10 de agosto de 2011

5. Do ‘eu’ ao ‘nós’ - novas aprendizagens (Casados e felizes)

Parece-me claro que o matrimónio é uma experiência de vida que possibilita a descoberta que o nosso verdadeiro ‘eu’ é (deve ser) muito mais do que um simples ‘eu’, ou, se quisermos dizer de uma outra maneira, quando cada ‘eu’ é só o seu ‘eu’ e nada mais, então é um ‘eu’ pobre e pequeno. 
Esta maneira de começar pode parecer muito confusa, mas ela acaba por tocar num dos aspectos que me parecem mais importantes, não só na vida do casal, como na própria vida da sociedade na qual estamos inseridos. 

Julgo mesmo que um dos problemas mais sérios que vivemos e que constitui, certamente, um dos nossos maiores desafios, é o individualismo. Quando cada um só pensa em si e no seu bem, o mais provável é que esse bem entre em conflito com outros bens e acabe por não ser possível, então, encontrar um caminho comum. E isto é válido para a vida em casal, para a vida em família e para a vida social. 
Para ajudar a esclarecer um pouco a reflexão que quero partilhar convosco nesta ocasião, permitam-me recorrer à citação de um texto que tem sido para mim verdadeiramente inspirador a este nível: 

“... eu posso experimentar a Deus experimentando-me como um tu de Deus quando me descubro «seu», ou seja quando sinto que «sou teu, tu-eu». Descubro a Deus não quando o descubro como um tu - a quem eu me dirijo – mas como um eu que se dirige a mim e de quem o meu eu é um tu. Eu sou então um tu de Deus (seu, «sou tu-eu»). A experiência de Deus é, então, a experiência do tu, do tu a quem Deus chama tu – que sou precisamente ‘eu’, o meu verdadeiro eu, o tu, um tu de Deus.” (Raimon Panikar, Iconos del misterio. La experiencia de Dios, Península, Barcelona 1998,123). 

Sei que a leitura deste texto pode não resultar fácil, mas ainda assim insisto para que seja lido, e se o meu amigo leitor não consegue penetrar nele à primeira, convido-o a que tente mais uma vez, sem pressa. 
O texto refere-se ao conhecimento de Deus, mas facilmente pode ser aplicado ao conhecimento que temos de nós e dos outros. O convite que nos faz é verdadeiramente interpelador: devemos descobrir-nos como sendo um dom do outro. 

Verdadeiramente o primeiro ‘eu’ que cada um de nós descobre não é o nosso ‘eu’ mas o eu do outro. E é esse outro que, ao dizer-me’ tu’, me dá a possibilidade de ser um eu’. Quando Deus me diz ‘tu’ ele faz de mim um ‘eu’. Eu sou então verdadeiramente um dom desse ‘eu’ que é Deus, sou então um ‘tu’ (um eu) proclamado por Deus, sou um tu de Deus. E ao dizer isto, o texto não quer falar em posse, pelo contrário está a referir-se à dinâmica do dom. 

Na vida do casal esta experiência pode ser feita de uma maneira maravilhosa. Quando cada um descobre que o seu ‘eu’ é constantemente um dom do outro; quando cada um se descobre mais a partir do outro, do que o outro a partir de si, quando mutuamente se abrem a esta relação de dom, então o ‘eu’ de cada um não é simplesmente o seu ‘eu’, mas um ‘eu’ maior, que obrigatoriamente implica e inclui o ‘eu’ do outro. Então estamos na presença do ‘nós’, que não é simplesmente a soma dos dois ‘eu’. 

Deste modo, quando cada um procura o seu bem, esse bem é simultaneamente e em primeiro lugar o bem do outro e assim não pode haver possibilidade de conflito entre a procura do ‘meu bem’ e a procura do ‘teu bem’. 
Estou sinceramente convencido de que esta experiência, vital para o casal e que se alarga à realidade familiar, é fundamental para responder aos desafios que, enquanto cidadãos e cristãos, temos de enfrentar nos tempos difíceis que vamos (já estamos a) viver. Não é possível construirmos um futuro mais justo fraterno, nem para nós, nem para os nossos filhos, se não percebermos claramente que as nossas decisões devem sempre ser fundamentadas na procura do bem comum e no exercício do cuidado do outro. 

O testemunho dos casais a este nível, não só como experiência de vida mas como escola de vida, pode ser fundamental neste momento histórico que vivemos. 
Uma vez mais a família, que brota deste dom mútuo de cada um ao outro, pode revelar-se como sendo a pedra angular da sociedade, pois nela podemos aprender que somos um ‘nós’ que brota do dom dos outros e tem de ser vivido como dom aos outros.

por Juan Ambrósio

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