15 de junho de 2011

3. Amor Maior I (Casados e Felizes)

Que o casamento tem a ver com o amor é uma coisa tão banal que já muitas vezes nem sequer reflectimos nela. 
Mas fazer isso será certamente um erro, pois se há coisa que o amor não é, não pode ser, é ser olhado como uma banalidade. 
É por isso que ao reflectirmos sobre o casamento tem todo o sentido determo-nos sobre o amor, fazendo um exercício de olhar que se esforce por ir mais longe das evidências. 
Ensaiemos, pois esse olhar. 

Ousemos ir mais longe que o mero sentir e o mero gostar, se bem que também estes níveis sejam fundamentais e não possam ser ignorados. Gostar daquela(e) que amo e sentir-me bem ao seu lado é muito importante e deve mesmo ser aprofundado ao longo da relação. Julgo que muitos casamentos começam logo por falhar a este nível, pois não há uma preocupação por exercitar o gostar e aprofundar o sentir, deixando que as coisas aconteçam por si, um pouco ao sabor do ritmo dos ventos que sopram na existência. E todos sabemos como o gostar e o sentir também se podem e devem aprofundar e educar. 

Mas vamos mais longe, porque essa é a nossa intenção, ousando olhar para o amor como um compromisso e como um exercício de «descentramento». 

Comecemos pelo compromisso. 

Amar alguém implica e exige o querer amar. Não se trata simplesmente de algo que acontece porque sim, e que eu não sei explicar muito bem (embora todos saibamos como muitas vezes o caminho começa assim), mas é uma realidade que é também fruto da vontade e do querer. Nesta linha, parece-me evidente que o amor implica uma atitude que requer e envolve um compromisso. Aquele que ama não simplesmente ama, mas compromete-se em amar e alimentar esse amor, fazendo com que ele se torne mais maduro, mais consistente, mais capaz de sustentar toda a existência e de ser um horizonte de caminho. 

Só a este nível somos já capazes de perceber como as coisas muitas vezes teriam que ser diferentes. De facto, para o casal este deveria ser (e muitas vezes é-o, todos conhecemos também exemplos nessa linha) um dos maiores programas de vida. Na verdade, o casal não pode estar só preocupado com as questões relativas ao funcionamento da casa, da educação dos filhos, da gestão das carreiras profissionais, é muito importante que possa dedicar tempo, esforço e vontade ao seu projecto e compromisso de amor. 

Certamente o que acabo de dizer ficará mais claro ao olharmos para o amor como um exercício de «descentramento». Reconheço que por si só a palavra até pode parecer estranha e não fazer muito sentido, contudo, para mim, a realidade para que aponta revela-se-me como essencial. 

Quando o amor é alimentado ele vai provocando um «descentramento», pois vai deslocando o centro de mim para aquele que amo. O centro da relação já não sou simplesmente eu, pois no amor eu já não estou centrado em mim, mas naquele que amo. 

Certamente que esta realidade é difícil de explicar e mais ainda de perceber, sobretudo se essa não é uma experiência a que eu este já habituado. 
Mas quando é vivenciada, ela torna-se clara e evidente, lançando-nos, então, para outros patamares que vão muito para além do sentir e do gostar. 

É então que eu posso perceber que o amor já não reside simplesmente em mim, se bem que seja eu que quero amar e me comprometo em amar, mas me lança para outro, me centra nesse outro (descentrando-me de mim), de tal maneira que esse outro se torna uma das dimensões mais importantes de mim mesmo. A este nível o amor já não é simplesmente do âmbito do fazer, mas sim do âmbito do ser. Amar aquela pessoa passa a ser uma das notas características da minha identidade e não simplesmente algo que eu faço. 

A fidelidade surge, então, como a concretização natural desta dinâmica, não sendo já entendida como o não poder fazer certas coisas, mas sim como o viver e realizar aquilo que sou. 

Claro que quando falamos num casal o movimento é recíproco, ou seja, de «um» para o «outro» e do «outro» para o «um», experimentando como o amor não é simplesmente um laço de união, mas vai muito mais longe apontando para uma realidade maior, que nos lança para além de nós mesmos. 
Para nós crentes toda esta realidade faz ainda mais sentido, pois aponta para uma outra experiência de saber que existo porque um amor maior me faz ser e me suporta na existência. 

A experiência de amor no casal pode, deste modo, levá-lo a experimentar mais intensamente o Mistério de amor que Deus é, e essa mesma experiência do amor que Deus é pode ajudar a viver ainda mais intensamente o amor que cada um é para o outro e que faz com que o outro seja. 

Ousar olhar para este amor maior será o exercício que continuaremos a fazer na próxima vez.

por Juan Ambrósio

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