22 de julho de 2009

Do “Sonho à Realidade”

Conta-se que um jovem, cuja imaginação não tinha limites, sonhava mudar o mundo!
Conforme foi crescendo, ia reconhecendo que, afinal, não conseguia; por isso seria mais razoável, mais modesto, mudar apenas o país...
Mas, com o tempo e já adulto, pareceu-lhe também impossível. Quando chegou à velhice, já se conformava em tentar transformar a família, os que lhe estavam mais próximos.
Quando chegou a doença que o impedia de se movimentar, reconheceu, finalmente, que tinha sido tudo em vão; muito pouco ou quase nada, tinha conseguido!
Agora, no seu leito, em que a vida tentava ir - se escapando, compreendeu uma coisa: “Ah, se pelo menos tivesse tentado começar por modificar-me a mim mesmo, talvez a minha família seguisse o meu exemplo e, com a sua inspiração e alento, talvez tivesse sido capaz de mudar o meu país e - quem sabe - talvez tivesse podido mudar o mundo”!...
Este relato recolhido num registo da Abadia de Westminster, pode servir-nos de reflexão, acerca do sentido crítico e do desejo de transformação que todos temos no nosso interior.
O sentido crítico, para ser eficaz, é necessário experienciá-lo em primeiro lugar, em nós próprios, como reconheceu no final da sua vida o protagonista referido atrás. Só quando sabemos o que custa melhorar e como é importante e libertador, só então poderemos observar os demais com alguma objectividade e ajudá-los realmente. Apenas aquele que tem experiência e é capaz de dizer as coisas a si mesmo, sabe depois como e quando dizê-la aos demais, e é capaz também de escutá-las dirigidas a si próprio, com boa disposição...
Saber receber e aceitar a crítica é prova de profunda sabedoria. Deixar dizer as coisas com oportunidade, saber ouvir e agradecer, é sinal de grandeza espiritual e inteligência clara. Aprender da crítica construtiva é decisivo para fazer render os próprios talentos. Porque temos sempre muito a aprender, sempre poderemos melhorar!
Deste modo, reconhecemos que, como também advertiu com lucidez aquele homem no final dos seus dias, a chave da nossa capacidade para ajudar os outros, está sempre ligada à nossa capacidade de modificar-nos a nós mesmos.
Mas para a consecução de tão importantes objectivos, é imprescindível uma boa formação que exige, em primeiro lugar, um conjunto de conhecimentos que permita uma modificação qualitativa na nossa existência. Não se trata de armazenar dados, mas sim de conseguir um conjunto de saberes bem estruturado: uns amplos conhecimentos da própria especialidade profissional a par de um desejo universal de ter um mínimo de iniciação a outros saberes.
Em segundo lugar, é preciso procurar a formação do juízo: esse juízo que em ciência significa espírito crítico e método, que em arte se chama gosto, e que na vida prática se traduz em discernimento e lucidez. Paralelamente a essa formação nos conhecimentos e no juízo, é necessário acrescentar, em terceiro lugar, o exercício das virtudes individuais e sociais, assim co-mo o cultivo de outras dimensões humanas, porque bem sabemos que para viver com acerto não basta o conhecimento. As pessoas de bem não se identificam simplesmente com as que sabem ética, mas sim com as que a põem em prática.
A formação deve despertar no mais profundo do coração humano, uma atracção consistente para os valores. Deve descobrir a vida como um projecto que parte de uma plataforma que nós não escolhemos, mas que decorrerá pelos trilhos que nos propusemos.
Como afirmava Ortega, a vida foi-nos dada, mas não nos foi dada feita.
Platão, por outro lado, assegurava que o objectivo da educação é a virtude e o desejo de converter-se em um bom cidadão, e insistia em que não pode classificar-se de educativa uma tarefa orientada a transmitir conhecimentos que não vão acompanhados da razão e da justiça.
Séneca, também assinalava que uma boa educação deve dotar a pessoa de uma sólida contextura moral, que a faça avançar na aquisição da ciência do bem e do mal.
Uma formação adequada, deve ajudar, necessariamente, a orientar rectamente o uso da liberdade. Isto exige em primeiro lugar o ensino do bem, a seguir o alento para pô-lo em actos, mediante um responsável compromisso pessoal.
Lucidez para ver o que devemos fazer e força para querer fazê-lo, porque não somos como as máquinas que basta programar...
É evidente que a par do desenvolvimento da inteligência, deve estar a consolidação da vontade e a educação dos sentimentos, concretizados em compromisso pessoal.
Um compromisso para avançar por um caminho que requer esforço, sentido do dever, disciplina pessoal e sacrifício, porque sem ele, nada ou quase nada valioso pode conseguir-se, nem na vida intelectual, nem na vida moral.

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