21 de julho de 2011

A verdade

Pilatos no dia da Crucifixão estava deveras confuso, baralhado mesmo, sobre a verdade. E tanto assim é que perguntou a Jesus o que era verdade, mas Ele também não esclareceu e Pilatos ficou-se pela dúvida. 
Pilatos, sucessor do governador Públio Lêntulus, aquele que descreveu Cristo, desenhando-o, a César, como sendo filho da mulher mais bela da região, que chorava ante a miséria alheia, amava docemente com os olhos, censurava com eles, andava descalço, pregava o amor e a verdade, ressuscitava os mortos e curava os doentes, dividia-se entre a verdade e a mentira. 
Entre a mentira porque era o mandatário de uma potência ocupante da Palestina, a grande Roma, a caminhar para a ruína, em dissolução de costumes, mergulhada na intriga e corrupção, sem família de pé, atravessada pelo divórcio e pelo incesto, mas vivia uma réstea de verdade, porque não aderiu à condenação, lavou as mãos, ficou vencido no julgamento histórico e sempre actual. 

Quando era pequeno a minha mãe incitava-me sempre a dizer a verdade, mas às vezes lá me esgueirava por entre um crivo muito apertado, mas educação na verdade, em família, é um estímulo para ao longo da vida se ser verdadeiro e se construir um mundo de verdade, sem mentira. 
Este país está sem rumo, à beira da ruína total, porque se privilegiou nele a inverdade e o egoísmo individual e colectivo. 
A família deixou de ser a escola de verdade, os seus membros constroem a versão que mais lhes importa e ninguém se aflige por isso e nem é afligido; nos locais onde a verdade devia ser valor omnipresente ganhou relevo a trapaça, construída de fora para dentro, dizendo-se mesmo que ali é o lugar onde mais se mente. 

Outrora as pernas tremiam aí, as mãos suavam só pelo medo de se não ser apontado em falsidade, ainda que se estivesse a ser um transmissor da verdade dos factos. 
Mas hoje já se mente de boca aberta, sem receio de correr risco, embora ele exista, apadrinhando-se a versão que convém. 
Miguel Torga, que já pressentia o fenómeno lá para as terras do Douro, bem dizia “Oh comadre, mais um copo e vá lá dizer…". E vá lá dizer como eu quero, como me interessa, pois então. 
E o estado do país é de um campo de eleição da mentira. 
Se não construirmos a breve prazo uma terra de verdade nas relações humanas, a miséria vai-nos bater à porta sem apelo e nem agravo. 
Já somos conhecidos por passarmos o tempo na praia, por trabalharmos pouco, termos muito tempo de férias, gerirmos mal os dinheiros de todos, só falta sermos conotados como um bando de impostores. 

Estrabão, um historiador romano, dos primeiros tempos da ocupação, costumava dizer que lá para a Lusitânia, vivia um povo que não governa e nem sabe e nem se quer deixar governar. Eram os nossos antepassados, rudes, pouco instruídos, invejosos, brigões e muitas coisas mais. 
A romanização fez-se sentir pouco mais do que no direito, nas nossas leis actuais, algumas das quais com a marca de mais de dois milénios. 
Mas a final, o que é a verdade? É a descrição em forma rectilínea dos acontecimentos. Tal como se passaram. Sem se tergiversar para a esquerda ou direita. 

Se se não segue a verdade mente-se; se se auxilia a mentira é-se cúmplice, encobridor. 
Há uma legião de encobridores, que são os que beneficiaram da mentira, nisto naquilo e mais naquilo. E que sucederá um dia se se encontrarem, frente a frente, de um lado, os mentirosos e encobridores e do outro os sacrificados, a legião de pobres e desempregados e os que carregaram a cruz da dignidade e da honra, que muitos nem sequer sabem o que isso é? 

A sociedade portuguesa começa a dar preocupantes sinais de clivagem, de distinção entre os que querem a verdade e aqueles que se aproveitam da mentira, segurando-a a todo o custo, apontando-os a dedo e dizendo-lhes com o dedo quase colado ao nariz que querem o pagamento da factura gorda que devem. 

É da mais elementar justiça …

Por Armindo Monteiro

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