1 de julho de 2011

4. Amor Maior II (Casados e Felizes)


Como é possível, nos dias de hoje, sustentar que uma opção é para sempre e definitiva? Esta questão, sabemo-lo bem, levanta muitas dúvidas a muita gente. E quando se trata de realidades no âmbito do relacionamento humano, então as dúvidas ainda se agudizam mais. 

Todos já ouvimos dizer que o amor é eterno enquanto dura. Por isso, compromissos a esse nível, tendo como horizonte a totalidade da vida, não podem jamais ser assumidos, uma vez que as possibilidades de falhanço são enormes e cada vez maiores. 

Percebo bem os desafios que este tipo de dúvidas levantam e sei, todos sabemos, como a realidade, muitas vezes, se mostra cruelmente, revelando que aquela ideia inicial, de ser para sempre, acaba por não poder ser sustentada. 

Sei também que essa mesma realidade tem levado muita gente a assumir compromissos de amor, pondo, à partida, a possibilidade de que eles possam falhar. Parece-me evidente, que essa mesma possibilidade fragiliza o compromisso que está a ser assumido. Mas como sair então deste impasse? Como 'apostar' tudo numa relação de amor sem qualquer tipo de reserva ou limite? Não pensar na questão também não me parece ser uma solução viável. 

Lembro-me bem de uma pergunta que me foi feita num encontro, no qual me tinham pedido para reflectir sobre o sacramento do matrimónio. Alguém me interrogava sobre o sentido do meu agir caso o meu matrimónio falhasse. Respondi que essa não era uma situação com a qual me preocupasse. A resposta foi muito mal aceite pelo meu interlocutor, que a interpretou como sendo uma atitude avestruz, ou seja como um colocar a cabeça num buraco para não ver o que na realidade podia acontecer. Fui avisado de que por não estar preparado para essa eventualidade, se ela um dia acontecesse, eu iria passar muito mal, não sabendo como reagir. 

Várias vezes esta questão me tem surgido, ainda que formulada com contornos muito diversos, e sempre acabo por encontrar a mesma resposta: essa não é uma opção que faça parte do meu horizonte de reflexão e de possibilidades. O real não é só o que existe sem mais, mas é também aquele que eu construo, e eu recuso-me a dar possibilidade de existência real a essa hipótese, que não chega portanto a alcançar o estatuto de hipótese. 

No dia em que celebramos o ritual do sacramento do matrimónio (digo assim porque o matrimónio celebra-se todos os dias), a minha mulher e eu prometemos amar-nos para toda a vida e esse é o nosso compromisso e a nossa realidade. E dissemos isso à frente da nossa comunidade de amigos e da comunidade crente, que connosco partilhava e celebrava esse momento, e na presença de Deus em quem acreditamos. 

Sabemos que somos os principais responsáveis por esse compromisso, mas não somos os únicos, nem estamos sozinhos. Quem connosco celebrou e connosco se alegrou, também está, em certa medida, envolvido nesse compromisso. Muitas vezes, infelizmente, acabamos por ignorar esta responsabilidade eclesial. 

Mas não é só a comunidade que está comprometida. O próprio Deus também está. Estou sinceramente convencido de que Ele não é apenas alguém perante o qual se faz a promessa, estando depois atento para a cobrar, mas muito mais do que isso é alguém que também se interessa e compromete nessa promessa. 

Deste modo, o amor que é proclamado ser para toda a vida e a fidelidade que é assumida para sempre, podem ser sustentados no Amor eterno que Deus é e na sua fidelidade sem fim. 

Claro que esta não é uma questão de magia, não acontece porque sim, mas implica verdadeiramente que toda a vida do casal seja rezada e dialogada com Deus, implica e exige que cada membro do casal construa e edifique essa mesma realidade.


por Juan Ambrósio

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