27 de janeiro de 2010

Re-educar na temperança

Apesar da crise generalizada e a todos os níveis, envolvente, que nos afecta e condiciona, continuamos a constatar como na sociedade actual, – pesando embora os desníveis sociais de injustiças gritantes –, muitos se afogam no consumismo de bens essenciais e, sobretudo, supérfluos.
Nesta sociedade de consumo, corremos o risco do desfrute de tantas possibilidades, que se torna imperiosa uma reeducação na virtude da temperança. Certamente, não se trata da virtude mais importante, mas a moderação no uso do agradável, constitui uma necessidade urgente neste contexto social, marcado pela multiplicação dos recursos e a busca constante do prazer.
Não há dúvida de que os que não estão habituados a negar-se nada, que abrem a porta a tudo o que pedem os sentidos, os que procuram em primeiro lugar, agradar ao corpo e apenas se afanam na busca das maiores comodidades, dificilmente poderão ser senhores de si próprios e conseguir os bens que perduram, os bens eternos…
Os bens são, normalmente, excelentes, porque são bens! Mas a preocupação desmedida pelo material, embota o espírito para os valores espirituais e, muitas vezes, também, para os valores humanos, que não compreendem e para os quais se encontram incapacitados… São uma parte do mau terreno de que nos fala o Evangelho, onde “a semente lançada pelo semeador”, não pode germinar e produzir bons frutos…
Precisamos de estar atentos para não nos deixarmos levar por esse afã desmedido de bem-estar, presente em muitos sectores do mundo actual, onde se pensa que o êxito, o triunfo na vida, consiste em ter mais e na ostentação do que se possui.
O verdadeiro êxito está em sermos fiéis no cumprimento da missão para que fomos criados e dotados, fazendo render todas as capacidades e talentos para o desenvolvimento da humanidade.
Podemos dizer que fomos “programados” para os bens mais elevados, os do espírito e, por isso, o nosso coração anseia sempre mais. Apenas as coisas terrenas, deixam-no insatisfeito e triste, porque tem dimensões de infinito…Tinha razão Santo Agostinho, quando depois de um extenso e tortuoso percurso, finalmente, descobriu e reconheceu:
“Criaste-nos, Senhor para Ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em Ti!”…
Viver bem a virtude da temperança, supõe andar desprendidos dos bens, dar-lhes a importância relativa que têm e não mais; não inventar necessidades e não realizar gastos inúteis, pensando nos que não têm o essencial para viver… Ter moderação na comida e na bebida; no descanso e prescindir de caprichos.
Com a nossa vida sóbria e temperada podemos ensinar aos jovens e menos jovens, que “o homem vale mais pelo que é do que pelo que tem”. De modo particular, os Pais devem ensinar e ajudar os filhos a crescer com liberdade perante os bens materiais, adoptando um estilo de vida simples e austera. E, de um modo geral, todos precisamos de nos esforçar em manter o senhorio sobre os sentidos, internos e externos que, desenfreados, causam muitos danos em nós e à nossa volta. A temperança deve impregnar toda a nossa vida: desde as comodidades do lar, até aos instrumentos de trabalho e aos modos de divertir-se.
Dá exemplo de temperança quem sabe fazer um uso moderado da Televisão, da Internet e, em geral, dos instrumentos de conforto que nos oferece a técnica, sem estar excessivamente pendentes do bem-estar que nos proporcionam.
Entre muitas outras coisas, a temperança faz também referência à moderação da curiosidade, da imaginação, dos juízos sobre os outros que, muitas vezes, são uma projecção do que temos no nosso interior pouco recto; moderação do falar sem medida, do porte externo, das bromas ou chalaças…
“Penso – afirmava o Papa João Paulo II – que esta virtude exige também de cada um de nós uma humildade específica em relação aos dons que Deus colocou na natureza humana. Eu diria a “humildade do corpo” e a “do coração” que tão bem se coaduna com a rejeição da ostentação e da néscia vaidade”.
A temperança é uma grande defesa diante da agressividade de um ambiente saturado de bens materiais. Humaniza mais o ser humano e possibilita a sua plenitude como pessoa.

Por Mª Helena H. Marques

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