19 de junho de 2009

Missão das Cooperadoras em Cabinda


Nestes últimos anos, o Jornal da Família, tem publicitado algumas Campanhas em favor do Povo de Cabinda/Angola, onde as Cooperadoras da Família estão em missão desde o ano 2000. A última Campanha, “Um sorriso para Cabinda”, que foi lançada em Dezembro de 2007, assinalou os 75 anos de fundação do Instituto Secular das Cooperadoras da Família. O Jornal da Família entrevistou a Cooperadora Lídia Gomes Pranchas, na sua passagem por Portugal, a fim de melhor conhecer a missão das Cooperadoras em Cabinda, e informar sobre o modo como essas Campanhas têm contribuído para apoiar o povo Cabindense.

Lídia Gomes Pranchas
Cooperadora da Família

Jornal da Família (JF) - Lídia, sabemos que vive em Cabinda, há 6 anos, com mais duas Cooperadoras, pode descrever-nos, o que tem sido essa experiência missionária?

Lídia - Começo por agradecer esta oportunidade que me permite falar do trabalho missionário que estamos a realizar junto do povo de Cabinda, um povo muito acolhedor e respeitador. A nossa acção missionária engloba o cuidado da promoção humana e da formação das pessoas, para que o sonho que acalentam, de um futuro melhor, se torne realidade.
Isto mesmo tem constituído para nós, um incentivo e um estímulo a prosseguir e perseguir o objectivo que nos anima: proporcionar às pessoas a possibilidade de desfrutarem desse futuro como realidade objectiva e não mera utopia…




JF - Essa experiência de missão dá sentido e possibilita a realização da vocação de Consagrada Secular e Cooperadora da Família?

Lídia - Esta experiência, dá um especial sentido a todas as dimensões da nossa vida, porque a pessoa é esta tríade inseparável e intrínseca de humano, psicológico e espiritual ou religioso. E, quando se procura Ser, com e para os outros, a realização pessoal é plena, tanto mais, quanto este “ser com e para os outros” constitui o cerne da vida e missão de qualquer consagrado secular, estando na linha de fronteira, de modo a consagrar o mundo, a partir de dentro, evangelizando as mesmas realidades.

JF - No dia a dia da vossa permanência em Cabinda, como se solidarizam com o povo? o que lhe oferecem, como o apoiam?

Lídia - Bom, o nosso dia a dia é, em parte, igual ao de todos. Porém, a missão exige viver-se numa tensão permanente para se saber quanto, quando e como necessitam de apoio, para além do testemunho permanente da nossa vivência de fé. Implica o identificar as suas carências, que são imensas: desde necessidades básicas às culturais e lúdicas, salvo a dança e a música, porque aí ninguém os bate… Assim, a acção desenvolvida, concretiza-se materialmente na distribuição de bens alimentares, quando existem; de medicamentos e aplicação de tratamentos ambulatórios; de alfabetização e aulas de ensino básico; formação feminina (costura, bordados, relações humanas e culinária) e formação familiar. Com o nosso transporte, apoiamos a população, tanto para ir buscar lenha, levar e trazer pessoas, fazer outros serviços nas lavras, como transportamos pessoas e bens para a cidade, cerca de 40 km, em situações de emergência e outras necessidades pontuais. Tudo realizamos, para que as pessoas sejam capazes de enfrentar o futuro, pelos seus próprios meios. Gostaríamos de poder ministrar, também, a formação profissional, por forma a capacitá-los para gerir o seu futuro, criar o seu próprio emprego, já que este rareia. Confiamos que este sonho se torne brevemente realidade.

JF - Percebe-se que existem carências a vários níveis, o que deve gerar algum sentido de impotência a quem vive lado a lado. O que mais lhes custa nessa situação?

Lídia - É verdade, ali as pessoas sofrem de muitas e várias carências. Só para exemplificar: não há transportes públicos que façam ligação entre os vários municípios; não há condições nem modos de conservar e escoar os excedentes agrícolas, logo, trabalha-se a terra para se comer no dia a dia…; não há empregos para a maioria das pessoas, para além dos funcionários públicos, há pouco comércio, pouca indústria e poucos serviços à comunidade.
Para além do trabalho agrícola, alguns dedicam-se à pesca, onde isso é possível.
Quanto à impotência sentida, para ajudar a solucionar estes problemas, é difícil explicar por palavras humanas o que nos vai na alma… Neste contexto, vai-se alimentando a esperança e criando mentalidade, apelando à necessidade e importância de se formarem e prepararem, pois, estamos certas, de que um dia o sol também brilhará no horizonte das suas vidas!

JF - Muitos dos leitores do Jornal da Família têm contribuído para as Campanhas com géneros e monetariamente. Pode informar-nos da utilidade prática dessas Campanhas?

