24 de julho de 2011

Mundo Global - Problemas Nossos

Estivemos, na primeira semana de Maio, nas Conferências do Estoril. Em três dias cheios passaram pelo Centro de Congressos do Estoril, políticos conhecidos mundialmente como Haward Dean, Villepin e El Baradei o economista Nouriel Roubini, o pensador Francis Fukuyama, o jornalista Larry King e muitos outros para debateram os grandes desafios globais e algumas das questões na ordem do dia nomeadamente a situação económica do nosso país e a agitação política e social que percorre o Norte de África e o próximo Oriente islâmico. 

A globalização aproximou os povos, estreitou relações, trouxe oportunidades para todos e tornou-os também mais dependentes uns dos outros. Nas últimas décadas, a facilidade das comunicações, a circulação da informação e dos capitais, a extensão dos mercados, a exploração dos recursos humanos e oportunidades de produção, a repartição de tarefas provocaram rápidas e profundas transformações e aumentaram as interdependências de países, regiões e organizações. Os problemas do desenvolvimento económico, do acesso aos recursos energéticos e à água, da produção e distribuição dos recursos alimentares, das alterações climáticas, da evolução demográfica e dos fluxos migratórios, do equilíbrio entre regiões, da convivência entre culturas e religiões afectam todo o mundo e condi-cionam as respostas de cada região. No nosso mundo todos dependem de todos, cada país depende dos outros, mas cada um tem de procurar a sua solução própria, dentro dos seus condicionalismos e interdepen-dências globais. 

O desenvolvimento estendeu-se através do planeta, as condições de vida em geral melhoraram. Vastas regiões do mundo conseguiram ultrapassar o risco permanente da fome e da subnu-trição, controlaram as epidemias, diminuíram a mortalidade infantil, melhoraram a assistência sanitária e a esperança de vida, grande parte da população ultrapassou o nível da subsistência e alcançou melhor educação. Novos países entraram no circuito da produção e do comércio internacional como parceiros de peso. Muitos deles em regiões tradicionalmente consideradas desfavo-recidas como África mantêm um ritmo de crescimento superior às economias do velho mundo. Mantêm-se as desigualdades entre e dentro do mesmo país quanto às condições e remuneração do trabalho, segurança social e participação democrática, mas cada vez maiores sectores da população melhoram as suas condições de vida e o reconhecimento dos direitos civis básicos. Muito já mudou na China e muito está a mudar até em zonas tribais como o comprovam os recentes movimentos de contestação no Ma-grebe e próximo Oriente. 

A crise financeira internacional tocou mais profundamente os países ricos do que as economias emergentes e revelou as fraquezas dos grandes. Caminha-se para uma alteração de poderes a nível mundial. Gigantes populaci-onais como a China e a União Indiana, gigantes em extensão, recursos energéticos e matérias-primas como o Brasil e a Rússia, os próprios países africanos tendem a aproveitar melhor os seus recursos e modificar o mapa da produção, do comércio e consequentemente a formar novos centros do poder político mundial. 

A Europa enfrenta problemas próprios. A sua população está envelhecida e tende a diminuir, pondo em perigo a sua capacidade produtiva e a sustentabilidade do seu sistema de segurança social. A liderança política é fraca e as decisões comandadas pelos interesses dos países dominantes e as suas circunstâncias eleitorais. As democracias tendem a pautar as suas decisões pelos calendários eleitorais e optar por medidas populistas do curto prazo em detrimento do planeamento estratégico a médio e longo prazo. A União Europeia não consegue concertar e dar continuidade às suas políticas a longo prazo, tem dificuldade em definir estratégias é morosa e complicada a tomar decisões. Por isso não consegue ter uma posição própria e apoiada nas instâncias internacionais e ser proactiva na resolução dos seus grandes desafios. Em contra-partida, perde-se nas suas instâncias intermédias em regulamentações infindas sobre coisas insignificantes ou tomadas de posição ideológicas sobre matérias de liberdade de opinião, religião e expressão. 

Neste contexto se colocam também os problemas económi-cos, a sustentabilidade do euro e a posição dentro do sistema dos países mais avessos a um controle orçamental, com um sistema produtivo mais débil e dependente como a Grécia, a Irlanda e Portugal, para seguirmos a ordem de gravidade e dos pedidos de intervenção da chamada “troika": Comunidade Europeia, Banco Europeu e FMI. Os problemas da dívida soberana, da dívida externa e da autonomia económica são próprios de cada um destes países e em cada um tem contornos específicos. Mas são igualmente problemas da Europa. A sustentabilidade do euro, a solidez da economia que lhe serve de suporte exige políticas e regras comuns, mecanismos de vigilância e fiscalização atempada e previsão de medidas de solidariedade e compensação que na União Europeia têm flutuado de acordo com os poderes dominantes e os calendários eleitorais dos países mais influentes. O oportunismo e o populismo, as divergências de interesses, a falta de estratégias políticas de médio e longo prazo e de liderança forte são causa de muita da deriva europeia actual. 

Isto não serve de desculpa a Portugal que não cumpriu as regras a que se comprometeu e não adoptou as políticas adequadas para o desenvolvimento económico, a contenção da despesa pública, o equilíbrio orçamental e o crescimento incompor-tável da dívida externa. E agora? 

À falta de outro programa, há o acordo com a EU, o BE e o FMI que garante o dinheiro para fazer face às urgências imediatas e estabelece metas e linhas de actuação política para a recuperação económica e res-tabelecimento dos equilíbrios necessários para o país voltar a governar-se autonomamente. Entretanto os que emprestam o dinheiro virão vigiar o cumprimento do acordo. Manda quem paga. 

São estas as regras do nosso mundo global. Todos dependem uns dos outros: podem facilitar-se ou dificultar-se mutuamente a vida. Cada um terá de contar com isso e fazer aquilo que lhe compete. Para alguém ser ajudado tem de ajudar-se a si próprio.

Por Octávio Morgadinho

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