16 de junho de 2010

A Visita do Papa: o símbolo e a mensagem

Bento XVI é sucessor de Pedro na cátedra de Roma, símbolo bimilenar da tradição que liga a Igreja de hoje ao ensino e às práticas apostólicas.

Nas variações do exercício formal desse poder, a aceitação ou recusa do Papado foi referência das instituições e das doutrinas, das reformas ou rupturas, mas sempre da continuidade da Igreja. Porque referência estável e segura o Papa é elemento básico da identificação dos que se confessam católicos. Para lá das suas características pessoais, da sua relevante carreira e prestígio intelectual, Bento XVI chegou a Lisboa como símbolo da universalidade (catolicidade) e unidade da Igreja. Muitos dos que foram ao seu encontro encontram na instituição e princípios que ele representa elementos da sua identidade pessoal, embora na prática quotidiana nem sempre sejam esclarecidos conhecedores nem fiéis observadores da doutrina e das normas que a Igreja propõe. A força identificadora do símbolo vai muito mais além das formulações racionais explícitas.

Uma ou outra comparação com João Paulo II foi superada pela evidência da historicidade da Igreja que necessariamente concilia a continuidade na instituição com a contingência das pessoas que a servem. Cada Papa cumpre o seu ministério de comunhão na mesma Igreja, segundo a sua personalidade, carismas, e circunstâncias históricas em que o desempenha. A Igreja permanece, aqueles que a servem passam e nela vão deixando o seu traço.

Bento XVI foi acolhido com a simpatia e alguma compaixão que nos atrai para quem sofre. O seu contacto esbateu as caricaturas de figura prepotente, rígida e distante e as acusações sobre ele lançadas, situando-as no contexto duma Igreja que carrega a cruz das debilidades, erros, crimes ou pecados dos seus membros. O Papa falou disso explicitamente aos jornalistas, no avião e na sua alocução aos Bispos. A Igreja e o Papa que a serve estão ligados ao mistério da cruz de Cristo. A cruz é símbolo permanente da identidade cristã.

A mensagem que o Papa deixou nas suas intervenções públicas cumpriu o programa enunciado, à chegada ao Aeroporto de Lisboa: “A visita, que agora inicio sob o signo da esperança, pretende ser uma proposta de sabedoria e de missão.” A esperança marcou sempre a atmosfera em que decorreu a visita. No Centro Cultural de Belém explicou o que entende por “sabedoria”: “Um sentido da vida e da história” inspirado numa tradição de que faz parte “um universo ético e um “ideal” a cumprir”. A sabedoria é aceitação do valor supremo da verdade procurada através do “respeito dialogante” das outras “verdades” e daqueles que as vivem. Na homilia no Porto esclareceu o sentido da “missão” da Igreja comum ao Papa e ao mais humilde fiel leigo de qualquer comunidade católica: “receber de Deus e oferecer ao mundo Cristo ressuscitado, para que todas as situações de definhamento e morte se transformem, pelo Espírito, em ocasiões de crescimento e vida”.

A sabedoria e a missão da Igreja remetem para um único fundamento: Cristo ressuscitado, vivo e presente hoje na sua Palavra, na Eucaristia e nos sacramentos, na acção da Igreja e na experiência dos seus membros. A fé em Cristo ressuscitado não é mera visão teórica e estática, mas compromisso de vida e de acção “para que cada cristão se transforme em testemunha capaz de dar conta a todos e sempre da esperança que o anima “ na convicção que “só Cristo pode satisfazer plenamente os anseios profundos de cada coração humano e responder às suas questões mais inquietantes acerca do sofrimento, da injustiça e do mal, sobre a morte e a vida do Além. (11.5, Lisboa)

A antropologia cristã, a sua ética e a sua visão cultural derivam deste centramento no objecto da fé, Deus manifestado na humanidade de Cristo sofredor, morto e ressuscitado, vencedor da morte e do pecado, abrindo caminhos de uma humanidade nova sempre frágil e necessitada de conversão. O humanismo cristão de que a esperança é constituinte fundamental “tem como dimensão primária e radical, não a relação horizontal, mas a vertical e transcendente.” O homem “criado e ordenado para Deus, procura a verdade na sua estrutura cognitiva, tende ao bem na esfera volitiva, é atraído pela beleza na dimensão estética. A consciência é cristã na medida em que se abre à plenitude da vida e da sabedoria, que temos em Jesus Cristo.” (11.5 Chegada)

A análise que Bento XVI faz da situação da cultura actual assim como do horizonte que reconhece ser o da acção da Igreja é dialéctica e tensional. Na visão cristã a dimensão vertical e transcendente é dominante, mas inclui necessariamente a dimensão horizontal. Em muitas das correntes da cultura actual é dominante a corrente horizontal fechada à dimensão vertical e transcendente. O apelo do Papa ao diálogo em todas as frentes e dimensões da cultura tem por base a convicção de que a razão humana não exclui a fé e que a fé cristã sempre se abriu à razão e nela procurou exprimir e comunicar a verdade. Os grandes projectos práticos da Humanidade, os caminhos da justiça e da paz, a humanização da convivência, da vida social, da economia e da política precisam de uma cultura aberta à transcendência, de um pensamento inclusivo e dialogante que integre no presente as perspectivas do futuro e os legados da tradição, o melhor do património humano. “É preciso fazer com que as pessoas não só aceitem a existência da cultura do outro, mas aspirem também a receber um enriquecimento da mesma e a dar-lhe aquilo que se possui de bem, de verdade e de beleza.” (CCB, 12/5) A Igreja está disposta a dar o melhor de si própria e tem-no feito tantas vezes até ao heroísmo para que a dignidade e a liberdade humana e os seus valores sejam efectivamente salvaguardados. Vê no processo um desafio à radicalidade e à conversão contínua, à vivência do amor que reconhece prioritariamente como aceitação do outro. “Viver na pluralidade de sistemas de valores e de quadros éticos exige uma viagem ao centro de si mesmo e ao cerne do cristianismo para reforçar a qualidade do testemunho até à santidade, inventar caminhos de missão até à radicalidade do martírio.” (11.5; chegada) A Igreja não pode renunciar à missão de ser fiel à verdade, à dimensão transcendente e vertical da verdade e reclamar no espaço público liberdade para a propor.

por Octávio Morgadinho

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