21 de julho de 2011

Transformar a crise em oportunidade


Viver a esperança no meio da crise é o nosso grande desafio, como cidadãos, como cristãos. 
Tenho-me fartado de dizer que os culpados da crise somos todos nós, que abusámos do Estado protector e vivemos décadas de ilusão. Do esterco, do húmus, costumam nascer bons frutos. Também da crise podem sair bons ensinamentos para a nossa vida, tornando-a mais consistente e apetecível. 
Temos de parar de nos lamentar, de inventar bodes expiatórios, e olhar com novos olhos o futuro. Temos, sim, e urgentemente, de adoptar novos padrões de comportamento. Temos de mudar de hábitos. Temos de “arregaçar as mangas”. Temos de trabalhar mais e gastar menos. Temos de saborear mais serenamente a vida. Temos de estimar mais o nosso trabalho/ emprego. Temos de dar mais valor às coisas pequenas: ao diálogo em família, aos passeios pelo campo, às visitas culturais na nossa região e no nosso país, à roupa e coisas que possuímos, etc. Temos de valorizar os amigos, os vizinhos, os mais caren-ciados. Temos de fomentar a amizade, a solidariedade, a caridade. Tudo isto, em vez de nos apegarmos a um consumismo desregrado, em vez de nos quedar-mos pela superficialidade das matérias, em vez de assentarmos a nossa vida no material, no vestir bem, no passear muito, no parecer bem, no ter muita coisa e se possível trocado constantemente. 

É claro que a crise vai originar (mais) depressões, desânimos, divórcios, conflitos sociais, delinquência. Mas também vai levar as pessoas a cuidarem mais da sua casa, do seu quintal, das suas terras (até por necessidade). Também a cuidarem da nossa “grande casa” – a oikos, a natureza. E em última (ou primeira) análise, a crise vai levar as pessoas a cuidarem mais de si, do seu interior, da sua alma. Será esta uma grande oportunidade para uma acção cirúrgica da Igreja: dar horizontes de esperança a gente sem rumo; acolher bem, com simpatia, com empatia, com uma linguagem perceptível. Aos poucos, as pessoas vão entendendo que a fé, a oração, a intimidade com Deus são fundamentais para a vida. Aos poucos vão reconhecendo que as verdades seculares pregadas pela Igreja, fundadas no Evangelho, são mesmo “boa nova de salvação”: o desapego dos bens materiais, o amor a Deus e ao próximo, o perdão, a humildade, a austeridade, o sacrifício… 

Mas atenção: a mudança de paradigma na sociedade dos homens exige uma mudança de comportamentos e atitudes na sociedade divina, a Igreja. Também ad intra, há que trabalhar mais, sermos mais eficientes, sermos criativos, sermos ousados. Cá dentro, para “os de fora”, para os que sofrem os horrores do desemprego, dos conflitos conjugais, dos pecados mundanos, temos de ser mais carinhosos, compreensivos, pragmáticos. Temos de dar mais tempo para ouvir e menos para outras coisas, talvez não tão essenciais. Como são poucos os trabalhadores da messe, temos de distribuir bem as tarefas e potenciar a vocação própria de cada qual. Há que acabar com alguns cargos e tarefas e rotinas e desenvolver/ inventar outros e outras bem mais prementes. Há que purificar esta Igreja, tornando-a mais santa, mais “bem vista” e desejada. 

Este Deus é o primeiro a ter Esperança. Esperança em nós, baptizados, em nós leigos, padres, religiosos, bispos. Em nós, pessoas. Vamos, juntos, em comunhão (que conceito tão “intrigante”, meus Deus!), elaborar um pacote de medidas para salvar “as almas”, para sermos farol e porto de abrigo. É, sem dúvida, uma tarefa dantesca, sublime, “extra-ordinária”, que nos tem de incomodar. 

E urge esta (nova) atitude, quando se aproxima a programação de mais um ano pastoral - um novo ano, obrigatoriamente cheio de Esperança.

por Jorge Cotovio (jfcotovio@gmail.com) 

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