14 de julho de 2009

Os avós e os netos

imagem retirada do site: http://www.motherswhowork.co.uk/cms/

Custa-me falar deste tema, em abstracto. Habituei-me, de pequeno, a observar a 'experiência' de uns e a 'ternura' de outros... e, agora, passo os olhos por numerosas famílias e sinto a falta desta relação. Isto, com prejuízo para ambas as partes: pois, se os netos precisam da experiência da vida, matizada de suor e com histórias mais ou menos reais; os avós regozijam-se com a inocência e a ternura dos mais pequenos. E ambos falam de continuidade... apesar da distância!

Por D. Augusto César



É certo que há quem diga que os avós, hoje em dia, são os verdadeiros educadores dos netos; uma vez que os pais não têm tempo (e, alguns, nem tempo nem afecto disponível, a não ser ao fim de semana). Por outra parte a sociedade deixou-se dominar pela linguagem do 'interesse' fazendo perigar os valores fundamentais e antepondo os cálculos da produção, ao respeito pela relação afectiva da família e pela missão educativa que lhe cabe. Daí, que muitos filhos sintam falta de referência, à conta do capricho da moda e do egoísmo que muitas vezes decide, só por si, o comportamento moral da família. 



E como resultado ou causa duma sociedade assim (economicista, sem mais!), vem a necessidade de acantonar os avós, em Lares, e os netos, em Infantários. Depois, surge naturalmente um distanciamento, por motivo do trabalho e de alguma acomodação: as crianças passam a depender menos dos pais e mais da escola; e os idosos passam a ser vistos de longe ou, apenas, ao fim do mês, quando a reforma chega e deixa algum. E se em alguns casos não falta carinho de per meio, idosos há que passam meses sem ver a família. Outros, pior ainda, sentem que são um peso, em casa. E a linguagem social repete a palavra ‘velho’ (os velhos!) com acento de quem está a mais, porque não produz. É, por isso, que os designativos de ‘velhinhos’ ou ‘idosos’, não ferem nem deseducam os mais novos.

Bem sabemos, entretanto, que a questão não é de palavras, mas de ‘respeito’ e ‘gratidão’. Pois, os idosos que apresentam rugas e cabelo branco... ou são doentes e precisam de ajuda, trazem consigo uma vida de trabalho e dedicação à família e ao bem comum que, só por si, fala eloquentemente do progresso que agora é nosso, mas não foi construído por nós. Repito: diante dos idosos, todos somos devedores; por isso, não fazemos nada de mais, se lhes dermos um lugar no autocarro ou, com um sorriso carinhoso, lhes estendermos a mão. Quase me atrevia a pedir, com insistência, aos Meios de Comunicação Social, que divulgassem estes exemplos e ajudassem a criar uma ‘escola de bem-fazer’; pois, se o escândalo é mais rendoso, não promove a solidariedade nem fala do respeito e da gratidão, que são o preço justo e merecido.

Uma das coisas que incomoda as ideologias do tempo, é ver a doação gratuita de quantos se dedicam aos idosos e aos pobres, que não pagam e precisam; e ver as obras sociais da Igreja feitas por amor e sem desistência. Mas têm que se resignar, pois, esta herança foi inscrita, por Deus, no coração do homem (quando atento ao seu semelhante) e deixada por Jesus Cristo à Igreja, como missão que se perpetua através dos tempos. Aliás, as ideologias sugerem ou impõem um sistema de ‘justiça’ que pretende resolver tudo com dinheiro; mas a doação gratuita foi aprendida ao colo da mãe e denuncia o egoísmo que não sabe rezar o Pai-nosso. Assim, os regimes totalitários ou reivindicativos criam um clima de desconfiança e de medo; e os regimes mais realistas e fraternos abrem a porta a quem bate e gostam de saborear o ditado popular: é melhor ‘dar’ que ‘receber’.

Em conclusão: o núcleo familiar mais eloquente e educativo, é composto pelos pais, filhos, avós e netos. De sorte que as idades diferentes, ajudam a educar e a manter a esperança, até mais longe. E tanto a doação gratuita como a gratidão sentida, geram um movimento de amor que sai, constantemente, ao encontro do próximo, quer habite em casa ou fora dela. Assim é Deus, no Seu ser e no Seu agir; e Jesus Cristo ensinou os discípulos a dar a mão a quem precisa e desde o lugar onde se encontra. Por sua vez, os velhinhos (mais sãos ou mais doentes) pouco valor dão à força dos nossos discursos e à opulência dos nossos haveres; mas agradecem a proximidade do nosso afecto e o carinho da nossa dedicação. A isto, chama-se humanismo; mas o verbo humanizar anda, a cada passo, distante dos balcões de atendimento e das instituições de tratamento. Por isso, de que vale celebrar com muita festa os afortunados dos cem anos (e mais), se ao longo do caminho conta mais o soldo do que a dedicação e, no horizonte da vida, o espectro da eutanásia é capricho de quem pensa que pode tirar o que não deu?

Houve um homem, limitado de saúde, mas grande de coração, que soube ler a família (o seu valor e os seus valores) de modo singular. E dedicou-lhe toda a sua vida, reunindo à sua volta as chamadas “Cooperadoras da Família”, que prolongam no tempo o seu ideal ou paixão. Esse homem chamava-se Mons. Alves Brás. E a nossa gratidão pelos velhinhos, também lhe pertence como apóstolo da família. Resumia, assim, o seu ideal e a sua entrega: “Família, torna-te aquilo que és”, isto é, sê fiel ao projecto de Deus! Que as famílias e os velhinhos olhem para nós e sintam confiança.

0 Comentários:

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More