3 de março de 2010

Aproximações a "Caridade" e "Verdade" na Encíclica Bento XVI

As encíclicas são identificadas pelas primeiras palavras do texto latino. Nalgumas essas palavras são apenas circunstanciais, sem informação relevante sobre o conteúdo do texto. Na encíclica “Caritas in Veritate”, Caridade e Verdade constituem efectivamente o tema e a base do desenvolvimento da sua mensagem. “Caridade” e “Verdade” têm vários sentidos no uso comum. Daí a pertinência das questões: quais os sentidos de “verdade” e “caridade” para que aponta a encíclica? Qual a relação entre elas?
Abreviando, consideramos três sentidos de verdade: a verdade como condição da realidade; como condição do conhecimento que se tem da realidade; como condição de quem se pronuncia sobre a realidade. A verdade tem sempre a ver com a realidade. Quando dizemos “as coisas são o que são”, “isto é ouro verdadeiro” ou como na etiqueta dos cintos, “pele verdadeira”, pronunciamo-nos sobre a realidade das próprias coisas, sob pena de serem diferentes, outras. Usamos um segundo sentido quando nos pronunciamos sobre uma realidade concreta, exprimimos um conhecimento. Afirmamos que é verdade que “D. Afonso Henriques foi o primeiro rei de Portugal”, “2 e 2 são quatro”, “a água e H2O”, significando que essas proposições correspondem a um aspecto da realidade e podem ser validadas por critérios adequados. Tomamos o terceiro sentido, quando ouvindo uma narrativa, uma descrição, ou uma apresentação de contas, acusamos “é mentira”. Estamos neste caso a pronunciarmo-nos sobre a fiabilidade, a sinceridade de quem nos apresenta uma informação. Três frases do Catecismo da Igreja Católica exemplificam estes sentidos de verdade: “Deus é a própria verdade” (215); “A verdade de Deus é a sua sabedoria, que comanda toda a ordem da criação e o governo do mundo” (216); “Deus é verdadeiro quando se nos revela” (217)
Em resumo, a verdade refere-se a uma realidade, um conhecimento ou uma convicção que está fundada na natureza das coisas, em evidências ou argumentos racionais que a tornam comunicável, universal e acessível a todo o que faz uso adequado da sua razão.
Na encíclica o conceito de verdade é tomado em toda a sua força e abrange cumulativamente os três sentidos acima. O homem, a natureza, a ordem moral são realidades que correspondem a um projecto de Deus realizável no tempo e na história cujo alcance o homem pode atingir pela razão. Existe uma ordem natural que o homem pode conhecer e constitui norma da sua acção. A verdade tem uma dimensão prática, a de um projecto a realizar: projecto de vida, de si mesmo, de cada pessoa, projecto universal de sociedade, de humanidade. “o Bem supremo e o bem moral encontram-se na verdade: a verdade de Deus Criador e Redentor e a verdade do homem criado e redimido por Ele” (VS 99)
Também a palavra “caridade” está carregada de ambiguidades. Vulgarmente designa a ajuda prestada a alguém em situação de favor, conotando a relação de inferioridade de quem é apoiado. No sentido etimológico, caridade corresponde ao termo grego “ágape” usado sobretudo no Novo Testamento para significar o amor cristão eloquentemente caracterizado no “hino à caridade” (I Cor, 13).
A caridade designa o “querer bem”, o “amor oblativo”, que “procura o bem do amado” e nele encontra o seu próprio bem, o “cuidado do outro e pelo outro”, capaz de renúncia e sacrifício (DCE 6). Neste sentido, diz Bento XVI, “A caridade [...] é o princípio não só das micro-relações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas também das macro-relações como relacionamentos sociais, económicos, políticos.” (CIV 2)
Verdade e caridade exigem-se mutuamente. A verdade reclama a caridade. Procurar a verdade, estar na verdade não é possuir a verdade como uma coisa, não é usá-la arbitrariamente contra alguém, numa qualquer ditadura da verdade, mas partilhá-la no respeito por todos os que na liberdade a devem procurar, encontrar e servir. A verdade exige a caridade para aceitar o que pensa diferente como interlocutor e não como adversário, para compreender o seu pensamento e avaliá-lo à luz da sua expressão e argumentação e não do preconceito que o rotula ou marginaliza. A verdade deve ser expressa com integridade, mas também no respeito pela condição do outro, em termos adequados para ser por ele acolhida racionalmente. A verdade não é abstracção, mas razão comum que se serve e partilha no amor que visa o bem do outro, o bem da comunidade, tanto quanto o seu.
A caridade reclama a verdade. A caridade visa as relações humanas, de seres capazes de verdade que explicam e justificam a sua prática por aquilo que compreendem e avaliam à luz da sua razão. A verdade visa o acordo dos espíritos, normas universais que regulem a vida em sociedade. Expressa na linguagem da razão, à luz da verdade, a caridade pode ser “compreendida” e “comunicada” gera diálogo e partilha, pode configurar uma razão comum que ultrapassa os subjectivismos e particularismos. “A verdade abre e une as inteligências no lógos do amor” (CIV4).
Sem a verdade, a caridade deixa de ser razão comum, linguagem comum, para cair nas contingências do sentimentalismo, no particularismo da emoção que contagia mas não une, no subjectivismo do consolo que autojustifica e isola. “Sem a verdade, a caridade acaba confinada num âmbito restrito e carecido de relações; fica excluída dos projectos e processos de construção dum desenvolvimento humano de alcance universal, no diálogo entre o saber e a realização prática” (CIV4). Sem a verdade, a actividade social fica entregue às lógicas do poder e dos jogos da política, dos interesses dos blocos e forças de pressão. Aí o cristianismo é remetido para a esfera íntima dos bons sentimentos ocasionalmente mobilizáveis, mas fora do campo das decisões e eficácia real.
A caridade tem uma dimensão política. A Igreja não se marginalizou dos problemas da sociedade. Acompanhou o desenvolvimento do processo social, actualizando a sua reflexão e operacionalizando a sua doutrina em princípios que orientam a actuação moral e política de acordo com a “caridade na verdade”. Bento XVI salienta dois critérios: a justiça e o bem comum.
Não há caridade sem justiça, sua exigência mínima e seu “primeiro caminho”. “A caridade supera a justiça” na esfera das relações, aperfeiçoando a lógica de direitos e de deveres “com a lógica do dom e do perdão”, “da gratuidade, misericórdia e comunhão”. (CIV 6)
O bem comum é “o bem daquele «nós-todos », formado por indivíduos, famílias e grupos intermédios que se unem em comunidade social” e só nela o podem alcançar eficazmente. A dimensão institucional e política da caridade concretiza-se no empenhamento em prol do bem comum alargado à dimensão de toda a humanidade. “Numa sociedade em vias de globalização, o bem comum e o empenho em seu favor não podem deixar de assumir as dimensões da família humana inteira, ou seja, da comunidade dos povos e das nações” (CIV7).

por Octávio Gil Morgadinho

Siglas: CIV – “Charitas in Veritate” , “Caridade na Verdade”; DCE - “Deus Charitas est”, “Deus é Amor”; VS - “Veritatis Splendor”, “O Esplendor da Verdade”.

Imagem tirada AQUI

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