29 de julho de 2010

Os meios de comunicação social e a família (continuação)

Imagem retirada daqui
Outros perigos, embora menos graves, aconselham igualmente muita prudência e o exercício do espírito crítico quando se navega na world wide web.

Um deles tem a ver com a facilidade com que, por este meio, se desrespeitam os direitos de autor, prática, aliás vício, que constitui mesmo crime tipificado na lei.

Um outro problema tem a ver com a falta de credibilidade de muitos dados: convém não esquecer que a publicação de conteúdos na “net” é livre, muitas vezes oriunda de fonte incógnita ou omitida. Nem todas as fontes e conteúdos se pautam pela mesma qualidade, exactidão, autenticidade e ética. Não raras vezes, o que deveria ser o exercício do direito à liberdade de expressão mais não é do que mera libertinagem. Por isso, nem tudo o que se encontra na internet merece credibilidade e confiança.

O quarto grande motivo para usarmos os media com espírito crítico é a tendência dos meios de comunicação para um certo relativismo ou permissividade moral. Melhor dizendo: para o atentado à moral, sobretudo quando, explícita ou implicitamente, se faz apelo aos instintos mais baixos. Os mass media são, de facto, uma janela sobre o mundo. Até aí tudo bem. O problema coloca-se quando essa janela se torna indiscreta ao mais baixo nível.

Já não bastavam os apelos ao narcisismo, ao prazer, à “boa” vida, a um olhar complacente em relação a comportamentos desviantes, imorais ou mesmo anti-sociais. Mais recentemente, surgem cada vez mais frequentes as violações do direito à privacidade e à própria intimidade. Sob o pretexto de indiciar a prática de certos crimes, exalta-se o feio hábito de espreitar pelo buraco da fechadura, o mau costume de escutar conversa alheia e, pior ainda, o de publicar (leia-se “escarrapachar”) toda a espécie de “cuscovilhice”. Trazer a investigação criminal e o julgamento para a praça pública é um infeliz retrocesso moral e cultural.

Atentado à moral também porque tamanha permissividade publicada constitui abuso da ignorância dos mais fracos, dos menos cultos ou instruídos, dos ingénuos e inocentes. Estou a exagerar? Até mesmo no nosso país já há notícia de vários jovens constituídos arguidos sob acusação de violação do elementar direito à privacidade e à intimidade. Não só gravaram experiências sexuais, como, sem conhecimento e consentimento dos parceiros, publicaram os respectivos conteúdos (imagem e som) em sites internet bem conhecidos e muito frequentados.

Seria bom que a juventude se desse conta de que a publicação dos escândalos envolvendo a classe política, de que tanto se fala e comenta, não é exemplo dignificante para ninguém.

Quanto mais não seja em nome do direito à privacidade, à intimidade e até à segurança, é imperioso que exercitemos o nosso espírito crítico também antes de publicar o que quer que seja no blogue, no Facebook, no Twiter e, de um modo geral, naquilo a que agora se chamam “redes sociais”. Um dos problemas é o facto de, a partir do momento em que publicamos, perdemos o direito de propriedade sobre tais dados e o controlo sobre a sua difusão posterior. Muitos desses conteúdos, até podem ser engraçados hoje, mas daqui a dez anos, é bem possível que a t é n ó s próprios os achemos desactualizados ou até mesmo ridículos.

Pior ainda se o responsável de recursos humanos que vai decidir sobre a nossa candidatura a um emprego não lhes achar graça nenhuma e considerar que uma pessoa que publica tais coisas no Facebook não tem perfil adequado para um dado posto de emprego.

Um quinto motivo a exigir especial cuidado é a tendência para um certo cepticismo religioso sobretudo nos grandes meios de comunicação social. Na minha opinião, os media, na sua grande maioria, não são exactamente ateus, nem anti-teístas, nem se posicionam contra a fé e a prática religiosas. O que eles são é não crentes e também não clericais.

Ou “não confessionais”, como agora se diz. Tratam e encaram a Igreja como uma Instituição“semelhante às outras”, sujeita às mesmas fraquezas e dificuldades.

Mas a verdade é que os media, sendo muito sensíveis à vida da Igreja na ordem temporal, não tratam nem veiculam com o mesmo rigor os aspectos da ordem espiritual. E, não raro, apresentam uma imagem vulgarizada e banalizada daquilo que para os fiéis é sagrado. E, quando denunciam o pecado, ignoram ou omitem o exercício do exame de consciência, do arrependimento, da reconciliação e a graça do perdão.

Na minha opinião, este posicionamento dos media, não sendo favorável à expressão e compreensão da Igreja na sua totalidade humana e divina, em rigor, também não pode ser considerado um atentado a todos quantos, individual e comunitariamente, buscam em Deus o seu refúgio seguro.

Fazer catequese não faz parte das atribuições nem da vocação dos meios de comunicação de massa. E, creio bem que, se não a souberem fazer com dignidade, é preferível que a não façam.

Não me repugna que, com alguma frequência, algum jornal ouuma estação de televisão também anunciem um pouco da Boa Nova de Jesus Cristo. Mas, sinceramente, prefiro ver e até participar no anúncio do Evangelho, mas com a colaboração generosa de pessoas peritas na matéria e em sede própria. Que é como quem diz, junto das comunidades, de forma presencial, ritual; não tanto como o podem fazer os mass media, de uma forma virtual e dirigida a uma massa que, ainda que muito numerosa, é anónima.

Uma última nota para juntar ao espírito crítico. Podemos chamar-lhe a busca da excelência.

Vale a pena e é importante estimular a nossa preferência e gosto pela exactidão, pela qualidade, pela beleza, pela justiça, pela alegria de ser solidário com os outros. É importante fazer passar os nossos juízos e decisões pelo crivo de valores mais altos, não necessariamente os valores ditos“dominantes” na sociedade. É que os valores elevados, além de nos inspirarem, também motivam, com a vantagem de serem como as energias renováveis: os altos valores nunca se esgotam. Pelo contrário, a vulgaridade, a banalização, o ir passivamente atrás do que os outros fazem, dizem e compram acaba fatalmente por ter um impacto depressivo sobre as nossas atitudes e comportamentos, sobre a nossa identidade. E sobre a nossa qualidade de vida.

Uma referência final é devida ao Jornal da Família. São hoje muito poucos os jornais com conteúdo, não apenas verdadeiramente formativo, mas para todos os públicos. Mais do que obra feita é obra para continuar.

E para apoiar. E todas as pessoas que nele trabalham, que nele trabalharam, a começar por aquelas que já partiram deste mundo, são credoras do nosso apreço, do nosso carinho e das nossas orações.


por Joaquim Pedro
(ver 2ª parte aqui)

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