21 de outubro de 2010

No dia em que a compaixão do homem morreu

A palavra compaixão, etimologicamente, assume o sentido de sofrer com, padecer com outrem, suavizar-lhe e comungar da dor no seu sofrimento, de forma a livrá-lo do medo da solidão na dificuldade.

Ela habitou pouco tempo entre nós porque mal ensaiava os seus primeiros passos começou a ser atacada pela doença do egoísmo e da ganância, como joio infiltrado em seara reluzente de trigo loiro da campina, mal devorador da espiga até a enegrecer.
Os sintomas da doença foram manifestos logo nos sistemas político económicos e sociais, particularmente de um capitalismo selvagem, que correu o mundo à procura de um lucro desmedido, conseguido à custa do pagamento de salários de miséria e de matérias-primas a preço de chuva, com o total desrespeito pelos direitos humanos, ou de benefícios prestados em condições chocantemente desiguais.
Somos um país que nunca se bastou a si mesmo, que nunca foi auto-suficiente, que serviu ao capitalismo, sem limites éticos e morais, remetendo para seu desenfreado consumo interno mão-de-obra barata, deixando-se seduzir por aparentes ofertas de benesses, mas que, pré-ordenadamente, na prática, se acondicionam na palma da mão.
E agora a compaixão incipientemente ensaiada no passado, moribunda por muitos anos, entrou em agonia e abandonou-nos de todo, morreu mesmo.

E os efeitos dessa morte estão à vista.
O negócio do crédito a tudo e a todos, que de barato nada tinha, engordou muitos e empobreceu muitíssimos mais quando cessou a concessão, outrora levada à casa de cada, se tornou mais caro, se seguiu o estrangulamento da economia, o desemprego, a impossibilidade de solver e a pobreza.
A ganância de lucro fomentou o negócio especulativo na bolsa e imobiliário onde, se muitos beneficiaram estrondosamente, da noite para o dia, em grande parte entre nós por falta de uma lei do solos justa e de uma política fiscal eficaz, que fez com que o custo de um apartamento nalgumas cidades do nosso país seja superior ao da baixa de Nova York ou da zona comercial de Paris, sempre à custa do comprador, que agora não consome.
Mas a falta de compaixão morreu nos grandes barões de sectores da perigosa administração pública e de alguns sectores autárquicos onde campeia o trabalho precário a recibo verde, sob a capa de prestação de serviços, mas que é contrato de trabalho, para se não concederem os direitos de trabalhador, favoritismo dos medíocres, a inveja e perseguição dos mais capazes, o assédio sexual e mesmo sem o ser, o terror, a exploração desenfreada e sem respeito por horários, na mira de exclusão, para aqueles melhor reinarem.
O país está mergulhado na pobreza de muitos, mas não se pense que é só a pobreza de bens materiais que o aflige na forma de fome e de condições de acesso em muitos domínios, pois que como afirma o Papa Bento XVI há uma pobreza de topo, matriz das outras, que é a pobreza de co-ração, o egoísmo feroz, incapaz de se solidarizar com o outro, voltado solitariamente para cada.
Neste momento somos especialistas na falta de valores que atravessa a nossa sociedade; a nossa sociedade não é só pobre económica e politicamente, é-o socialmente.
Não admira que alguns responsáveis da Igreja católica tenham acentuado que o modelo económico é “indecente”, mesmo “obsceno”, mas também o são o meio social e político.
Vimos já escrito que à falta de tanta injustiça, escândalos e ausência de princípios elementares de digna convivência e da desigualdade entre nós já não vale a pena ter compaixão, está-se cansado de a praticar, o seu desempenho já se não justifica.
A compaixão começa, perigosamente, também a morrer no coração daqueles que nem enganaram, nem ludibriaram, nem exploraram, nem roubaram e nem beneficiaram de favor.
A melhor maneira de lutar contra este estiolamento interior é brandir, corajosamente, a bandeira do protesto, da denúncia, da indignação e da mudança.

Por Armindo Monteiro

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