23 de fevereiro de 2011

O que é o CAF?

Não se faz anunciar por uma daquelas placas de metal amarelo, preenchidas por letras pretas, onde se diz que foi inaugurado por não sei quem, sendo ministro, secretário de Estado, Presidente da Câmara ou da República o nome que segue. Também não exibe material informático sob as mesas onde nos intervalos da função que, por vezes, são muitos, se entra na Net.

Também não está povoado de funcionários, cumprindo, quando cumprem, um horário de trabalho, encerrando às 16, interrompendo, sem justificação para café às 09 e às 15, toma agora mais rara pela crise.
Também não tem porteiro a ensinar caminhos e corredores.
Também não anda nas bocas do mundo, passando por milagreiro, respondendo com eficácia plena, melhor do que ele não havendo, capaz de alojar os miseráveis do país, que não são só os andrajosos, mas, e até, muitos, muitos mais, de casaco e gravata e unha pintada.

Também não consome um cêntimo do orçamento do Estado falido. Também não tem placa identificativa na rua.
Também não tem assegurado estacionamento na rua para o seu director e subdirector, mas excluindo os demais serventuários, porque esses normalmente carregam os carros às costas pagando estacionamento, deitando moeda a medo. Também não vive em palácio restaurado.

Também não vive em apartamento por que o Estado enganado, ou talvez não, paga renda astronómica, em que o intermediário na negociata recebeu milhões e o parecer positivo do consultor custou centenas de milhares.
Existe há doze anos e funciona desde então, sem interrupção, numa modesta sala, de dimensão quase conventual cedida para o efeito, à pastoral da família da diocese de Coimbra, pela Obra de Santa Zita.

É o CAF, abreviatura de Centro de Aconselhamento Familiar, algures na cidade de Coimbra, que funciona sem interrupção, prolongando-se a triagem dos casos a tratar pela noite adentro, por via telefónica, sem desfalecimento de quem o orienta.

Ele CAF, feita a triagem, acolhe tudo e todos, não faz acepção entre ricos ou pobres, crentes ou sem o serem, em vista do aconselhamento especializado de que se julga merecerem, aconselhamento esse absoluto gratuito, prestado na obediência a um esquema de funcionamento sem horário, mas de rigorosa observância.

Ninguém aí acorre e volta sem ser atendido no horário predefinido por quem atende, seja de dia ou já no seu declinar, às horas normais ou fora delas, sem pressas, generosamente, em total entrega, com uma alegria contagiante nos lábios.

E depois de, seja quem for, ser atendido, ainda subsiste a preocupação de o seguir. E mais, em qualquer momento posterior pode reiterar apoio. A umbilicalidade é recorrente. Desde o seu surgir, já recebeu 4083 pedidos de ajuda, e atendeu 2706 casos. Serviu de inspiração para outras dioceses.

O CAF é antidivorcista e antiabortista, mas não condena, não ostraciza, quem optou pelo divórcio ou aborto, aceita, acolhe. A missão CAF é estar ao serviço da família.

Fundamentalmente é fornecer caminhos de solução quando ela está vista; é apoiar; é ouvir horas a fio, quando a degradação já bateu no ser humano que tem pela frente; é ouvir quem, quantas vezes, só disso precisa. É tranquilizar sem sedantes, é apontar o melhor caminho à disposição no exterior, é dizer àquela jovem que fez a opção quase sagrada de ser mãe e procura o processo de obter alimentos para o jovem ser que acalentou no seu seio mas não sabe a que porta bater; é a esposa que enfrenta o marido violento pelo vício do álcool, desorientada por entre a medicação que não toma e o absentismo laboral que corrói o agregado familiar; é o jovem casal em que um deles se enamorou de terceiro em quebra de juras eternas e procura um conselho; é, enfim, a vida a passar por ali.

O CAF, frise-se, não é um consultório médico, mas tem médicos em voluntariado puro, que se dão ao que o procura, com a mesma doação inexcedível que o fazem fora; não é uma clínica psiquiátrica, mas olha com amor e compaixão quem bate à porta, rogando auxílio, não é um consultório psicológico, mas psicólogos aí acorrem para ajuda de outrem, não é um consultório de advogados, mas juristas há, que encaminham sem invasão da esfera profissional de outrem; não é centro de consultadoria fiscal mas tem especialista na área; não é centro de mediação familiar, mas está atento à conflitualidade familiar, que já atinge pais e filhos em escalada preocupante e perigosa, vivenciando famílias desfeitas.

Nem tudo se salda pelo sucesso, mas o CAF, que não tem por escopo fazer milagres, que nem seria capaz, orgulha-se de estar ao serviço integral e desinteressado do outro, com humildade, generosamente e sempre com verdade, que pode custar ouvir; sabe bem que mais que a solução é a palavra de encorajamento que, por vezes salva como o olhar doce de esperança que refrange sobre o outro.

Tudo o que fizeres ao mais pequeno dos teus irmãos é a Mim mesmo que o fazes. É o lema encoberto que o orienta, em prol da harmonia, do melhor entendimento dos membros da família, do mitigar do sofrimento que atravessa transversalmente o ser humano, sem excepção, de mais verdade e autenticidade nas relações humanas, de que não abdica, de tudo mantendo quase religioso porém segredo total.

Por Armindo Monteiro

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