2 de novembro de 2010

Celebrar o Dom da Fé

Após este pequeno interregno que, desejo sinceramente tenha sido aproveitado por todos para um merecido descanso, eis-nos de volta para agora, com forças renovadas, continuarmos a caminhar. No nosso caso voltamos a encontrar-nos para juntos prolongarmos, por mais um pouco, a nossa reflexão acerca da celebração.
Já falámos na festa e na importância da celebração, já falámos na necessidade vital de celebrarmos o amor, a vida e a amizade, vamos agora voltar o nosso olhar para a celebração da fé.
É obvio que, para nós cristãos, a celebração da vida do amor e da amizade, tem sempre presente a dimensão da fé. Todos somos capazes de perceber que esta não é simplesmente uma dimensão que se soma às outras, como se pudesse subsistir sem estar verdadeiramente ancorada no concreto da vida.

Sei que isto que acabo de afirmar pode não ser totalmente pacífico, pois muitos dirão, e com razão, que a fé não se pode reduzir a ser uma simples maneira como se vive a vida, a amizade ou o amor, continuando-nos a referir a estas realidades sobre as quais temos vindo a reflectir. Claro que a fé é uma realidade distinta destas, mas estou cada vez mais convencido de que a fé não será uma realidade na nossa vida se não encarnar nessas outras dimensões tão importantes e indispensáveis da nossa existência. Em rigor, atrevo-me a dizer que a fé não cria mais uma área distinta que se soma às outras, mas abre a novas dimensões essas outras realidades. Sinceramente, julgo que quem diz ter fé, ou a vive no concreto da sua existência, ou então corre o risco de fazer uma afirmação que, apesar de poder ser muito bonita, não introduz nenhuma novidade na existência, pois tudo continua igual.
Apesar disto, julgo de extrema importância que cada cristão aprenda a celebrar a sua fé. Ou seja, julgo que é muito importante não só celebrar as outras realidades com fé, mas também a fé por si mesma. E ao afirmar isto, desta maneira, penso não estar minimamente a entrar em contradição com o que anteriormente disse.

Explico-me: vimos, ao longo dos últimos números, como, apesar da vida, do amor e a da amizade serem dimensões sempre presentes na nossa existência, é realmente importante consciencializá-las e aprofundá-las em determinados momentos, de modo a que elas possam continuar presentes e a marcar o ritmo do nosso viver. A sua celebração é, neste sentido, de uma importância muito grande. Aliás, todos temos consciência, de que a qualidade da nossa vida depende também daqueles momentos em que somos capazes de lhe dedicar uma atenção especial, e o mesmo se pode dizer da amizade e do amor. Quem não celebra estas realidades corre o sério risco de as ir vendo empobrecer.
Pois bem, o mesmo se passa com a fé. Ela não existe, como já o dissemos, pairando sobre a vida como se de uma realidade totalmente independente desta se tratasse. Mas, porém, se não a consciencializo e aprofundo em determinados momentos, corro certamente o risco de que ela se dilua de tal maneira no exercício do viver, que acabe por o não marcar e o não abrir a novos horizontes de possibilidade.

É por isso que julgo de vital importância que comecemos também a introduzir nos nossos costumes momentos celebrativos da própria fé. Celebrar o dia do baptismo, do crisma (quantos de nós sabem o dia em que foram baptizados, ou crismados?) e do matrimónio são certamente boas oportunidades para concretizar essa celebração, pois neles celebramos explicitamente a fé no concreto da vida.
A eucaristia é, também, uma oportunidade privilegiada para o fazer. Nela celebramos o encontro com o Senhor Ressuscitado. Até pode parecer um pouco estranho que eu me refira a esta realidade uma vez que ela é uma evidência. Concordo com isso, mas também todos sabemos como muitas vezes as nossas eucaristias caem no ritualismo e na dimensão do preceito, secundarizando a dimensão da festa e da celebração da fé.
E porque não celebrar a fé noutros momentos... cada um certamente poderá encontrar vários, reconhecendo como neles a fé deu outro sabor à vida.
Não tenhamos medo, ousemos celebrar a fé, para depois podermos continuar a viver com o sabor do infinito.

Por Juan Ambrósio

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