25 de fevereiro de 2011

Ao correr da pena

No preciso momento que caiem doze sonoras badaladas, do cimo da torre da Igreja, e quando São Silvestre se dispõe a guardar, na grande estante do tempo, o extenso, pesado e volumoso tomo de 2010, sento-me à minha secretária, disposto a alinhavar esta desataviada crónica, que tendes a paciência de estar a ler.

Estas despretensiosas palavras, que aqui ficam escritas, ao correr da pena, como soe dizer-se, mais não são do que ligeiros reparos que nos foram sugeridos pela observação de factos que por vezes se entrechocam e contradizem e pela análise de atitudes que frequentemente nos desorientam porque, ou são incoerentes, ou então, se cobrem com o manto diáfano da hipocrisia, como diria o grande Eça de Queiroz.

Não há dúvidas e não constitui segredo para ninguém, que os tempos em que vivemos estão eriçados de dificuldades, de demagogia e de preocupações de toda a ordem, ninguém, tendo o privilégio de descortinar o que virá a suceder, no dia de amanhã. Mais do que o aspecto de convulsões sociais agressivas e contundentes, que a todos deve causar calafrios, e angústias, assusta-nos a desorientação dos espíritos, a loucura que vai pelo mundo, a subversão dos princípios em que se firmava a estabilidade da FAMÍLIA e da vida social, a sede do luxo e do prazer, o hedonismo desenfreado, que está contagiando todas as classes sociais, arrastando-se as comunidades, para a degradação e para a miséria.

Embora fosse o seio de uma FAMÍLIA que Deus escolheu para nascer e fazer a Sua morada terrena; embora fosse no aconchego de uma FAMÍLIA que Jesus encontrou carinho, afago humanos e suporte necessário ao mistério da história da Salvação, o certo é que nunca, como hoje, a FAMÍLIA tem sido mais atacada, tudo se fazendo para a destruir.

Tem descido, vertiginosamente, a cotação dos mercados dos valores morais, enquanto, despudoradamente, têm subido as valias materiais. De maneira subserviente, presta-se culto ao “bezerro de oiro”, olha-se com um certo desdém para a virtude, chamam-se “bota-de-elástico”, “careta” ou “cota”, a todos quantos não abdicam de certos princípios que lhe formam e moldam o carácter, procurando-se aparentar uma grandeza egocêntrica, que não tem uma base sólida, porque não se apoia em méritos pessoais, nem em virtudes de matriz judaico/cristã, a preceitos de ordem moral. Quer queiramos, quer não, o ambiente familiar, em que o homem é criado e educado desde sempre, tem uma poderosa influência, por vezes decisiva, na orientação que se dá à vida, na maneira como se apresenta e conduz, nos sentimentos que manifesta e lhe definem o carácter, na intensidade com que sente as emoções, os desalentos e as lágrimas que o acompanham, neste jornadear efémero por este mundo.

Porém, tudo se tem feito para destruir esse ambiente familiar, quer pela apologia do chamado “amor livre”, quer pela instituição da interrupção livre da gravidez, o aborto, quer pelo facilitismo de se divorciarem os casais e agora, até pela legalização do “casamento” de homossexuais, com o repelente reconhecimento de actos sensuais entre indivíduos do mesmo sexo, o que até vai contrariar o que se dispõe no Artº nº 1577 do Código Civil, bem como o que se encontra ínsito no Cânone nº 1055, do Código de Direito Canónico.

No sentido de contrariar todo este estado de coisas, urge que se faça todo o esforço a fim de reeducar o Povo, saneando o seu ambiente familiar, para que nele não se germinem caprichos aberra-tivos. Procuremos que floresça no seu íntimo, pujante e forte, o amor a Deus e ao próximo. Procuremos, enfim, que haja tolerância, com outros ideais, desde que não sejam sinistras sementes do mal e não atentem contra os nossos ideais cristãos, contra o bem comum, porque se isso suceder, deixam de ser ideais, para passarem a ser desejos tirânicos, cruéis e opressivos.

Neste sentido, somos contra todos os extremismos, porque os reputamos de intolerantes e fanáticos, porque preconizam a hedionda perseguição, o emprego de força, a vindicta, o ataque à Família, a luta contra a liberdade do cidadão, procurando reduzir o mundo à mais abominável das escravaturas.

Neste contexto, estamos na barricada amorosa dos que se acolhem à sombra dessa árvore frondosa, protectora e amiga, que é o cristianismo, confiantes que tudo há-de passar. Desde sempre as sociedades têm vivido crises económicas, como no tempo do Zé do Egipto, 1700 anos antes de Jesus Cristo ter nascido. Como nos tempos da Idade Média e, mais recente como em 1914/18, aquando da primeira grande guerra mundial e depois, em 1941/45, durante a segunda guerra mundial e sempre erguemos a cabeça e sempre soubemos sair dessas crises. Sempre houve períodos de “vacas gordas” e de “vacas magras”. É certo que agora até se está recorrendo ao ilegal expediente de reduzir os vencimentos, o que vai colidir, frontalmente, com o que se preceitua na alínea d) do nº1, do Artº 129 do Código do Trabalho, aprovado pela Lei nº 7/2009, de 12 de Fevereiro, visto que a relação jurídico-laboral, proíbe à entidade patronal, diminuir a retribuição salarial ao trabalhador, o que a dar-se, constitui uma contra-ordenação muito grave, dado que viola a lei, que a pune.

Porém, estamos crentes que tudo há-de passar. Desejamos apenas e por agora, é que sejam expurgados tantos ódios, tantas invejas, tanto egoísmo, que por aí campeiam e saibamos compreender toda grandeza que se evola da mensagem do Presépio e que foi promulgada pela Igreja, esperança radiosa para os que esperam e confiam na misericórdia infinita de Deus e a crença firme na infalibilidade de uma justiça que chega sempre, embora, às vezes, nos pareça tarde de mais.

Tenhamos esperança em melhores dias e que haja paz, em vez de convulsões sociais, que não levam a lado nenhum e que em todos o lares brilhe o esplendor que irradia do PRESÉPIO de Belém, dando-nos força para sermos um por todos e todos por um, para que no mundo reine a verdadeira fraternidade. Tenhamos presente que o mau sempre atrai o mau e que na guerra ninguém se respeita, como na discussão ninguém se entende…

Recordem-se que quem semeia ventos, colhe tempestades…

Por Fabião Baptista

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