24 de outubro de 2010

Requesitos Pastorais

Durante as férias tive oportunidade de conversar com algumas pessoas situadas um pouco à margem da Igreja, auto intituladas de “católicas não praticantes”. (Infelizmente não é difícil encontrar pessoas deste género, mas que nos podem ser extremamente úteis para alterarmos processos na árdua tarefa da evangelização). Provoquei o assunto “Igreja” e moderei os debates. E aprendi muito.
O que é que vai revoltando estes nossos irmãos? O que é mais significativo para eles?
O acolhimento está em primeiríssimo lugar. Sermos simpáticos e compreensivos para com os que nos procuram, nas igrejas, nas sacristias, nas casas paroquiais, nos centros paroquiais, nas salas de reuniões e de catequese, na rua, no telemóvel, na Internet.
Se esta atitude é recomendada para todos os que dão a cara na paróquia, ela é especialmente dirigida aos párocos. Quer queiramos quer não, os ministros sagrados continuam a ser o rosto privilegiado da Igreja. Quanta revolta poderia ser evitada se cuidássemos mais desta virtude e acolhêssemos bem, com ternura, com um sorriso, mesmo quando “mal dispostos”, cansados, indisponíveis ou mesmo quando o nosso interlocutor assume atitudes mais críticas ou até indelicadas!
Outro aspecto focado foi a nossa linguagem. Temos um Cristo que procurou ser simples e claro na transmissão da sua “Boa Nova”, mas temos uma doutrina às vezes demasiado hermética e “sofredora”. Por quê não sermos mais positivos? Falarmos mais da felicidade do que do sofrimento; falarmos mais da beleza da vida do que no aborto; insistirmos mais na riqueza do matrimónio do que no divórcio; enfatizarmos mais a complementaridade entre homem e mulher do que a aberração da homossexualidade; falarmos mais do amor e do mistério da união carnal entre o marido e a mulher, do que do preservativo (a este propósito, alguém me contou a resposta dada por uma adolescente inglesa à pergunta “que significa ser católico apostólico romano?”: “são aqueles fiéis a Roma e que proíbem o preservativo”…).
Um amigo mais atento atreve-se a dizer que a Igreja também são os leigos e que estes devem ter um espaço mais valorizado dentro dessa Igreja. E lá vem um ror de críticas a atitudes que manifestam pouca abertura aos leigos, pouca confiança nas suas ideias e posições, pouca “democracia”. Esta opinião pública interna, já dizia Pio XII há décadas, é uma “necessidade vital” para a Igreja (Família Cristã, Maio de 2010, p. 72). Será que a fomentamos nas nossas comunidades? Não subsistirão subserviências que contradizem esta igualdade de estatutos de todos os cristãos, que lhes advém do Baptismo?
Foram estes os aspectos mais apontados nas conversas que volta e meia travava acerca do modo de ser Igreja. Mas eu acrescentaria mais um “requisito”, neste início de ano pastoral: a necessidade de trabalharmos mais em conjunto, em comunhão, partilhando ideias, sucessos e insucessos, e actuando em concertação. Esta atitude, difícil de sedimentar, deve perpassar as dioceses, as paróquias, os movimentos, os secretariados e outras estruturas da Igreja. É claro que é um desiderato difícil de alcançar, pois exige diálogo, paciência, tolerância, humildade, etc. E nós até convivemos muito bem com os nossos individualismos e protagonismos próprios…
Neste esforço que a Igreja portuguesa, estimulada pela presença do Bispo de Roma entre nós, está empenhada em fazer, neste processo de “repensar juntos a pastoral da Igreja (…) de modo a adequá-la melhor ao mandato recebido de Jesus e às circunstâncias actuais” (Nota Pastoral dos Bispos, Abril 2010), aprendamos com as ovelhas que pastam à margem do rebanho. Algumas são uma espécie de ovelhas ronhosas; outras nem nunca pertenceram a qualquer redil (e nem se importam…). São principalmente estas ovelhas tresmalhadas as destinatárias da nossa Boa notícia da felicidade autêntica. Ou não serão?
Saibamos então adaptar e orientar os nosso planos pastorais, de forma a que a nossa Igreja se sinta “chamada a viver em atitude de serviço generoso e a ser fermento pela autenticidade das suas propostas e do seu testemunho” (ibidem). E converta as pessoas.


Por Jorge Cotovio

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