Lídia - Com todo o gosto. Para além da Campanha "Apadrinhar", gostaria de dar especial realce à Campanha - 'Uma Tenda para Deus' que teve como objectivo satisfazer o pedido de um grupo de refugiados que queriam construir uma capela, lembram-se?!.
Muito bem! Essa capela foi construída na aldeia de Kumboliambo e hoje está identificada com o nome de ‘Capela-Igreja Católica da Sagrada Família’. Eu própria transportei uma imagem da Sagrada Família, que aí foi entronizada como Padroeira, em 2001. Outra Campanha, foi para apoiar o Orfanato, uma Instituição Católica que alberga cerca de meia centena de rapazes, órfãos, ou provenientes de famílias em dificuldade. Com o seu produto compraram-se alfaias agrícolas, particularmente um mini-tractor para facilitar o cultivo das terras. Uma terceira Campanha destinava-se à aquisição de uma fotocopiadora para o mesmo Orfanato, já que este tem anexada uma Escola de Ensino Básico, presentemente com cerca de duas centenas e meia de alunos, da pré à 6ª classe. Porém, de acordo com o Director do mesmo, viu-se que era mais útil a aquisição de um gerador de energia, uma vez que a falta de electricidade é muito frequente, para não dizer quase diária. Está operacional e com muita utilidade, como deve calcular…
A Campanha, 'Um Sorriso para Cabinda' destina-se à construção de uma nova residência de apoio social e formação profissional para adolescentes e jovens de modo a prepará-los e qualificá-los, tanto quanto possível, em ordem a um melhor futuro.
Graças a Deus, conseguiu-se um terreno de 100x80 m, localizado a cerca de 5 km da cidade, onde já construímos o muro de vedação, conforme se pode comprovar pela foto. Aguardamos aprovação do projecto planta dos edifícios/ equipamentos com capacidade de resposta aos objectivos que nos propusemos realizar: apoiar, socialmente, o maior número possível de jovens e prepará-los para o futuro, ministrando Cursos de Formação Profissional na área dos Serviços, em parceria com a Escola Profissional de Serviço e Apoio Social de Portugal, Fundação Mons. Joaquim Alves Brás.

JF - Pelo que nos diz, as necessidades são imensas. Tudo leva a crer que é necessário continuar a suscitar a solidariedade com Cabinda!

Lídia - Sem dúvida. A nossa acção seria muito limitada, sem a solidariedade de todos. Queremos efectivamente ser uma alma grande ao serviço do Evangelho, da Formação e da Solidariedade.
Esse é o grande objectivo que nos move, desde a primeira hora. Daí mantermos a esperança de que se todos contribuírem com o seu ‘óbulo’, por pequeno que seja, a obra há-de nascer…

JF - A última Campanha, “Um Sorriso para Cabinda” destinava-se à construção desse dito Centro de Formação Profissional e Apoio Social. Sabe-se que a morosidade dos processos, é um grande obstáculo. Pode dizer-nos, mais concretamente, que passos já foram dados para a sua realização?

Lídia - A pergunta é de facto pertinente e tem a sua razão de ser, porque a morosidade é realmente muito grande. Graças a Deus, cremos estar no bom caminho.
Muitos passos foram já dados e presentemente aguardamos a aprovação por Lisboa do Projecto/
Planta dos edifícios. Tivemos em mãos um primeiro esboço que não foi terminado por razões alheias à nossa vontade. Tivemos que iniciar outro projecto, o que provocou algum atraso. Mas se Deus quiser, vamos conseguir.

JF - Sei que existe uma jovem natural de Cabinda, em caminhada formativa, com perspectivas de ser Cooperadora. Como vive Cabinda a questão das vocações de consagração e sacerdotais?

Lídia - Sim, por graça de Deus, já temos uma vocacionada. Mas, tal como a crise económica tem rosto mundial, também no campo vocacional se sentem as normais dificuldades. A ‘messe continua grande, mas os trabalhadores... Há que rezar muito ao Senhor da Messe para que envie os operários para a Sua Messe'.
Todos são chamados a dar o melhor de si para minorar os efeitos nefastos da “crise”, ou para que os seus efeitos não sejam tão negativos na Família, na Sociedade e na Igreja. Cabinda não é excepção, como deve calcular.
Diz-se que na Europa, a falta de vocações tem a sua origem na crise da família. Mas parece mais lógico considerar a falta de vivência dos valores, que assola em todas as sociedades, porque o mundo tornou-se esta pequena aldeia global, tanto para o bem como para o mal… Quanto às vocações ao sacerdócio também vão aparecendo, talvez não tanto quanto as necessárias ou as desejáveis. Porém, comparando com a Europa, damo-nos por muito felizes, pois sempre vai entrando um número razoável de jovens para o Seminário, embora nem todos perseverem.

JF - Com base na experiência missionária destes anos, que palavra, que apelos e que desafios gostaria de deixar aos leitores do Jornal da Família?

Lídia - Os desafios são mais que muitos. O primeiro dos quais é viver, na família, nas comunidades e nos grupos, os valores do respeito, da honestidade, da verdade, da fidelidade e da solidariedade.
Estes valores são a base para uma convivência pacífica e para o reconhecimento da igual dignidade da pessoa humana.
É indispensável ter-se a ousadia de reconhecer, testemunhar e anunciar o valor sagrado e inviolável da pessoa humana, sem olhar à raça, cor, condição social, religião ou nação. Se assim for, então é verdade o que diz o nosso poeta “Deus quer, o homem sonha e a obra nasce”. Por fim, quero deixar uma palavra de sentida gratidão, a todos os que têm colaborado para a concretização dos nossos projectos, em Cabinda. E permito-me apelar, de novo, à solidariedade para o crescimento e a solidez do Reino de Deus, na cidade dos homens, mais concretamente, a promoção de cada pessoa a dignificação da família.


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