2 de julho de 2010

Será que o homem tem mesmo razão?...

Quando estudei "Os Lusíadas" (já lá vão tantos anos), no meio daquela estopada toda, um dos episódios que mais me impressionou, depois da narração da "Ilha dos Amores", claro está, (estâncias de 22 a 35, Canto IX), foi a descrição do "Velho do Restelo". Foi aquela voz austera e profética do velho, de aspecto venerando, que na praia, com o som pesado e um pouco alevantado, assim bradava aos destemidos navegantes, que partiam em frágeis caravelas, verdadeiras cascas de nozes, rumo ao desconhecido:

"Oh! glória de mandar, óh! vã cobiça
Desta vaidade a quem, chamamos fama
...
Que mortes, que perigos, que tormentas
Que crueldades neles experimentamos!"

Ainda hoje, cada vez que releio "Os Lusíadas", graças à arte poética de Luís Vaz de Camões, arauto da lusitanidade, fico a pensar naqueles portugueses de quinhentos, na Lisboa medieval, na marinhagem a trepar para os escaleres, nas mães, esposas e noivas que ficavam na praia a chorarem, nos familiares e amigos comovidos. Ainda hoje parece ouvir a voz acerba e prudente, sábia e profética do "Velho do Restelo", a predizer, ameaçadoramente, os perigos que esperavam os intrépidos portugueses, capitaneados por Vasco da Gama e por seu irmão, Paulo da Gama, a criticar toda aquela azáfama e a agourar toda a espécie de desgraças, ao mesmo tempo que denunciava e punha a descoberto, os vícios, as crueldades e os desmandos, dos lusitanos da época.


Ninguém deve ter escutado a sua voz contestatária, os seus apelos. Os navegadores, porque já velejavam ao largo. Os "magnates" de então, porque a sua voz não lhes convinha e o povo, porque nada podia fazer, para inverter esta situação, restando-lhe a resignação.
Agora, volvidos que são mais de 500 anos, surge um novo "Velho do Restelo". Será mesmo? Quem dera que não fosse. Que fosse apenas e tão somente, um simples profeta da desgraça, como já o apelidam...
Ainda ontem ouvi, novamente. É também uma voz inconfor-mada, uma voz aterradora, demolidora, que incomoda quem o escuta, que não se cansa de chamar atenção dos portugueses contemporâneos, para as calamidades que neste momento estão afligindo a Nação portuguesa.
Mal liguei a televisão, lá estava ele, Medina Carreira, chamando atenção dos portugueses para o elevado défice externo, para os 11,5 % dos desempregados, para as inúmeras fábricas encerradas, para as firmas que dia-a-dia abrem falência, predizendo que Portugal tem, à sua frente, um futuro muito pouco risonho, uma periclitante economia, uma situação muito sombria e por vezes caliginosa, perante o FMI (Fundo Monetário Internacional). Por fim augurava que tudo vai correr muito mal, ou seja, muito pior do que já está. Que para obstar tudo isto, será necessário, urgentemente, inverter este "statu quo" e, ao mesmo tempo, preparar os portugueses para as dificuldades e tempos sombrios que nos esperam e se avizinham a passos largos.
Ora eu, que julgava que o pior já tinha passado, dando crédito aos actuais governantes e que , pior do que estamos, seria de todo impossível, sinceramente, fiquei estarrecido. Espantado mesmo. Porém e ao invés do "Velho do Restelo", Medina Carreira, não vaticina nada de novo. Afirma que os políticos que nos governam, não prestam (mas que grande novidade?).
Que o País está quase como a Grécia, de "tanga", caminhando mesmo e a passos largos, para o completo nudismo (já António Guterres o havia afirmado, há anos), Além disso, que há, por aí, quem não se tenha apercebido disto mesmo. Que é urgente que as rédeas do poder, passem para outras mãos, que melhor saibam prevenir o futuro e que se deixem de utopias e de ideias megalómanas. Que saibam cortar a despesa pública. Que tenham a coragem de reduzir o número de deputados na Assembleia da República. Que os membros do Governo não mudem de frota automobilística, todos os anos. Que se deixe de distribuir sinecuras, benesses, prebendas, aos apaniguados. Que se governe com honestidade, seriedade e competência. Que desçam os combustíveis, quando o barril de petróleo baixe preço. Mas afinal, tudo isto, nós cidadãos comuns, já o sabemos de cor e salteado... Só o que Medina Carreira se esqueceu, foi de dizer como é que se devia proceder para que se mude este lastimoso estado de coisas, o que foi pena que não tivesse sido dito...
Será que Medina Carreira está gozando connosco, anunciando o óbvio, o que é do conhecimento geral? Será que quererá voltar a sobraçar a pasta das Finanças ou mesmo de primeiro Ministro? Porém, e segundo o FMI e de acordo com a grande maioria dos economistas portugueses, Portugal é o segundo país, logo a seguir à Grécia, que constitui a grande preocupação da Zona Euro, estando na iminência de sair deste organismo internacional, caso não inverta o crescimento económico. Presentemente, Portugal tem uma dívida pública, directa, muito acima de 90% do PIB e um consumo bastante maior do que aquilo que produz. Daí o corte do "rating" da dívida pública portuguesa e o agravar das pressões, sobre o nosso país, dos mercados económicos internacionais.
Eu, que não sou um político, nem economista, mas sim um simples e humilde cidadão, senti-me bastante mal com esta situação. Horrorizado mesmo...
Lá que Portugal está mal, já não constitui segredo para ninguém. Que o desemprego se situa em mais de 10%, já todos o sabem. Que este executivo tem-se revelado ainda pior que o anterior, defraudando todas as expectativas que nele se depositavam, é um facto real. Mas que fazer? Onde estão as alternativas?
Ao ouvir as peremptórias afirmações de Medina Carreira, algumas das quais são mesmo muito contudentes, fiquei confuso. Será que este economista tem mesmo razão? Se Medina Carreira sabe tanto destas coisas das finanças públicas, se ele é tão competente, lúcido, honesto e inteligente, porque não o chamam para o Governo ou para consultor, para ajudar a fazer melhor? Crâneos luminosos, sempre se precisaram e, quanto a mim, um bom mestre, um bom professor, não é aquele que faz a política do "bota-a-baixo", da maledicência, da destruição. Não é aquele que só sabe dar notas negativas. Para mim, um bom mestre, é aquele que sabe explicar, que ajuda o aluno a aprender, que ampara e faz progredir os seus educandos, aplicando metodologia apropriada, eficaz e pertinente.

por Fabião Baptista

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