15 de novembro de 2011

Um Encontro que tornou Deus visível

Os jovens que se encontraram em Madrid na Jornada Mundial da Juventude, vindos de regiões de velha ou recente tradição cristã sofrem as mesmas influências da cultura global, partilham a mesma mentalidade, tendências e preocupações dos jovens seus contemporâneos.
Muitos vivem em condições de pobreza extrema, de carências básicas, mas a maior parte está imersa na cultura do consumo, da superficialidade e satisfação imediata, do individualismo e subjectivismo dos valores, da fragilidade da união familiar. Todos eles sofrem a insegurança do presente, a apreensão pelo futuro, a instabilidade económica, a precariedade do trabalho, a preocupação pela paz e justiça social, pela sustentabilidade do ambiente e das sociedades a que pertencem. São jovens como os outros que enfrentam as mesmas tentações e os mesmos desafios dos jovens do nosso tempo.

São diferentes porque professam a mesma fé em Jesus Cristo.
Nele reconhecem o modelo e ideal de vida, a fonte suprema dos valores humanos e a meta da sua esperança. Alguns deles sentem na pele a perseguição e a discriminação em razão da sua fé.
”Enraizados e edificados em Cristo, firmes na fé” foi o lema desta Jornada Mundial. Vieram para se encontrar com o Papa, símbolo da unidade da Igreja e garante da fé e esperança que os une. Vieram para conviverem uns com os outros, para comunicarem suas experiências e aspirações, para se esclarecerem, animarem e fortalecerem na caminhada idêntica de fé vivida, de esperança operante, de compromisso com Deus e com o mundo para um futuro melhor.
Muitos destes jovens enfrentam a indecisão e a insegurança das suas opções de vida. Alguns têm situação estável numa família constituída, uma carreira profissional iniciada nas variadas actividades laborais, no ensino, na investigação científica, no compromisso social e político.
Outros responderam a uma vocação de serviço na Igreja na consagração religiosa, na preparação para o sacerdócio ou na colaboração missionária. Muitos são membros activos das suas comunidades, participam com os seus pares em serviços de evangelização ou entreajuda. Alguns dedicam as suas férias e parte do seu tempo, fora do seu país em tarefas missionárias e de apoio ao desenvolvimento.
A mensagem que o Papa lhes dirigiu, através das suas intervenções gerais e sectoriais, foi uma contínua prova de confiança, convite à responsabilidade na Igreja e no mundo, exortação à firmeza e unidade na fé, ao exercício de uma liberdade empenhada e dialogante, ao respeito pelo outro, à fidelidade à verdade e aos valores fundamentais do amor.
Bento XVI não é propriamente um enter-tainer. O comentário erudito da Palavra de Deus alimentado na tradição da Igreja, a profunda intuição teológica, o raciocínio rigoroso e coerente, a sensibilidade aos problemas do nosso tempo e a confiança na capacidade racional e na consciência ética de cada homem para reconhecer a verdade e a pôr em prática, tornam o seu discurso aparentemente austero, num convite fascinante à reflexão sobre o essencial.

Foi sobre o essencial da vocação cristã, da fé em Jesus Cristo, da missão da Igreja e das tarefas dos jovens para testemunharem a mensagem evangélica de amor e esperança no mundo actual que o Papa falou. Neste sentido, a Jornada de Madrid foi um encontro diferente, para jovens diferentes, para assumirem decididamente a sua diferença e a partir dela construírem responsavelmente um mundo diferente, mais justo, mais verdadeiro, mais humano, à luz dos valores evangélicos.
O essencial da fé é a relação pessoal com Jesus, a partilha dessa experiência de amizade na vivência dos mesmos ideais de amor e serviço, em comunhão com os outros, em comunidades de proximidade nas igrejas locais, na Igreja universal, a grande comunidade espiritual sem fronteiras. “A fé não é uma teoria” - vincou Bento XVI, em língua alemã. Dedicou toda a homilia da celebração eucarística de domingo ao tema. A fé não é apenas informação sobre a figura histórica de Jesus, “supõe uma relação pessoal com Ele, a adesão de toda a pessoa, com a sua inteligência, vontade e sentimentos, à manifestação que Deus faz de Si mesmo.”
A fé desperta quando se passa do conhecimento à relação pessoal com Jesus. Consolida-se e desenvolve-se à medida que cresce a intimidade dessa relação com Ele.
A fé é também relação com os outros. “Não se pode crer sem ser amparado pela fé dos outros, e pela minha fé contribuo também para amparar os outros na fé. A Igreja precisa de vós, e vós precisais da Igreja” – salientou o Papa, em português. Cristo e a Igreja estão indissoluvelmente ligados na experiência de fé. “Seguir Jesus na fé é caminhar com Ele na comunhão da Igreja.” A fé é aceitação, compromisso com a pessoa de Jesus, vivida na intimidade da subjectividade de cada um, mas não experiência de um Jesus subjectivo, de um Jesus “à maneira de cada um”. “Quem cede à tentação de seguir «por sua conta» ou de viver a fé segundo a mentalidade individualista, que predomina na sociedade, corre o risco de nunca encontrar Jesus Cristo, ou de acabar seguindo uma imagem falsa d’Ele”. A fé vive-se em Igreja, traduzida numa relação activa de comunhão e identificação com a sua missão na proximidade das “paróquias, comunidades e movimentos”. Alimenta-se e fortalece-se na oração e meditação da Palavra de Deus, no sacramento da reconciliação e na participação comunitária na eucaristia dominical. Da amizade e do comprometimento pessoal e comunitário com Cristo brota a necessidade de O testemunhar nos meios onde os jovens estudam, trabalham, se divertem e convivem, onde Ele é desconhecido, recebido com indiferença, preconceito ou liminarmente rejeitado. “É impossível encontrar Cristo, e não O dar a conhecer aos outros.”
A fé, insiste o Papa, produz a necessidade do testemunho: “não guardeis Cristo para vós mesmos. Comunicai aos outros a alegria da vossa fé.”
Da fé cristã, decorrem valores essenciais. O Papa salientou a responsabilidade e a fidelidade à verdade. “Fomos criados livres, à imagem de Deus, para ser protagonistas da busca da verdade e do bem, responsáveis pelas nossas acções (…) Deus quer um interlocutor responsável, alguém que possa dialogar com Ele e amá-Lo.”
Aos jovens professores Bento XVI vincou que “a juventude é tempo privilegiado para a busca e o encontro com a verdade” e que o magistério da verdade é tarefa essencial dos educadores, formadores, investigadores e intelectuais. Devem formar “pessoas abertas à verdade total nos diversos ramos do saber, capazes de escutar e viver dentro de si mesmos este diálogo interdisciplinar; pessoas convencidas sobretudo da capacidade humana de avançar a caminho da verdade”, humildes para aceitar que a “verdade em si mesma está para além do nosso alcance.
Podemos procurá-la e aproximar-nos dela, mas não possuí-la totalmente; é ela que nos possui e estimula".

Na viagem de Roma para Madrid, Bento XVI apontava para as Jornadas como “sinal”.
“Dão visibilidade à presença de Deus no mundo e criam a coragem de ser crentes. (…) Este nascimento de uma rede universal de amizade, que liga o mundo e Deus é uma realidade importante para o futuro da humanidade, para a vida da humanidade de hoje”. Pelo menos um homem agnóstico confesso deu testemunho público dessa visibilidade de Deus nesta Jornada Mundial da Juventude, Mário Vargas Llosa, prémio Nobel da Literatura 2010, num artigo publicado no jornal “El Pais”, com o título “Nestes dias em que Deus parecia existir”.

Por Octávio Morgadinho

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