29 de maio de 2011

A Europa revoltada

Reforma da lei francesa de imigração não fala de ciganos e sempre que o Presidente Nicolas Sarkozy ou o ministro da tutela, Eric Besson, abordam o tema, são cuidadosos em nunca usar uma das palavras que designam esse povo, seja o francês gitan, seja o politicamente correcto roma. 

Mas a expulsão de “estrangeiros em situação irregular”, mesmo que cidadãos de um país da União Europeia, em casos em que “ameacem a ordem pública”, careçam de uma “forma de sustento duradouro” ou “abusem do direito europeu de livre circulação” parece feita à medida dos ciganos de Leste, que nos últimos anos têm procurado em França, como noutros países ricos, as oportunidades que escasseiam nas suas nações de origem, em especial a Roménia e a Bulgária, os dois mais recentes membros da União Europeia a 27. 

Durante o Verão, deram-se várias ordens de deportação, muitas vezes de famílias inteiras, com os números totais este ano a rondarem já as oito mil pessoas, segundo o próprio ministro Besson, que se referia, contudo, formalmente a cidadãos romenos, não especificando se tratava no essencial de ciganos. 

A iniciativa francesa não é inédita na Europa, pois já a Itália de Sílvio Berlusconi aprovou, em tempos, medidas de combate à imigração cigana. Sempre com o argumento da segurança, este tipo de leis acaba, porém, por ser associada a práticas racistas e a gerar grande contestação. 

O projecto de reforma da lei da imigração francesa não escapa a duras críticas, com o Parlamento Europeu a ter votado uma condenação da iniciativa, enquanto múltiplas vozes influentes, com destaque para o Papa, já se pronunciaram contra a deportação de ciganos. 

Bento XVI, falando em francês, apelou aos valores da fraternidade humana. Também a ONU e a Amnistia Internacional têm criticado Sarkozy, cujos únicos aplausos externos vêm de forças de extrema-direita como os nacionalistas húngaros, que defendem que os ciganos sejam colocados em guetos. 

A Comissão Europeia, através da luxemburguesa Viviane Reding, ameaça mesmo levar o Estado francês a tribunal. 

Entre os franceses, as opiniões dividem-se entre aqueles que apoiam Sarkozy, cansados de verem proliferar nos arredores da grandes cidades os acampamentos nómadas, e aqueles que consideram que o país está a trair os ideais de fraternidade que vêm da Revolução de 1789 e constam da actual Constituição. Milhares de franceses, manifestaram-se nas ruas contra “o ódio e a xenofobia”. 

Também em Bucareste, capital da Roménia, tem havido protestos contra as deportações francesas. Membros da Aliança Cívica dos Ciganos, sobretudo homens, têm gritado palavras de ordem junto da embaixada francesa, com a mais comum a ser “Rom pavikalo”, que se pode traduzir por “Cigano de confiança”, na tentativa de desfazer a associação entre a etnia e a crimi-nalidade. 

Mas muitos dos ciganos expulsos para a Roménia têm preferido manter o silêncio, esperando uma oportunidade para voltarem a França. 

É que na Roménia, onde constituem um décimo dos 22 milhões de habitantes, os ciganos sofrem uma forte discriminação, sendo dos mais afectados em épocas de crise e relegados para segundo plano. Aliás, algumas sondagens revelam que 53% dos romenos compreendem a motivação das autoridades francesas para as deportações de ilegais. 

Na origem da actual crise dos ciganos está a morte no início do Verão passado de um, cigano francês pela polícia. 

Na sequência, dezenas de ciganos franceses atacaram uma esquadra de polícia na pequena cidade de Saint Aignan, no Vale do Loire, o que causou a ira do Presidente Sarkozy e do seu ministro do Interior, Brice Hortefeux. 

Foram dadas ordens para desmantelamentos de 300 acampamentos ilegais, mas a esmagadora maioria dos ciganos que vive em França tem nacionalidade francesa, sendo os da Roménia e da Bulgária pouco mais de dez mil. 

A sua entrada em território francês sem visto é legítima, mas para estadas de mais de três meses necessitam de autorizações de residência ou de trabalho, o que em regra não acontece nestes grupos. 

Como estão a actuar, alegando problemas de segurança, mas sem ordem de qualquer tribunal, as autoridades francesas dizem que os repatriamentos são voluntários e pagam 330 euros por cada adulto e 100 euros por cada criança. Muitos dos repatriados planeiam regressar. 

Sobre aqueles que são cidadãos franceses pesa a ameaça de retirada da nacionalidade, se atentarem contra a vida de polícias e outros agentes do Estado. O que pensaria disto a célebre Cármen, a cigana que George Bizet imortalizou numa ópera.

por Orlando Fernandes

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