18 de dezembro de 2010

A Família

Deus, pátria e família foi o lema do regime adoptado por Salazar, que tinha a noção da importância da família, impedindo, por todos meios, os ataques a esta instituição.
Não permitiu o divórcio relativamente aos casamentos católicos e a anulação do casamento católico confiou-a aos tribunais eclesiásticos, sujeita a confirmação pela Rota romana, apenas submetendo a sentença do tribunal de cúpula da Igreja, no Vaticano, à mera aposição de “exequatur" pelo Tribunal de Relação.
È que ele estava ciente do valor da família através dos tempos, não ignorando o destroço que lhe causou o ateísmo disseminado numa 1.ª República e o desperdício humano de uma 1.ª Grande Guerra, que, nos campos da França, roubou às suas famílias, o melhor que a Nação tinha, um capital humano jovem.

E se o regime implantado em 1926 sacrificou sem qualquer ganho ou vantagem milhares de jovens nos pântanos ou bolanhas insalubres da Guiné, nos planaltos e savanas do leste de Angola ou nos planaltos ou serra da Mueda de Moçambique, que por aí ofereceram o seu sangue ingloriamente, nem por isso o Estado nos últimos 30 anos deixou de causar o maior ou um dos maiores rombos à família de toda a nossa história.
Esse Estado não lhe trouxe a guerra, que teve um termo, mas trouxe-lhe disfunções, que não verão o seu final ou só depois de muitos anos.
Trouxe o divórcio, que, com o rodar dos termos veio, sem razão, facilitar ilimitadamente, obedecendo a uma lógica cega de uns quantos que, já de si descomprometidos, estavam inquietos e desgostosos se não estendessem o seu descompromisso a terceiros.
E com o divórcio abriu a janela a males e sofrimentos indizíveis, desde logo, entre os cônjuges que viram um projecto de vida em comum desfeito, entre os filhos que se viram despojados do pai ou mãe que partiram, de um afecto, que na reconstituição de nova família, foi partilhado entre outros, pelo que empobrecidos de afecto, de respeito e vergonha escolhem formas de vida onde procuram compensar o que lhes foi roubado pelo recurso a meios mitigantes, como a droga, o alcoolismo, a prostituição, mergulhando na doença mental, no isolamento, no desinteresse pela vida, na desilusão, onde a alternativa é optar por formas de vida paralelas, como o homossexualismo, a permanência exagerada na casa paterna, o descrédito sobre o sentimento, a insegurança pessoal e o triunfo da dependência sobre a actividade responsável.

Mas um golpe da maior irracionalidade desferido sobre a família foi o abrandamento da penalização por aborto, o fomento da morte dos inocentes, que levou a um amolecimento ósseo do valor da vida, ao decréscimo da natalidade e à quebra do contributo para a Segurança Social, prevendo-se que entre em situação de falência em 2028, quando a população contributiva será inferior à inactiva; o corte do pagamento do abono de família a todos os nascidos, sem distinção de escalões salariais dos seus progenitores, inscreve-se numa das mais violentas inconsiderações adensando aquele golpe.
A legalização da união de facto, onde só falta estabelecer-se que os seus actores são herdeiros recíprocos, assimilados a pessoas de sexo diferentes unidas pelo vínculo do casamento, é mais um assalto à sociedade familiar.
A hostilidade com que o Estado tem tratado sectores profissionais que actuam poderes de autoridade ou a indiferença para com estas, tem repercutido, negativamente, no sentimento de respeito que deve reinar entre os membros do agregado familiar, que, sem filtro e acriticamente, o transpõem para o seu seio, originando lassidão, funcionando como o despoletar irresponsável de evitáveis crises.
A linguagem pública, sem barreiras éticas e obscena, a ofensa gratuita e incontrolada permitida e não responsabilizada nos meios de comunicação social, tornou-se factor legitimante de similar atitude na esfera da família, onde aquela se usa, tornando um espaço pouco sadio de vivência e de formação humana, irradiando para fora dela, dando uma imagem doentia e anárquica, anarquia que se estende à escola e segmentos profissionais onde aquela chega.
A família que foi, outrora, um espaço de respeito entre os seus membros, uma escola de civismo, um núcleo de dar de mãos, um centro construtor do mundo, ainda que, por vezes com assumido e compreensivo sacrifício, uma esperança de mundo melhor, o maior e mais seguro espelho de partilhado afecto, uma cidadela inultrapassável de difusão de bons valores e de aprendizagem da vida, tornou-se hoje um mundo caótico, cedendo, perigosamente, o passo à controvérsia desbocada, ao pendor unilateral de cada, à exigência egoística, ao aflorar de sentimentos de culpabilidade, à revolta, à dor, ao voltar de costas, à violência, ao temor, e, quantas vezes, à quase absoluta subserviência e anulação de um mais dos seus membros.

O manto de ganância do capital deixou sobre a família um rasto, um manto de miséria, pelo estímulo ao consumo e ao despesismo, que a família não soube controlar, gerando nela ideia de que este país se transmutara num paraíso, qual árvore das patacas, e, cego a consequências e imprevisões, acabaria por autodestruir-se e destruir a família.
Mas essa destruição de há muito se vinha insinuando no tecido social, pelas mãos desse mesmo capitalismo sem rosto, que desviava lucros, não os reinvestia na empresa, aplicando-os em bens luxuosos que se tornaram próprios dos sócios, familiares, colaterais e afins, sem qualquer controle, não pagava impostos em valores astronómicos, esmolando salários de miséria, realidade contra a qual, há muito, todos nós, por isso não temos as mão limpas, nos devíamos ter insurgido, por não assegurarem condições condignas para os trabalhadores e sua família, que, sem pão para a boca, vivem em desespero, não sendo previsível até onde o conduzirão.
Esta a imagem dolorosa da família, quando fazemos uma incursão nela nos tempos que correm, desprovida de valores fundamentais, ausência que não vale a pena escamotear mais, é factor endógeno e de responsabilidade não exclusiva.

Resta uma esperança de cura, porque está profundamente doente. Mas essa cura passa por uma terapia de responsabilidade e responsabilização de todos, uma cultura de verdade e de humanismo, de respeito inter-individual, que demora tempo a reinstalar-se, se é que alguma vez se instalou…
Impõe-se, pois, uma mutação profunda de empenhamento e a cargo de todos. Não há santos, todos somos pecadores nesse suporte humano de um Estado desacreditado, exangue, a viver de oxigénio, sustentado ténue e amargamente por uns quantos, escondidos, porque é timbre do nosso país relevar, dar importância aos palavrosos, aos amigos do alheio sob falsa capa, que não são só os especados à beira da estrada, escondendo os humildes, os de modesta aparência, verdadeiros cidadãos de corpo e alma, por vezes.

Por Armindo Monteiro

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