3 de agosto de 2010

Amar o próximo

Levantou-se mal despontou a luz, como gostava de fazer. A família ainda dormia, o que a obrigava a andar cautelosa pela casa. Para não acordar ninguém, decidiu ir até ao pequeno quintal tratar das flores. Enquanto cortava ervas e remexia a terra, ia pensando neste amor pelas flores, neste gosto de ver crescer as plantas. Coisa de família, talvez.

Imagem retirada daqui
Talvez herança que lhe vinha da avó Júlia. A avó Júlia! Cada vez estava a ficar mais parecida com ela. O pior é que a avó, que vivera até aos cem anos, tinha sido mulher de modos bruscos e palavras duras, só sabia lidar bem com as suas flores e as suas árvores de fruto. Mulher de mãos duras, mas com habilidades de fada. Mãos nodosas, de onde nasciam rendas, laços, folhos, com que alindava a casa. Mãos que fabricavam xaropes e mezinhas que calavam qualquer tosse e tratavam qualquer dor. Mãos rudes que trabalhavam sem cessar e faziam crescer à volta um rasto de brilho e inesperada beleza. Levantava-se com o nascer da luz, deitava-se com a ausência dela. Tal como ela, agora. Curiosamente, ao pé da avó Júlia as crianças sentiam segurança e pressentiam um carinho oculto em cada gesto que fazia.

Talvez fosse o “saber fazer”, o gesto adequado à circunstância, que lhes transmitia o forte sentimento de protecção, sem nunca lhes dar um beijo, pegar ao colo ou mesmo fazer uma carícia.

E agora ali estava ela, com algumas características da avó, com um enorme prazer em ver crescer as plantas e sem paciência para a maior parte das conversas dos adultos.

O ritmo biológico vai mudando e cada vez acordava mais cedo. Ficou preocupada.

Será que iria ficar uma velha amarga, de rosto fechado e palavras duras?

Porque seria que a avó Júlia tinha tantas dificuldades de relacionamento?

Mentalmente fez uma lista:

A avó não ouvia ninguém; a avó julgava toda a gente; a avó dizia mal de toda a gente; a avó não perdoava nada a ninguém; a avó guardava ressentimentos com dezenas de anos; a avó atirava ao rosto das pessoas algum bem que lhes fazia.

A casa bonita, sempre impecavelmente limpa e arrumada, raramente recebia visitas. Quando a avó fechou os olhos e partiu para a outra vida, foi com dificuldade que desmontaram a casa. Estava tudo tão bonito...

No quintal ainda existem as laranjeiras e a árvore de Lúcia

Lima de que a avó tanto gostava.

Talvez sintam os vegetais saudades das mãos nodosas que as plantaram e cuidaram tantos anos.

A mulher voltou para dentro de casa e fez uma lista que colocou na porta do frigorífico e que dizia assim:

Compromisso - A partir de hoje: Ouvir os outros; perdoar sempre; não julgar ninguém; não dizer mal de ninguém; nunca guardar ressentimentos; não cobrar o bem que fizer.

A avó tinha razão em muita coisa. Estava certa em quase tudo o que pensava á cerca da vida, mas não no que sentia em relação aos outros. Ao longo dos anos tinha acumulado uma sabedoria imensa e o seu amor à vida e à Natureza eram quase inexcedíveis. Talvez se possa dizer que tinha intuído, espontaneamente, a primeira parte do Mandamento: “Amar a Deus sobre todas as coisas”, sem nunca ter compreendido o importante complemento “e ao próximo como a si mesmo…”.

por Fernanda Ruaz

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