4 de janeiro de 2010

Não sabem o que fazem

Como previsto, a lei de legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo segue o seu caminho. Nenhuma consideração de bom senso ou legitimidade democrática a parece deter. Em breve, dizem, Portugal terá a honra de figurar na reduzida lista dos países livres, modernos e progressivos.
Alguns aspectos do processo são bastante curiosos. Um dos mais hilariantes é o facto de o Governo não se dar conta do ridículo da situação. Empossado para resolver os problemas do País não mostra a menor capacidade de o fazer. O desemprego explode, a justiça embrulha-se, a educação discute, a saúde engorda, a economia afunda-se em dívidas sem que as autoridades manifestem sequer compreender o que há a fazer. Não convencem ninguém e só conservam o poder porque ainda se confia menos nas alternativas. Neste panorama desolador mantêm uma pose infantil de dignidade graças a iniciativas abstrusas como esta. Algumas são caras, negativas, prejudiciais. A mais tola é o casamento dos homossexuais. O mesmo Executivo que foi homicida na liberalização do aborto e irresponsável na facilitação do divórcio é agora apenas patético insistindo na lei perante a desgraça dos desempregados, descalabro financeiro, apatia geral.
Se a tolice dos políticos não admira, o elemento surpreendente é essa indiferença da população. Qualquer que seja a posição que se tome neste assunto, é consensual que se trata de uma mudança fundamental, decisiva. Mesmo se esta geração já viu os citados ataques muito piores contra a família é estranho o desinteresse global.
Aqui actuam décadas de doutrinação serena e insistente. Não se consegue anestesiar um povo para tolices destas sem um esforço longo e atento. Mas com trabalho intenso e paciente é possível levar multidões até a aceitar as maiores selvajarias, como mostraram jacobinos, nazis, estalinistas e tantos outros. Uma lei tonta nem custa nada.
Para mais, hoje o mal tem uma máquina de propaganda que nunca teve. Todos nós, todas as noites, sentados no sofá, assistimos a atrocidades incríveis, chacinas psicopatas, planos maquiavélicos. Chamamos a isso divertimento. É verdade que em geral o bem ainda ganha no fim dos filmes e séries. Mas começam a multiplicar-se os casos em que justiça não tem a última palavra. Chama-se a isso realismo. Claro que depois dessas doses maciças de violência, sexo e adrenalina nos sentimos normais. Mas vamos cedendo e perdendo a capacidade de nos indignar, distinguir diferenças, analisar problemas. O jornalismo vive de clichés, boatos, intrigas, julgamentos apressados. Tudo nos embota a sensibilidade, amortece o raciocínio, tolda o juízo.
É verdade que a mesma máquina de controlo mental também nos instila indignação, discernimento e análise, mas em coisas secundárias. Hoje se um homem abandonar a família para fugir com a mulher de outro é mera expressão de sensibilidade, manifestação legítima do direito ao amor. Mas se forem a fumar serão severamente censurados.
Assim, perante a mudança do conceito de casamento, alteração muito mais radical que a revisão constitucional, a maior parte das pessoas nada mais diz senão que cada um faz da sua vida o que quer e todos merecem respeito. Duas afirmações verdadeiras e irrelevantes ao tema. Se o Governo pretendesse mudar a definição de pensionista, sindicato, eleitor ou contribuinte a discussão seria enorme, sem ninguém invocar a liberdade e respeito. Mudar o casamento faz-se numa simples manhã, entre dois decretos polémicos.
O futuro terá dificuldade em compreender esta apatia. Nós que nos dizemos tão sensíveis aos direitos humanos, tão sofisticados na estrutura legislativa, tão delicados no detalhe regulador, mostramos a maior boçalidade em assuntos cruciais.
Todos estes graves disparates sociais acabarão por desaparecer. Há 50 anos os intelectuais queriam eliminar os mercados, há 100 anos destruir a religião, há 200 enforcar a nobreza. Hoje, tudo isso não passa de horrores antigos que temos dificuldade em entender. O futuro terá dificuldade em entender os nossos.


por João César das Neves
in DN, 04/01/2010

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