20 de dezembro de 2011

Natal de hoje, Natal de sempre


Num livro de análise da sociedade consumista actual - A Felicidade Paradoxal - G. Lipovetsky aborda aquilo que considera a “ressurreição da festa”. A sociedade actual perdeu o sentido da história e dos grandes ideais colectivos, das crenças e dos rituais que os alimentavam em proveito do culto do indivíduo e do desfrute do imediato. 

“Na sociedade do hiperconsumo triunfa a festa sem passado nem futuro, a hiperfesta auto-suficiente, centrada no presente, situada no grau zero do sentido, alimentada apenas pelas paixões da distracção e do consumo.” (p.217) 

Nos tempos recentes, assistimos ao lançamento e adesão massiva a festas alheias à nossa cultura, exploradas numa lógica de marketing e consumo. Halloween significa simplesmente “Véspera de todos os Santos”. A comemoração de Todos os Santos e os Finados têm entre nós profundo significado religioso ligado à doutrina católica do purgatório e da comunhão dos santos, ao sufrágio dos mortos. Comporta práticas sociais adaptadas à sociedade agrícola e seus ritmos que reforçam a sua coesão: Nos Santos, sobressai o aspecto expansivo e lúdico do convívio nos magustos; nos Finados, a dimensão solidária na ajuda aos mais pobres pela esmola, componente tradicional do sufrágio dos defuntos. 

Divulgada e fomentada pelas instâncias comerciais ligadas ao consumo, Halloween reúne uma súmula das práticas da festa pós-moderna. Caracterizam-na o vazio de sentido, a solicitação à participação anónima, a identificação por disfarces, adereços e objectos, a participação em espectáculos e divertimentos em lugares de consumo massificado. A festa esgota-se no divertimento frívolo, na fuga ao real, nos encontros descomprometidos e fugazes. 

O Natal, festa tradicional própria do mundo cristão também sofreu a metamorfose da festa moderna. Não é hoje o Natal a celebração universal do consumo que substituiu a relação pessoal e familiar pela anónima troca de coisas e a falta de proximidade afectiva por carradas de presentes para as crianças? 

Nesse processo o Natal perdeu sentido, enfraquecendo a mensagem religiosa cristã que está na sua origem e fez dela um marco universal das práticas humanitárias de fraternidade e de paz. A sociedade laica faz questão em despojá-la desse sentido em favor de ideais abstractos para a converter em acontecimento lúdico e integrá-la na sociedade do espectáculo e na euforia das compras. A figura discreta do Santo Bispo Nicolau, epígono do serviço do próximo e ajuda aos pobres transformou-se no Pai Natal bonacheirão mensageiro e arauto da felicidade e abundância consumista, convocando todos para a orgia das compras. 

A Festa tem uma origem religiosa. É componente essencial da cultura, da atribuição de sentido à existência, da identidade pessoal e coesão social, da justificação das práticas e regras de acção dum povo. A festa comporta uma visão do mundo e do lugar do indivíduo na sociedade, um remontar às origens, um perspectivar do futuro. Situa-se na esfera do sagrado, num tempo transformado que ultrapassa a sucessão do antes e depois e enquadra simbolicamente a existência 

O Natal é uma festa cristã. Preserva as componentes cósmicas, antropológicas e simbólicas da experiência religiosa, com um sentido próprio, dentro da perspectiva bíblica. A festa é celebração do presente, memorial do passado e projecção no futuro. 

A festa é a celebração actual duma comunidade que recorda uma irrupção de Deus na história, uma intervenção salvífica de Deus, situada num lugar e num tempo passado. A celebração festiva actualiza a eficácia dessa acção passada no presente da vida e experiência daqueles que nela participam, actuando como força transformadora da sua vida. 

A festa tem uma dimensão moral. Torna-se compromisso, imitação dos mistérios celebrados, concretização no quotidiano do que se “revive” na celebração: “Exorto-vos…a que ofereçais vossos corpos como hóstia viva, santa e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual” (Rom 12, 1). 

A festa é antecipação do futuro absoluto. Está ligada à realização completa do sentido anunciado pela celebração actual. “No NT, à luz do mistério de Cristo, a festa está entre o “já” da salvação concedida e o “ainda não” da salvação definitiva” (M.Augé, O Ano Litúrgico, p. 27). 

A festa implica a dimensão comunitária da participação, da vida em comum, da criação de laços de comunhão com Deus e com os outros. É mais do que estar juntos, de ser cúmplices, é estar unidos e solicitados por algo que nos transcende. Por tudo isto a festa é uma experiência da alegria, de alegria profunda, de coincidência consigo próprio, de comunhão com os outros, de confiança, de esperança que supera as dificuldades do presente. 

A festa do Natal recorda o nascimento de Jesus, acontecimento histórico. Antecipa a sua vinda definitiva para além do tempo. Celebra o mistério da Incarnação do Verbo de Deus. Deus assume a nossa humanidade e a nossa história. “O Filho de Deus fez-se homem para que nós nos tornássemos Deus” – lembra S. Agostinho. O mistério de Natal toca-nos. Somos Filhos de Deus, participamos da sua vida. Somos chamados a viver à sua maneira. Constituímos uma família todos os que n’Ele acreditamos. Somos irmãos. A fraternidade resulta da nossa comum filiação divina. A pobreza ou a humildade não são apenas virtudes morais são condição existencial e concretização dum amor que aproxima e torna semelhantes. 

A festa do Natal cristão é o contrário do Natal consumista e individualista. A tradição cercou-a de referências familiares, de gestos de partilha, de manifestações de fraternidade e simplicidade. Francisco de Assis fez do presépio um ícone da pobreza e da humildade do nascimento de Jesus, da sua identificação com toda a humanidade, uma representação simples dum universo que reconcilia o homem com a natureza. 

O tempo de austeridade que vivemos pressiona-nos a questionar o vazio do Natal do consumo, da felicidade individualista e passageira e a voltar aos valores do Natal Cristão que apontam para o reconhecimento da dignidade de cada homem/mulher, para o valor da vida, para a solidariedade e partilha, para a responsabilidade comunitária, para a esperança, para a alegria decorrente da consciência do valor do homem perante Deus e da missão que lhe é atribuída no mundo. Se esvaziamos o Natal do encontro com Deus e da comunhão com os outros, somos nós que ficamos vazios. 

Por Octávio Morgadinho

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