1 de outubro de 2010

Mestres espirituais precisam-se

Imagem retirada daqui
Precisamos urgentemente de “mestres espirituais”. Estou mesmo convicto de que estamos perante uma das maiores necessidades da Igreja e da sociedade portuguesa. E neste Ano Sacerdotal todos nós, baptizados, fomos especialmente motivados para este desafio, que nos deve inquietar a todos. Temos de saber acolher, ouvir, aconselhar, orientar. Cada vez estou mais convencido que será preferível desenvolver projectos menos ambiciosos nas nossas pastorais e dar mais atenção às pessoas.
Que interessa ter um belo centro paroquial, com muitas valências se se atende mal, se as relações laborais são tensas, se há mau relacionamento interpessoal?
Que interessará ter magníficas instalações para catequese, se os catequistas não criam empatia com as crianças e os pais, e não formam um grupo coeso e amigo? Que adiantarão as homilias muito bem elaboradas, se terminada a missa o pároco não tem tempo para cumprimentar as pessoas que o solicitam (nem para sorrir para elas), permanece pouco tempo nas paróquias, atende fugazmente as pessoas que o procuram, não visita os doentes, não convive com os paroquianos? Que adiantará ter estruturas paroquiais muito bem planeadas (e até organizadas) se depois os leigos mais empenhados disputam lugares cimeiros, amuam, só colaboram se forem eles os protagonistas, e não têm tempo para estar com o casal em dificuldade, com o doente em fase terminal, com o idoso que vive na solidão, com o pobre que precisa de ajuda?

Cada vez mais, creio que a Igreja não precisa – prioritariamente - de grandes teólogos com muitos tratados de doutrina, nem de leigos carregados de grandes teorias e (só) boas intenções.
Precisamos, sobretudo, de caritas, de simplicidade e humildade nas relações, concretizados em gestos muito banais, como um simples cumprimento, uma mensagem no momento certo, um telefonema, um olhar, um sorriso. Afinal de contas, coisas tão baratas, acessíveis a todos, mesmo aos simples, aos “iletrados”, aos mais tímidos.

Se esta atitude compete a todos os baptizados, designadamente aos leigos (e quantos não são os que a assumem discreta e pacientemente no dia-a-dia, com os familiares, com os amigos, com os colegas de trabalho ou outras pessoas!), ela faz parte integrante da missão (específica) do sacerdote. (Mas todos sentimos que esta dimensão, com os tempos, tem sido subestimada em detrimento de outras tarefas mais “secularizadas”. Aliás, é bem claro que o Ano Sacerdotal visou, sobretudo, alertar os sacerdotes para a sua espiritualidade e para a espiritualidade da sua vocação, sublime e insubstituível).


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 Este ano não têm faltado recados vindos de todo lado, sobretudo do Papa e bispos e mesmo de muitos padres, neste sentido. Por ora, quedo-me somente com estas palavras simples do nosso
Cardeal Saraiva Martins, retiradas da Família Cristã de Janeiro deste ano: “Ser padre hoje é uma coisa muito importante, não é só celebrar missas, mas é ser líder espiritual” (p. 41).
Precisamos urgentemente de sacerdotes (e bispos) que sejam “pastores” e mestres espirituais, que ouçam as pessoas, as orientem, as reconciliem, que evitem as idas rotineiras ao psiquiatra e as doses rotineiras de sedativos, que aliviem da dor e do sofrimento as pessoas desesperadas com a doença incurável, com a morte de um familiar, com a falta de sentido na vida, com o desemprego, com as infidelidades conjugais, com os desgostos provocados por filhos desregrados, etc.
Neste sacerdócio comum, às famílias competirá, sobremaneira, rezar pelos nossos sacerdotes, apoiá-los, estimulá-los (e quantas vezes alimentamos conflitos, meu Deus!), corrigi-los fraternalmente. Sem nunca esquecerem que na sua “admirável vocação”, devem “impregnar e aperfeiçoar a ordem temporal com o espírito do Evangelho” (AA 2), ou seja, serem, ao seu jeito, também “ pequenos mestres espirituais”. Seremos capazes de enfrentar este desafio que os sinais dos tempos não deixam de nos apontar?

por Jorge Cotovio

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