16 de março de 2009

Valores em época de crise


Tem-se falado da ganância dos gestores de produtos financeiros e seus utilizadores que levou uns e outros a riscos desmedidos com as consequências que se conhecem. A ânsia do lucro exagerou a suposta capacidade empreendedora e inovadora de alguns e baixou o limiar de prudência, muitos para aceitar a promessa de lucros extraordinários sem a garantia adequada.
Acreditamos facilmente nas promessas que desejamos. Por isso a “pirâmide” repete-se com pobres e ricos, sejam os vigaristas Ponzi, D. Branca ou Madoff.
A presente crise vai implicar revisão de formas de estar na vida, dos valores que servem de referência às práticas sociais e individuais e submeter à vigilância crítica a racionalidade das práticas financeiras, a fiabilidade dos modelos económicos, a segurança das entidades e instrumentos de regulação e ligar a liberdade de iniciativa à correspondente responsabilidade.

A nossa sociedade tem vistas curtas. Fascinada pelo imediato, aparente e propagandeado, acredita cegamente no que lhe convém e tem alguma superstição pelo rotulado de novo sob aparência técnica e científica.
Concede a primazia aos valores individuais do sucesso, da competição e do triunfo a qualquer preço, favorece a aparência e o luxo, estimula a posse e o consumo, o prazer e a satisfação sem limites do desejo.
A comunicação de massas exibe em espectáculo os modelos do triunfo fácil e da riqueza, os fruidores do ócio e do luxo, a minoria esbanjadora, jovem e saudável, que faz sonhar e esquecer o quotidiano do trabalho modesto e devotado, da vida partilhada, solidária e frugal, da contribuição anónima para que o mundo seja o que é.
As condições actuais levantam suspeitas sobre a validade dessas crenças. A profundidade da crise tornou patente a evolução cíclica da economia, a insegurança das suas previsões e dos seus modelos científicos. Não há prosperidade para sempre. Os altos e baixos dos fluxos financeiros, as oscilações da actividade económica sucedem-se com alguma imprevisibilidade e com eles os rendimentos do trabalho e do investimento, a consequentemente segurança no emprego, a capacidade financeira e o estatuto social dos indivíduos.
Velhos valores voltam a ser chamados à actualidade.
sobriedade nos gastos, a gestão cuidadosa dos bens, tendo em conta o médio e o longo prazo.
poupança qual almofada de apoio para prevenir a incerteza do futuro, as descontinuidades do trabalho, as contingências da vida e alimentar o investimento.
Já sabíamos que os empregos para toda a vida tinham desaparecido.
A crise veio agravar a situação e mostrar que ninguém tem seguro o trabalho, o lugar e o estatuto económico. Cada um precisa prevenir-se para a hipótese do desemprego, para outro trabalho, outro emprego, com outro rendimento. Ninguém pode alienar as suas responsabilidades.
A sociedade não resolve tudo. Cada um tem de controlar as suas dependências num mundo em que as oportunidades estão ligadas aos riscos e a qualidade de vida aos padrões e possibilidades escolhidas entre as acessíveis.
solidariedade. A crise tornou evidente que todos dependemos uns dos outros nos problemas e nas soluções. São precisos acordos para conciliar os interesses de todos e definir as possibilidades de cada um. A globalização obriga a considerar a realidade uns dos outros, as suas carências e exigências, os valores e ambições legítimas, os seus deveres e aspirações. É necessária uma solidariedade concreta, de proximidade mais atenta ao outro que ultrapasse a escala dos indivíduos e mobilize as comunidades. O súbito desemprego, o acumular de dívidas, o colapso de pequenas empresas, o extravio de poupanças cria necessidades inesperadas e constrangimentos que requerem resposta imediata para assegurar a subsistência e equilíbrio psicológico e moral de pessoas e famílias. A percepção comum de ameaça, a tomada de consciência da dependência e da pobreza, a instabilidade e insegurança aproximam e favorecem o sentido da cooperação e a solidariedade contra a competição estéril.
O mito do sucesso fácil, através de estratagemas e malabarismos dos “espertos” está posto em causa. Permanece o valor do trabalho como meio de subsistência, realização da capacidade criadora e participação no bem comum da sociedade. O trabalho é garante de autonomia.
A profissão não pode ser vista apenas na perspectiva de enriquecimento individual. Tem uma função social. E como tal deve ser regulada. Nem todos podem ter a mesma ocupação, mas todos devem ter oportunidade expandir as suas potencialidades e poder de iniciativa e atingir o sucesso correspondente ao investimento, à competência do seu trabalho e às disponibilidades do mercado.
“As pessoas de sucesso são aquelas que fizeram o máximo da série de dons que lhe foram concedidos pela sua cultura ou história, pela sua geração” - declara Malcolm Gla-dwell, autor do livro Outliers:The story ofSuccess
educação é factor básico de valorização pessoal, de promoção social, do potencial de trabalho e emprego e da respectiva independência económica. É hoje o verdadeiro património que nenhuma crise desvaloriza. O investimento na educação é seguro ao nível dos indivíduos e dos países. Exige-o a evolução tecnológica, as condições de produção e o mercado de trabalho. Daí que o potencial económico de um país seja medido pela eficiência do seu ensino e a sua vitalidade avaliada pela capacidade da escola superar as desigualdades e integrar e promover os socialmente marginalizados.
À educação compete a formação do carácter e do sentido moral, o fortalecimento do sentido ético da existência, a preparação para a vida real, ensinando a enfrentar as dificuldades a gerir meios, expectativas e possibilidades.
Deve contribuir para a estruturação dum projecto de vida, exercitar a atitude crítica e a liberdade responsável.
A educação é a formação da pessoa para a convivência, para o respeito e para a colaboração, para a responsabilidade por si e para a partilha das responsabilidades das comunidades em que necessariamente terá de viver.
Uma família estável e estruturada é um valor pessoal e comunitário no plano da realização pessoal e partilha de vida, do desenvolvimento psicológico, da estabilidade afectiva e de saúde espiritual. É também um valor social e económico. Ser mãe solteira ou desfazer um casamento são factores de empobrecimento pela alteração de projecto de vida, pelas consequências económicas e pelas dependências e instabilidade que provoca.
“Os filhos são uma bênção de Deus” - diz o Livro dos Salmos (S 126). Uma família unida no amor é também factor de prosperidade.
As nossas sociedades desenvolvidas precisam de famílias com filhos que garantam o capital mais valioso, o humano, uma população estável. A Europa e nela Portugal tendem a tornar-se sociedades velhas com o predomínio dos não activos na sociedade e a diminuição da capacidade criativa, inovadora e produtiva dos mais novos. A prosperidade das sociedades, o nosso futuro, precisa de filhos, precisa da família.






Por Octávio Gil Morgadinho

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