22 de abril de 2011

"A crise da Quaresma"

Sou daqueles que acreditam num Deus actuante, que nos fala através de muitos meios, muitos sinais, muitas coisas.
Penso que na maioria das vezes somos “maus alunos”, pois nem estamos com atenção aos “sinais dos tempos”, nem os compreendemos quando se apresentam claramente à nossa frente, nem procuramos esclarecer as nossas dúvidas. E, pior, achamos que sabemos muito.
Já disse várias vezes que, quanto a mim, esta crise societária é um “sinal divino”, um sério aviso deste Deus aos nossos muitos abusos, que só nos têm escravizado. Desde há tempos, vimos julgando que podemos queimar etapas para chegar mais depressa (não sei onde), esquecendo-nos que a Natureza, desde a Criação, cumpre um ciclo evolutivo ritmado, em que o fruto maduro e saboroso só eclode após meses de crescimento e condições favoráveis. Queremos rapidamente ser ricos, rapidamente conhecer o mundo, rapidamente “viver a sexualidade”, rapidamente ser gente “importante” e afamada.
Mas tudo leva “o seu tempo”…
Até nós cristãos somos tremendamente tentados a viver as alegrias do domingo de Páscoa sem passar pela Sexta-Feira Santa… Ou estarei a exagerar?
Esta passagem pelo deserto – essência da Quaresma – é indispensável para alcançarmos a Terra Prometida… E este percurso árido exige desprendimento, atenção às coisas essenciais da vida, atenção ao próximo. Exige humidade, pois somos todos muito frágeis (por esta razão, exige-se oração, fé). Exige renúncia, sacrifício, austeridade. Mas também exige
perseverança, entusiasmo, empreendedorismo, pois a Terra “onde corre leite e mel” está ao nosso alcance…
Se repararmos bem, quase tudo isto nos exige o Primeiro-Ministro, ou seja, a crise. Ou estarei a exagerar?
Estando sintonizada a crise com a essência da Quaresma, o grande desafio da Igreja (de nós cristãos) é traduzirmos esta mensagem de forma a torná-la acessível a todas as pessoas. E quem entender esta Boa-Nova “de salvação”, está no caminho da felicidade, ou seja, do bem-estar interior. Não tenho dúvidas.
“Há que penar para aprender a viver”, diz o Restolho da Mafalda
Veiga, cantada por tantos jovens. Saibamos “penar” mas com sentido divino, ou seja, com esperança, com alento, cientes que neste deserto da vida, cheio de dificuldades, caminhamos, ritmadamente, rumo ao Domingo da Ressurreição – também da nossa ressurreição.

Por Jorge Cotovio - jfcotovio@gmail.com

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