2 de novembro de 2009

Quando as folhas caem!


Amarelecidas estão em queda as folhas das árvores. E é triste vermos a natureza despir-se da sua mais bela roupagem. Ficam os ramos como mãos erguidas, em súplica, na demanda de melhores dias. As próprias árvores mostram-se tristes com a mutação.
Dão mesmo sinais de irreversível enfraquecimento. Estão anémicas. Pelas nervuras não corre seiva. Não choram mas gemem silenciosamente, como uma mãe a quem roubaram o filho, ou o perdeu num dobrar de uma esquina das muitas traiçoeiras que a vida reserva.
As folhas, essas vemo-las esvoaçando ao sabor do vento num dia de maior fortaleza; outras são pisadas inclementemente e outras escapam à fúria de tudo, aquietando-se, por entre o esquecimento, fazendo lembrar o ser humano, o seu trajecto vital.
Até que um dia de umas ou outras não resta o mais leve vestígio.
Também cada um de nós já foi uma árvore com folhas, que foi ou vai enfraquecendo e, tal como as folhas, foi esmagada, outras vezes rodopiou em função das circunstâncias da vida, algumas vezes sobreviveu sem esforço, recorrendo a artimanhas, expedientes, enganos e delas vivendo.
Só que não nos ocorre pensar que um dia não restará o mais leve vestígio.
É assim, sem tirar nem pôr, inelutavelmente, no Outono das árvores, é assim no Outono da nossa vida.
Se muita gente da nossa terra meditasse neste percurso vital viveríamos mais felizes e faríamos os outros mais felizes.
Era evitável a ofensa grosseira entre alguns políticos, a cegueira pelos interesses pessoais daria lugar ao desempenho em nome do bem comum, o sorriso cínico cederia e em vez dele o afloramento de um coração puro povoaria os lábios, à hipocrisia opor-se-ia a verdade e à injustiça o recto tratamento do outro, como irmão.
Falo assim, porque na crise de valores que se instalou entre nós, parece não haver lugar para uma réstea de amor nos nossos corações, tocados por uma vasta gama de venenos. Somos uma árvore envenenada que contamina os ramos, os frutos e as folhas.
De Gerald Ford, antigo Presidente dos Estados Unidos, se disse ser o mais comum dos americanos, porque era um cidadão em cujo coração se não fabricava o mal.
Não havia lugar nele para a maldade, julgou-o a sociedade de que era nacional.
Quem dera que pudéssemos aplicar a muitos dos responsáveis do nosso país esse modelo.
Conta-se que o velho Diógenes, filósofo da Grécia antiga, tido como louco, se passeava nu por Atenas, com uma candeia acesa, em pleno dia, pose que o governo repudiou vivamente pelo desplante e insensatez irrepetível.
Perguntado pelo porquê da ousadia respondeu o velho filósofo que procurava a verdade de dia porque à noite nem pensar achá-la na sua cidade, onde reinava toda a sorte de injustiças, trapaças, desonestidades e infidelidades; que utilizava a candeia porque a cidade era um manto negro de desmandos que nem com a candeia se via. Tentativa infrutífera, em vão, asseverava, desiludido, o velho pensador.
Entre nós nem com a candeia acesa se via um palmo à frente dos olhos.
Não sejamos Diógenes nu, mas procuremos implantar a verdade, cada um com a sua candeia acesa, que não é mais do que a consciencialização por cada um do que pode mudar, na esperança da construção de uma sociedade melhor, onde cada um se sinta pessoa que respeita e é respeitada, sentinela contra a injustiça seja ela qual for, provenha donde provier, feroz opositor do oportunismo, do projecto de interesse pessoal, da mentira, do aniquilamento dos que não têm defesa, dos idosos, pobres, crianças, doentes, desempregados e socialmente inadaptados.
Outra atitude conduz, fatalmente, a um lodaçal maior do que aquele que já nos rodeia. E os responsáveis por esse desastre nacional movido por gente sem escrúpulo, puro egoísmo, ambição pessoal, sua, para si e familiares e amigos, dinheiro e benesses sem conta, que lhes encheram os bolsos, esvaziando os do povo, muito particularmente os do povo humilde, devem ser travados de intervir e, mais do que isso, levados a julgamento por administração danosa, tráfico de influências, corrupção, etc.


por Armindo Monteiro

0 Comentários:

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More