítio sabido, falhar ou não houver dinheiro surripiado aos pais ou encarregados de educação. 

Eu não creio que os pais, que todos nós, aplaudamos este fadário, esta triste sorte dos nossos jovens, já vítimas de uma sociedade injusta, que nada lhes dá de bom; eu recuso-me a admitir que nós pais sejamos indiferentes à perda da pureza, da inocência das nossas meninas-crianças, em idade de brincarem com bonecas, arrastadas, inconscientemente, para um mundo que nunca foi o seu e de que tantos tiram proveito a coberto da ruína alheia. 

Não posso acreditar que aos pais seja indiferente o uso do corpo dessas pequenas futuras mulheres, que quando chegarem à altura de o serem consciente e livremente, já o tenham sido há anos, e que quando o querem ser se enganam a elas mesmas e a outros comprometendo a sua felicidade e alegria de viver. 

Eu não posso acreditar que os pais se enrodilhem na voragem dos tempos, aceitando as consequências desde que não surta gravidez ou doença sexualmente transmissível, pesada e potencialmente letal. 

Eu bem gostaria de, no terreno, ver actuar um controle das autoridades policiais, no aspecto de fiscalização de idades de entrada; de consumo de álcool e de detecção de estupefacientes, em nome da defesa da saúde física e psíquica dos seus cidadãos, particularmente dos mais incautos e irreflectidos, por serem jovens. 

Mas objectar-se-á que desmandos sempre houve e haverá. Decerto que sim. Mas não é essa a questão. 

A questão é que no passado esses desvios relançavam a excepção. Agora é a norma; na turma, no café, na praia, no cinema, onde quer que seja, achincalha-se quem resiste, faz-se concurso e aposta-se no ganho de ser arrojado em tudo, menos num uso esclarecido, consciente e responsável do corpo. Isto aos 12, 13, 14, 15 anos… 

Interrogo-me sobre o que fazem em defesa destas jovens-crianças as autoridades a quem se confia essa específica missão. Não as vi, ainda, contrariar o artigo, cujo conteúdo a todos envergonha. 

Virão talvez dizer que, por entre meia dúzia de palavras bonitas, com câmaras apontadas, uma voz celestial, um rosto angelical de circunstância, depois do cansaço de nada ou pouco fazerem, entre um café no intervalo da meia manhã, a que se segue um intervalo a meio da tarde, que é bom depois seguir para casa, sexta já aí vem, e é muito provável que segunda nada se deva fazer…, que estão atentas a essa realidade, a envidar esforços e que já comunicaram ao Excelentíssimo Magistrado do M.º P.º para actuar. 

Estou em crer que, em certas situações, ainda haja pais e educadores que não denunciem o drama que lhes vai trespassar o coração para evitar o enxovalho público, preferindo um silêncio envergonhado à exposição dos muitos abutres que voam por aí, mas manter acto sexual de relevo com essas crianças é acto sexual de relevo punível com prisão que pode atingir e ultrapassar 10 anos. 

Os casos que chegam aos tribunais são, na essência, de famílias desagregadas - quase todas elas estão desagregadas, diga-se de passagem - que nada já têm a perder, indiferentes à mediatiza-ção da sua desgraça e miséria que é tendencialmente global, pobres e fracas, das cinturas que já foram industriais, das barracas, dos bairros periféricos e racicamente heterógenos, mas jamais esquecemos que as meninas dos bairros todos alinhados de cimento, incorrem em idênticos desmandos e também elas são vítimas ou se deixam vitimizar pelos vizinhos do lado, só que paira sobre elas um manto diáfano, uma cortina com ou sem qualquer vergonha, mas em que o relato do caso começa e morre dentro de quatro paredes. Os pais, em primeiro lugar, a família, a escola, as autoridades que mergulham na realidade, não muito já os senhores e as senhoras daqueles propósitos acima, bem podiam fazer dos nossos jovens gente mais feliz e digna de respeito. Isto se qualquer dia se não procurarem outras terras, outras paragens, onde valha a pena viver. 

Aqui não. 

Foi mesmo aterrador o que li, podem crer. 

Por Armindo Monteiro

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