19 de fevereiro de 2011

1. Introdução - Casados e Felizes

Queridos amigos leitores

De volta à vossa companhia e já em pleno ano de 2011, permitam-me começar este novo percurso reflexivo recorrendo a dois pequenos textos que recentemente utilizei num trabalho sobre os desafios que os tempos actuais podem levantar aos cristãos. Os textos não são da mesma altura e nem sequer os vou citar em sequência cronológica, mas julgo que se complementam perfeitamente um ao outro e, certamente, me ajudam a enquadrar esta série de artigos que agora começa

Aqui vão eles:

- “Quando a escatologia (história, utopia, Reino de Deus, etc.) entra em crise, faz acto de presença o apocalipse (o fracasso dos projectos de futuro, a angústia existencial), e quando o apocalipse começa a ser insuportável, com o evidente perigo de provocar os maiores desajus-tamentos psíquicos, então surge o universo da gnose (a emigração interior, a cultura do eu, o espiritualismo, etc).” (Jacob Taubes (+ 1987) referido por Lluis Duch, Reflexions sobre el futur del cristianisme, PAM, Montserrat 1997, 52-53.)

- “Precisamente em tempos de violentas convulsões históricas, nas quais parece desvanecer-se o que sucedeu até ao momento, e abrir-se algo que é completamente novo, o ser humano necessita reflectir sobre a história.

A reflexão sobre a história, se é bem entendida, compreende ambas as coisas: um olhar retrospectivo ao anterior e, a partir daí, a reflexão sobre as possibilidades e as tarefas do futuro, que só podem ser esclarecidas se abarcamos com o olhar um tramo maior de caminho e não ficamos ingenuamente presos no hoje.” (Joseph Ratzinger, Sobre que aspectos se apresentará a Igreja no ano 2000, Conferência radiofónica proferida ainda antes de ter sido ordenado bispo e publicada em 1970. Teve uma nova reedição no ano de 2010).

Parece-me evidente que eles descrevem bem a situação em que vivemos (o primeiro) e a resposta que devemos dar (o segundo). De facto, o ambiente que nos rodeia é cada vez mais um ambiente de apocalipse. Até parece que a natureza também entra nesta dinâmica e quase todos os dias vamos tendo acesso a imagens e notícias que nos mostram uma série de catástrofes. E de tal maneira isto começa a ser insuportável, que já vamos vendo como surgem estas atitudes de 'fuga' por parte das pessoas, refugiando-se no seu interior e no círculo mais íntimo dos seus amigos, tentado, a esse nível, resolver os seus problemas (só os seus problemas).

Pois bem, é nestas alturas que somos convidados a não ficar simplesmente presos no momento presente, mas a ousar um olhar mais amplo que nos permita perceber que o momento difícil que vivemos não esgota a realidade. Ele não é o princípio e não será, certamente, o fim.

O exercício da vida familiar daqueles que nos dizemos crentes, pode bem ser um dos grandes contributos para lidar com esta situação, bem como para, como já disse noutra altura, lidar com a crise a partir do sentido da vida e não com o sentido da vida a partir da crise.

É este sentido amplo do nosso viver, sentido que vem de trás e nos lança para a frente, sentido que também se fundamenta na convicção da fé de que Deus continua hoje comprometido com o sucesso da história humana e para isso conta com a nossa corresponsabilidade, é este sentido que precisamos de ter bem presente e de testemunhar com felicidade.

Estou sinceramente convencido de que esse pode ser um dos grandes contributos dos cristãos face às dificuldades que já estamos a experimentar. Elas não vão desaparecer, mas podem ser enfrentadas com um outro espírito que não o do apocalipse, ou o da gnose, para utilizarmos as palavras dos textos.

Casados e felizes esse deve ser o testemunho dos casais cristãos e simultaneamente um dos seus contributos para a construção da história neste momento. Durante os próximos números vou tentar olhar para diversas realidades da vida dos casais, para as dificuldades que todos temos de enfrentar, sublinhando sempre como o exercício da vida e do amor, nesses momentos, pode ser fonte de felicidade e como essa felicidade nos pode ajudar a enfrentar as coisas com um olhar mais vasto.

Por Juan Ambrósio

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