15 de fevereiro de 2011

Bruscamente numa primavera...

Bruscamente numa primavera de há muitos anos o sol radioso da terra mártir de Angola, sol que só de bafejar, raiando a terra virgem já nela criava vida, empalideceu, quando começaram a chover, a conta-gotas, por entre o ciciar de uns, que não tinham medo, por entre o receio de outros, que nela tinham cometido atrocidades e desmandos de toda a ordem, notícias de que na terra longínqua que a dominava o regime caíra, uma revolução o derrubara, em Abril de 74.
Um sinal de vida melhor, que até então para os seus naturais, negros, fora só, e sempre, de exploração, miséria, doença, dor, arbítrio e exclusão, salvo raríssimas excepções, como raras excepções de justiça, de trabalho justo, de tratamento digno, respeito pela vida, olhar humano, vieram dos brancos ali conviventes há séculos, desenhou-se na linha do horizonte.
Mas depressa a perturbação, já de si reinante, porém encoberta e reprimida, de há séculos, qual erva daninha instalou-se na forma de ambição desmedida.
Era preciso abandonar aquela terra mártir e entregá-la aos seus novos donos, que, anos a fio, pegaram em armas e aspiravam a um naco de terra, dessa terra enorme em área.
E quais filhos de costas voltadas, desavindos, ávidos de partilha de bens entre os progenitores moribundos, começaram a digladiar-se nas ruas, estradas e campos da terra dolorida e cheia de feridas, em lugar de as curarem.
E então, como pessoalmente vimos, fomos mais ou menos forçados a ver, e disso somos, queremos ser, testemunho fiel, os céus da belíssima Luanda, que não tinha culpa da miséria e ambição humanas, na disputa pela herança em vias de abertura, começaram a ser cruzados pelo metralhar constante de armas durante a noite gerando o medo, a intranquilidade e o sofrimento entre a população, que se refugiava nos sítios potencialmente seguros e assim foi, até aqueles filhos desavindos se aniquilarem, ajudados do exterior e por uns quantos do lado dos maus progenitores em agonia.
Durante o dia combatia-se acesamente nas ruas, nas artérias longas, lineares e muitas. Os corpos jaziam nas ruas. As pessoas, em nome de um ajuste de contas, desapareciam do dia para a noite. E ainda hoje decorridos mais de 30 anos se ignora o seu paradeiro. O pânico apoderou-se de todos. O desejo de vingança era horrível e circulava em volta de todos, mesmo daqueles que nada deviam àquela terra, esse o nosso caso.
Nenhum estabelecimento de brancos instalado nos bairros periféricos da linda cidade ficou de pé. O comando "Sandokan" queimou um por um, num total de dezenas e dezenas, sem nada lhe fazer frente. Lembrando o incêndio de Roma, por Nero, do alto dos edifícios, lá por volta de Julho, os incêndios iluminavam a noite, dispersando cheiro a resina.
O poder de autoridade, da autoridade anterior, esfumou-se, volatilizou-se pura e simplesmente. Ninguém se sentia seguro. As prateleiras esgotaram-se de alimentos. E os meios de transporte eram incapazes de escoarem os trânsfugas naturais e sem o serem.
Quando ouço dizer que estão criadas, entre nós, condições, pressupostos, para uma convulsão social, a minha alma fica perturbada porque vivi de perto aquela convulsão, que relato, de modo muito superficial, superficialíssimo, à "vol d'oiseau".
Mas não posso, ainda, deixar de lembrar a tentativa de assalto da cidade dos brancos, pelas populações famintas, vindas dos bairros periféricos, reprimidas a fogo pela potência ocupante.
É preciso a todo o transe evitar um clima destes em Portugal com a crise instalada.
E eu penso, que para além de toda a solidariedade possível a prestar aos mais pobres, aos desempregados, aos desesperados deste país, jovens - sem ocupação são mais de 300.000 -, pais de famílias, injustiçados do poder, que protegeram os amigos, lesaram os que o não eram, é urgente fazer um juízo de culpa.
Ficava muito bem aos políticos, aos ladrões deste país, aos favorecentes ilegitimamente de terceiros, aos que delapidaram os nossos impostos, gastando o seu produto no que não deviam, àqueles que deixaram de os pagar, devendo-os, àqueles que instalados no poder foram indiferentes ao próximo num deixa andar de quase desprezo, fazerem uma confissão pública da sua culpa. Um perdão quase público.
Que adianta a celebração do Natal, palavras delicodoces, sem um "confiteor" do malefício que geraram.
Se calhar também começa por aí a pacificação da sociedade portuguesa em clima de crispação, que esperemos não atinja a convulsão, palavra com uma carga tão elevada de apreensão, que urge usá-la com toda a parcimónia.

Por Armindo Monteiro

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