26 de setembro de 2010

Como cordeiros para um mundo de lobos…

É uma cerimónia empolgante, talvez como mais nenhuma outra, carregada de um simbolismo como também em mais nenhuma outra se vê, das poucas mais em que se faz um juramento e se assume um compromisso, como no casamento entre pessoas de sexo diferenciado e na carreira militar.
A cerimónia é aberta a todos e mesmo aos não crentes católicos não deixa de impressionar.
Mais ninguém se prostra por terra, mais ninguém se estende, caído, no solo, em sinal de pequenez, adornado de vestes simples e de um branco impoluto.
Mais ninguém, depois, recebe a imposição de mãos de todos aqueles circunstantes que já passaram por esse momento único e irrepetível, carregado de um significado e um simbolismo do peso do mundo.
Mais ninguém, depois, abraça um por um todos os circunstantes que, antes, lhe impuseram as mãos.
Depois é a transmutação em outrem, logo ali, à vista de todos, investido de uma nova missão que acorre à sua vida e de que começa a participar.
É, já se vê, a ordenação sacerdotal que sensibiliza tudo e todos e levanta muitas e sérias interrogativas.
O que levará um jovem, por via de regra, embora comecem a receber a ordenação sacerdotal, aqui ou ali, pessoas menos jovens, viúvos ou celibatários, a comprometer-se em termos de obediência absoluta, a manter-se celibatário, a servir com fidelidade primeiro a Deus e, depois, aos homens, a militar na causa da condenação das injustiças do mundo, na luta pela verdade, na denúncia da mentira, no respeito pelos mais desfavorecidos e promoção do seu bem-estar, não como um simples burocrata ou um filantropo ou um militante político, mas, e só pode ser assim, enquanto tudo isso é obra de Deus na sua vida, de um chamamento em que pouquíssimos terminam por ser os eleitos?
De certo que não é uma missão fácil, fugir à rotina da celebração, vivendo-a de coração cheio e a transbordar de autenticidade, para não saber a hipocrisia e farisaísmo, a carregar de fardo, transmitir-lhe dignidade e grandeza consoante a natureza de cada, com inteligência, fugir às tentações do mundo, desejo de prestígio, de auto-suficiência, riqueza material e resistir, quantas vezes dolorosamente, à solidão, à aridez interior, ao conflito íntimo e ao perigo de abandono, às vezes até por descrença.
A catequese que o sacerdote preconiza é, quantas vezes incompreensível, contrária ao mundo, que segue outra, dominado pelo materialismo puro, pelo hedonismo, pela maior erva daninha invasiva do coração humano, a inveja, e pelo seu associado a vingança
Deus passou a atravessar o coração humano de forma lenta, não porque seja a Seu gosto mas porque aos homens menos diz, porque lhe viraram as costas. E se o homem do pós-guerra se tornou no homem do guarda-vento, posicionado ao fundo do local de culto, o actual nem sequer isso é.
Só uma enorme força interior e coragem, que lhe vem do


Imagem retirada da internet

Alto, porque humanamente era incapaz de gerar, pode sustentar esse jovem que um dia se decidiu a seguir um rumo para o mundo, de lobos, "mando-vos como cordeiros para um mundo de lobos, disse Jesus aos seus apóstolos, mas também assegurou “ Ide por todo o mundo, em Meu nome, pregai a Boa Nova e Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos".
E neste país ele vem para um mundo envelhecido, onde as mulheres em idade fértil se esqueceram de que podiam gerar vida e se ligam a uma das mais baixas natalidades do mundo, para uma terra onde o divórcio atinge uma das mais elevadas taxas do mundo, a iliteracia é enorme entre uma esmagadora massa populacional, sem esquecer os mais novos, para um tecido social empedernido, dominado pelo egoísmo e pela inveja, acomodado que está, mais em que lhe façam do que em fazer feliz, desde logo, se lhe acenarem com mais uns tostões, meio mergulhado na mentira e na trapaça, que pratica e sabe como, para um canto orientado por políticos seduzidos pela ganância, alguns dos quais nunca desempenharam um trabalho dependente - para saberem quanto custa cumprir - e autónomo, que criaram falsas expectativas de grandeza e bem-estar que sabiam não corresponder à verdade, para uma terra povoada por gente corrupta e impreparada, para uma terra de gente que recebe pensões de fome, que está a cair na miséria, na dor e no sofrimento do desencanto, que há-de consciencializar-se um dia de quem foi responsável pela sua desdita e que, agora, já veste pele de cordeiro, e para um meio de intelectuais que se serviram da sua inteligência para confundir, servir os seus interesses, criar animosidades, nada ou pouco dando em favor do país, que os serviu e, ainda, serve de baixela.
É por isso que esse jovem que abandona a lógica errática e criminosa do mundo e que se propõe, sem se desligar dele, concorrer para a sua melhoria, com sacrifício pessoal, olhos postos no seu Mestre, Cristo vivo e ressuscitado, devia merecer profunda admiração, estímulo e fraterno amor e carinho, o que nem sempre sucede.

por Armindo Monteiro

0 Comentários:

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More