27 de outubro de 2010

Histórias verdadeiras de excelência

Que pensar de uma escola secundária cujos alunos - todos de famílias modestas - devem trabalhar um dia por semana numa empresa, que paga à escola por esse trabalho, enquanto os alunos têm de dedicar mais horas diárias e ter menos férias para completar os seus estudos?

Em Portugal, a escola teria sido denunciada por exploração do trabalho infantil e provavelmente encerrada pelo Ministério da Educação, com o aplauso dos sindicatos. Nos EE.UU., uma rede escolar deste estilo, totalmente privada e de inspiração católica, é uma experiência de êxito, que consegue que 90% dos alunos cheguem à Universidade; (http://www.cristorey.net/).

A primeira escola da rede começou em 1996 em Chicago, criada pelos jesuítas. O êxito levou à expansão do modelo, e compreende agora 24 escolas com cerca de 6000 alunos e 800 professores e empregados em 19 grandes cidades como New York, Los Angeles, Detroit ou Portland.
O sistema inclui agora escolas geridas por diversas congregações e comunidades católicas.
Os alunos e alunas das escolas de “Cristo Rey Network” não são uma minoria seleccionada por nenhum factor especial, a não ser pelo seu baixo nível social. De acordo com Daniel Henninger em The Wall Street Joumal (20-05-10), uma grande parte são latinos (55%) ou afro-americanos (34%), procedentes de famílias modestas, abaixo do limiar da pobreza. Também não são os mais espertos e, na sua maioria, nunca sonharam ir para a Universidade até entrarem nestas escolas, cujo objectivo é precisamente esse. Na maior parte dos casos, os seus resultados escolares não passavam do nível médio ao começar, mas quatro anos mais tarde 99% são admitidos na Universidade, alguns em várias. Estes alunos são tratados com a mesma dedicação, independentemente de serem ou não católicos, embora 60% o sejam.

Estudo e trabalho

Tendo em conta o perfil do aluno médio, e tratando-se de escolas públicas, procurar-se-ia aumentar o orçamento e o número de professores para fazer face às carências dos estudantes. Ao contrário, em Cristo Rey Network pede-se mais aos alunos, com um sistema peculiar que combina estudo e trabalho, e que garante a maior parte do financiamento. Há que ter em conta que não se trata de escolas públicas financiadas com dinheiro público, mas escolas autónomas, puramente privadas, que devem procurar os seus próprios recursos.

O primeiro e o mais importante é o trabalho dos próprios estudantes. Conforme este sistema inovador, cada aluno deve dedicar um dia por semana a trabalhar numa empresa, num emprego real e em dia completo. Trata-se de um primeiro emprego, compartilhado entre um grupo de cinco estudantes, pelo que a empresa paga entre 20 000 e 30 000 dólares anuais à escola. Não se trata de trabalhos como distribuir pizas. As empresas que colaboram no programa são nomes que aparecem na lista das 500 de Fortune, ONG’s, organismos do estado, universidades, jornais, etc.
Antes de começar o trabalho, os alunos preparam-se num campo de trabalho de duas semanas no verão, para aprenderem usos e costumes do mundo empresarial, como tomar notas e mensagens telefónicas, gerir prioridades, manejar fotocopiadoras e fax, boas práticas de atenção ao cliente, e boas maneiras na “linguagem corporal”. Pois a experiência do trabalho não serve apenas para que os alunos paguem os seus estudos, mas também para melhorarem a sua formação em contacto com uma empresa de primeira fila.
O pagamento das empresas pelo trabalho dos estudantes contribui com 65% do orçamento, em uma escola como Cristo Rey Harlem School. O resto é coberto com o patrocínio de empresas, e as famílias que têm possibilidades pagam umas taxas modestas.
Como têm que trabalhar um dia por semana, os alunos devem fazer em quatro dias o trabalho escolar correspondente a cinco. E isto, que poderia parecer um obstáculo, tem muito a ver com o êxito. As escolas Cristo Rey têm um dia escolar mais prolongado e umas férias mais curtas, habituando os alunos a trabalhar com intensidade, dentro e fora da escola. O objectivo consiste em levar os alunos até às portas da Universidade e pôr fim ao ciclo da pobreza. Os resultados indicam que o estão a conseguir.

O instituto mais desejado do Bronx Sur

Tem-se vindo a demonstrar também que não é preciso que a escola seja privada, para desenvolver o seu próprio modelo de êxito. É o caso da Academia KIPP (“Knowledge is Power Program”, O conhecimento é poder) uma escola pública experimental que abriu as suas portas em meados da década de 1990 em Bronx Sur, um dos bairros mais pobres de New York. Metade dos estudantes são afro-americanos e a outra metade latinos. Três quartas partes procedem de famílias mono-parentais. Nesta escola não há exame de admissão, e a selecção é feita por sorteio. Não parece a melhor prática para o triunfo escolar. No entanto, converteu-se em um dos institutos mais desejados e centenas de famílias do Bronx participam no sorteio para adjudicar os 48 lugares de entrada disponíveis em cada ano.
O escritor Malcolm Gladwell descreve o funcionamento desta escola secundária em um dos capítulos do seu livro Fueras de serie. Não é uma escola pública como a que se pode esperar encontrar em um bairro pobre de New York. Aos estudantes “ensina-se-lhes a atender e a dirigir-se às pessoas de acordo com um protocolo que aconselha sorrir, sentar-se erguidos, escutar, perguntar, assentir quando lhe falam directamente e manter o contacto visual”. À hora das refeições os estudantes vão pelos corredores em filas ordenadas, todos com os seus uniformes da Academia KIPP.
A organização baseia-se na convicção de que precisamente porque os alunos têm mais carências culturais, necessitam mais tempo para superá-las. Por isso o dia escolar é bastante mais longo que em outras escolas públicas. As aulas começam às 7 horas 25 m (o que para a maioria dos alunos significa levantar-se às 5 h 45m, tendo em conta o tempo de deslocação até à escola) com um curso chamado “Aprendendo a pensar”. E o dia prolonga-se até às 17 h. Depois há grupos de tarefas escolares, recuperações, equipas despor-tivas. Deste modo, há alunos na escola até às 19 h. Os que saem às 17 h terão também não menos de duas horas para fazer os deveres.

Dia mais longo

Ampliar o tempo disponível dá ao professor a possibilidade de explicar as coisas com mais calma, e aos alunos mais tempo para assimilar e rever, a um ritmo mais lento mas mais seguro.
Fim-de-semana?! Aos sábados pela manhã os alunos vão à escola das 9 às 13. Férias de Verão? Em KIPP estudam três semanas suplementares em Julho. A ideia consiste em que umas férias de verão demasiado longas, que nas famílias remediadas se aproveitam para melhorar a formação dos filhos com diferentes actividades, costumam provocar que os jovens desfavoreci-dos fiquem atrasados. Assim, é necessário que estejam activos.
Curiosamente, as matemáticas, que costumam ser a pedra de tropeço de tantos estudantes, é o que tem tornado mais famosa a Academia KIPP. Cerca de 84% dos alunos estão acima do nível exigido, com uns resultados comparáveis aos dos alunos privilegiados dos bairros ricos. Isto significa um especial esforço. Em contrapartida, mais de 80% dos estudantes de KIPP passarão pela Universidade, e em muitos casos serão os primeiros da sua família a fazê-lo.
“Hoje - conclui Gladwell -há mais de cinquenta escolas KIPP nos Estados Unidos, e mais em projecto. O programa KIPP representa uma das novas filosofias educativas mais promissoras dos Estados Unidos”.

Por Helena H. Marques

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