27 de abril de 2010

Quem semeia ventos

De acordo com a compreensão que temos, hoje, do comportamento humano, é possível determinar, em diversos domínios da personalidade, uma elevada probabilidade de relação entre determinadas causas e os seus identificados efeitos. A dificuldade maior no estabelecimento desta correlação prende-se com o facto de cada comportamento e, mais notoriamente ainda, de cada estrutura de personalidade, dependerem da influência de uma constelação de variáveis que, por sua vez, se influenciam mutuamente. A complexidade dos fenómenos em estudo não facilita a causa da abordagem científica e, por isso, muitos julgam a psicologia afastada das ciências duras, mas seja como for, há áreas em que a investigação já nos oferece um quadro de leitura objectivo, estável e credível, capaz de sugerir interpretações fiáveis, intervenções bem sucedidas e, até, em condições culturalmente abertas e eticamente recomendáveis, recomendar políticas consistentes e orientadas para o maior bem da pessoa humana. Ora, em Portugal, onde se diz à boca cheia que os políticos consultam as bruxas e se contam anedotas em que videntes darão pareceres pagos pelo erário público, parece que o conhecimento psicológico ainda não entrou nos gabinetes do poder nem é usado para tomar decisões que influenciarão, decisivamente, a vida e a personalidade de milhares de cidadãos, por vezes, cidadãos muito pequenos e frágeis, pobres e indefesos, pois não há no nosso país situação social mais precária do que a das crianças, mesmo quando os seus pais conduzem Ferraris ou vestem Versace.
Sob este ponto de vista, talvez se possa compreender o efeito mediático que teve a descoberta espantosa de que os lusos bebés de todas as classes sociais passam mais de 9 horas nos infantários, precocemente entregues às maravilhas da tecnologia, em particular àquela espantosa invenção que é a televisão para lactantes, também disponível quando entregues a empregadas mais estimuladas a encerar o chão do que a interagir com a criança.
Ainda ninguém tinha dado por isto? Mas é, afinal, não só uma prática corrente como alimentada por uma medida governamental de absurdo alargamento de horários, imposta a creches e infantários contra a vontade, esclarecida, de educadoras e professores, vejam lá os preguiçosos, que não nos querem tomar conta das criancinhas enquanto damos mais uma volta pelo Shopping, porque, com a crise, para as horas extraordinárias não é, certamente. Definido o quadro, seria cómico, não fosse absolutamente trágico, o entusiasmo uma semana mais tarde vertido em torno do bullying, despertado, desta vez, pelo desaparecimento do menino frágil e acossado, conta quem assistiu ao desenrolar do drama, finalmente esgotado de lutar contra a inexorável lei do mais forte. Realmente, um forte muito fraco, certamente educado entre mais ou menos ecrãs, mas poucos rostos humanos, incapaz de empatia, de reconhecimento emocional, embalado por telemóveis e chuteiras do Ronaldo, mas criado sem amor, sem estrutura familiar, sem certezas nem orientações, sem regras nem diálogo, moído pela pancada, pela bebedeira, ele, o violento, que a sociedade da competição e da não-educação, da igualdade que não dignifica nenhuma das partes, da distribuição magnânime de subsídios e das suas variadas dependências, alimenta, inspirada pela Magna Carta do individualismo e reconhecível no roteiro da liberdade travestida de relativismo puro e duro.
Onde está o mal? Onde sempre esteve, no coração humano que desconhece os mistérios da vida e se prostitui, por meia dúzia de moedas ou quinze segundos de popularidade, alienado e alienante. Assim, é fácil de compreender que os bullys da próxima semana estejam, hoje, há horas, entregues a si mesmos e à TV, sem nenhuma atenção humana, sem pais, sem educadores disponíveis, sem amor, sem educação. Diz o povo que quem semeia ventos, colhe tempestades. Pena é que os nossos doutos políticos estejam sempre tão entretidos com cimeiras de alto gabarito que não tenham tempo para ouvir a voz do povo, que, aliás desconhecem, protegidos como estão pelos vidros fumados das suas viaturas de alta cilindrada. Mas, quanto à relação entre as 9 horas de infantário e a perseguição dos pátios das escolas, a psicologia popular está de acordo com a científica, tal como 2 e 2 serão 4, embora convenha definir em que universo. No caso da violência, no seio das nossas crianças.


por Cristina Sá Carvalho
Psicóloga

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