20 de janeiro de 2010

Das alterações climáticas à Ecologia Humana

A Conferência da ONU de Copenhaga sobre alterações climáticas de Dezembro passado visava tomar decisões e estabelecer acordos globais e vinculativos para controlar e lidar com a degradação progressiva do ambiente que ameaça as condições da vida e um futuro sustentável da Terra.”Saldou-se por um fracasso” - dizem uns.
“É apenas um começo” – diz o Secretário Geral da ONU, mas “é um passo na direcção certa”.
Variam os indicadores, as suas interpretações e análise científica, confrontam-se posições ideológicas, interesses políticos e económicos no domínio da ecologia.
Divergem as estimativas das consequências previsíveis das alterações do clima. É, por isso, difícil o acordo sobre as metas a atingir, as medidas a implementar, o respectivo preço, a repartição de custos e responsabilidades, os critérios de diferenciação contributiva e compensatória entre países e regiões. Como em qualquer negociação, as partes tendem a defender interesses, vantagens e posições adquiridas ou a conquistar, evitando cedências que os ponham em causa. Ninguém aceita perder. A actividade negociadora das delegações oficiais dos 192 países não foi facilitada pela acção mediática, a violência de rua, a ruidosa ou discreta movimentação nos bastidores das vários correntes de opinião e grupos de interesses que com ela pretendiam interferir. Tão complexa era a tarefa que havia sérias dúvidas sobre o seu êxito. De facto a Conferência de Copenhaga não conseguiu estabelecer normas definidas, nem sequer gerar consenso para aprovar as propostas para base de acordo. Ficou o compromisso indefinido de uma ajuda económica significativa aos países em desenvolvimento para enfrentar as consequências das alterações climáticas e a promessa de continuação do debate e ulteriores negociações.
Os problemas ambientais de que as alterações climáticas são sintoma preocupante têm factores que escapam ao controle do homem e outros que dependem da sua acção. Estes implicam a sua responsabilidade. Sobre eles incide primariamente a reflexão da Igreja numa posição não científica, técnica ou política, mas ética, ao nível das convicções e dos valores, da dignidade e responsabilidade solidária do ser humano pela natureza, dom de Deus a ele confiado.
No centro de toda a problemática ambiental está a pessoa humana, os seus direitos e os seus deveres. O homem é mais importante que a natureza. Depende cada vez mais dele a sustentabilidade do planeta e dos seus habitantes: o equilíbrio da natureza, a preservação das condições de vida e dos recursos, um desenvolvimento que proporcione condições de salubridade e vida digna a toda a humanidade, qualquer que seja a região do mundo em que habite.
A natureza não pode ser abusada e desbaratada pelos caprichos da tecnologia ou do consumo, mas também não é tabu intocável ou ídolo servido com culto fanático e fundamentalista.
A “ecologia da natureza”, a “ecologia humana” e a “ecologia social”são dimensões da reciprocidade entre a convivência humana e a natureza, entre a natureza e cultura. A natureza é o ambiente da vida, da vida na sua múltipla diversidade, riqueza, beleza e harmonia, da vida que atinge no homem o mais alto grau da sua evolução.
O ser humano dotado de inteligência, capacidade interpretativa, criativa e transformadora criou as artes, ciências e técnicas que dominam, transformam, aperfeiçoam e também podem abusar e degradar a natureza.
O homem é livre, com poder de escolha e determinação por valores, através do juízo da sua consciência moral. Cada homem é responsável por si e pelos que dependem das suas decisões individuais ou solidariamente assumidas na participação nas estruturas sociais. A natureza é, em qualquer época, moldada pela cultura, pelas formas de vida que o homem cria, inclusivamente pelas expectativas que sobre ela alimenta.
No nosso tempo, são evidentes as consequências da acção abusiva do homem que, no desrespeito pelas leis da natureza, pelos seus limites, recursos e capacidade de regeneração, põem em perigo a continuidade, a qualidade e a diversidade da vida. A degradação ou a regeneração da natureza está ligada à forma como o homem se comporta e relaciona com os outros, com a cultura que molda a convivência humana, com os projectos políticos e interesses económicos que determinam o seu uso. Uma cultura individualista e consumista, insaciável na depradação de recurso, fomentadora do desperdício, desrespeitadora dos direitos dos fracos e mais pobres produziu a desflorestação, a desertificação, a depradação dos recursos hídricos, a poluição ambiental, as grandes catástrofes ambientais e com elas a pobreza e as desigualdades que dividem o mundo. Os problemas ambientais são problemas humanos. Os problemas humanos são ambientais. Impõe-se uma profunda transformação cultural assente nos valores da pessoa humana, da solidariedade e responsabilidade universal e intergeracional.
Há uma só terra, há uma só humanidade para partilhar equitativamente, administrar e cuidar dos recursos da criação.
A nova cultura exige atitudes e estilo de vida sóbrios, de gestão e poupança dos recursos alimentares e energéticos, de redução dos consumos supérfluos, de disponibilidade dos excessos, de recuperação dos desperdícios, de preservação dos espaços comuns e do ambiente. A nova cultura tem de ser respeitadora da vida, da “missão insubstituível da família onde se educa para o amor do próximo e o respeito da natureza”, aberta ao próximo diferente e mais carente, ao próximo longínquo habitante duma só terra, também ele merecedor de condições de vida digna. Tem que reconhecer o valor do trabalho, de todo e qualquer trabalho para que todos a ele tenham acesso com idênticas condições de respeito e de remuneração. Não há sustentabilidade da natureza sem a preservação do “património humano da sociedade”.
“Para proteger o ambiente e tutelar os recursos e o clima é preciso, por um lado, agir no respeito de normas bem definidas mesmo do ponto de vista jurídico e económico e, por outro, ter em conta a solidariedade devida a quantos habitam nas regiões mais pobres da terra e às gerações futuras” – lembra Bento XVI na Mensagem do Dia Mundial da Paz de 2010.
A Conferência de Copenhaga não concretizou o objectivo de estabelecer normas vinculativas.
Pareceu transparecer alguma abertura para a ajuda aos mais pobres. A preservação do ambiente não pode fazer esquecer a necessidade de um desenvolvimento equilibrado para que grande parte da humanidade tenha acesso à parte dos bens da criação a que tem direito para atingir uma vida digna.

por Octávio Gil Morgadinho

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