21 de setembro de 2010

Peregrinar... uma experiência

Peregrinar, metáfora da condição humana, é prática que atravessa tempos, culturas e religiões.
Os lugares sagrados são símbolo do destino humano, antecipação da meta definitiva dos crentes em vivências de interioridade, reconciliação e purificação.
Peregrinar é caminhar em direcção ao absoluto norteado pelos seus valores. A peregrinação tem destino marcado, caminhos sujeitos à incerteza da itinerância.
Caminhando, se faz caminho. Peregrinar é relação e encontro.
Grupo em peregrinação
Relação entre pessoas, partilhando a identidade de crenças e objectivos, diferentes no carácter, atitudes e expressão de valores.
Encontro, em momentos de acolhimento e simpatia que enriquecem com a palavra, o exemplo, o gesto gratificante. Peregrinar é peregrinar com... o outro que já conhecemos mas passamos a conhecer de outra maneira, com o desconhecido que nos revela facetas ignoradas da nossa realidade.
O convívio profundo vai além da resignada tolerância, gera aceitação e doação mútua, o intercâmbio de dons.
Peregrinar é partir para um destino, para um encontro com Deus. Supõe convergência com os outros na diversidade das vivências e expressões da mesma fé. É uma experiência concreta de catolicidade, de unidade na diversidade das sensibilidades e condições pessoais, das situações culturais e humanas, na variedade das línguas e cantares, dos actos da fé e devoção, dos gestos e dos símbolos. A catolicidade manifesta-se não pela oposição, ou redução ao semelhante, mas "examinando tudo e ficando com o que é bom" (ITes 5, 21), integrando as diferenças numa unidade mais rica, superando barreiras e distinções e, através delas, descobrindo “o que é agradável ao Senhor” (Ef.5, 10).
O grupo de 43 pessoas que partiu de Braga, na véspera do S. João, estava unido pelo objectivo de peregrinar até Lurdes. Há a Lurdes da nossa imaginação, a das nossas recordações e a da história. Lurdes começou com as aparições de Nossa Senhora à jovem Bernadete em meados do sec XIX, no ambiente hostil do positivismo racionalista e cientista que contestava a Igreja e as expressões da sua fé e catalogava as práticas da piedade e religiosidade popular no rol da ignorância, da superstição ou do folclore. Lurdes tornou-se centro de peregrinação contra a corrente ilustrada, a cultura e o poder da época. As inúmeras curas verificadas pelos recursos da ciência deram ressonância ao sobrenatural de Lurdes que continuou a viver-se quotidiana e anonimamente nos actos de culto e devoção e nas transformações interiores da conversão pessoal.
Impressiona em Lurdes o movimento contínuo de doentes e de pessoal médico, paramédico e auxiliar na esplanada e imediações, a sua participação destacada nas celebrações comunitárias.
Aqui se compreende melhor a ligação estabelecida por João Paulo II entre o Dia Mundial do Doente e a comemoração da primeira aparição de Lurdes, a 11 de Fevereiro.
Lurdes é lugar de encontro com os limites da condição humana, com a doença, com a deficiência profunda que desafia as possibilidades da ciência. É a evidência da actualidade do mistério da cruz no sofrimento humano e da abertura ao sobrenatural da esperança, ao sentido da vida que ultrapassa o bem-estar.
O dia de Lurdes foi cheio para o grupo: Eucaristia numa das capelas da basílica, Via Sacra, visita aos Lugares de Bernadete, Procissão Eucarística, Procissão das velas. As devoções de Lurdes cumprem ritual centenário que conjuga tradição local com a multiplicidade de línguas e sensibilidades. Podemos deixar-nos ir no ambiente colectivo das orações, dos cânticos, dos símbolos e dos gestos nas grandes procissões ou retirar-nos em momentos íntimos de oração e reflexão na gruta ou em qualquer igreja. Em Lurdes convergem os que procuram um clima propício à interiorização, ao encontro com Deus - há tempo e espaço para isso - e também os que vivem uma fé mais emotiva e de contágio nas acções colectivas, no pagamento das promessas, no queimar das grandes velas, numa religiosidade primitiva que toca as rochas da gruta com alguns laivos de magia. A visita aos Lugares de Bernadete sob a orientação do guia facultado pelo Santuário aproximou-nos do contexto humano das Aparições e ajudou-nos a assimilar a mensagem.
A peregrinação foi caminho. Momentos de convívio e de oração no autocarro e sobretudo as eucaristias nos lugares onde parámos. A primeira no recato da capela de Santa Tecla na grandiosa catedral de Burgos. A segunda, momento de profunda emoção espiritual, na sala onde Santo Inácio de Loyola, convalescendo das feridas de combate, iniciou a grande aventura ao serviço da Igreja “para maior glória de Deus”. No regresso, a participação na eucaristia dominical da comunidade presidida pelo Bispo de Saragoça na Basílica de Nuestra Señora del Pilar.
Finalmente, Ávila, na Igreja eri-gida no local onde Santa Teresa nasceu. No caminho, ainda a surpresa do convívio expansivo na última paragem na Casa de Santa Zita da Guarda para o jantar “à portuguesa” oferecido pelas Cooperadoras da Família e a revelação dos “amigos ocultos”.
A Peregrinação pôs-nos em contacto com a natureza e as marcas nela da acção do homem: a revelação de Loyola encravada entre montanhas, as paisagens sempre verdes e das amostras de neve nos mais altos picos dos Pirinéus, o deslumbramento da Baía de S. Sebastian vista do cimo do Monte Igeldo. De passagem: Valladolid e a Igreja de S. Paulo, a descida do vale de Andorra coalhado de hotéis e lojas de pouco interesse para quem não quer fazer compras, a visão nocturna de Madrid e dos seus mitos, a visita recusada a Valle de los Caídos, “fechado por razões de segurança para obras de manutenção”, as urbanizações inacabadas os ressorts apenas começados e abandonados – as voltas que o mundo e a história dá com as alternâncias do seus poderes.

por Octávio Morgadinho

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